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PortuguêsUERJ2015

CANÇÃO DO VER

[1] Fomos rever o poste.

O mesmo poste de quando a gente brincava de pique

e de esconder.

Agora ele estava tão verdinho!

[5] O corpo recoberto de limo e borboletas.

Eu quis filmar o abandono do poste.

O seu estar parado.

O seu não ter voz.

O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com

[10] as mãos.

Penso que a natureza o adotara em árvore.

Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos1 de passarinhos

que um dia teriam cantado entre as suas folhas.

Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.

[15] Mas o mato era mudo.

Agora o poste se inclina para o chão − como alguém

que procurasse o chão para repouso.

Tivemos saudades de nós.

Manoel de Barros Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

Agora ele estava tão verdinho! (v. 4) De modo diferente do que ocorre em passarinhos, o emprego do diminutivo, no verso acima, contribui para expressar um sentido de:

PortuguêsUERJ2016

A última fala da tirinha causa um estranhamento, porque assinala a ausência de um elemento fundamental para a instalação de um tribunal: a existência de alguém que esteja sendo acusado. Essa fala sugere o seguinte ponto de vista do autor em relação aos usuários da internet:

PortuguêsUERJ2015

bem no fundo

[1] no fundo, no fundo,

bem lá no fundo,

a gente gostaria

de ver nossos problemas

[5] resolvidos por decreto

a partir desta data,

aquela mágoa sem remédio

é considerada nula

e sobre ela − silêncio perpétuo

[10] extinto por lei todo o remorso,

maldito seja quem olhar pra trás,

lá pra trás não há nada,

e nada mais

mas problemas não se resolvem,

[15] problemas têm família grande,

e aos domingos saem todos a passear

o problema, sua senhora

e outros pequenos probleminhas

Paulo LeminskiToda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.

A última estrofe apresenta imagens relacionadas à família. Em relação ao conjunto do texto, a figuração do casal com seus filhos pequenos remete à ideia de:

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A sequência das falas indica uma compreensão do que seja esperança. O recurso não verbal que reforça essa compreensão é:

PortuguêsUERJ2019

Os três poemas a seguir foram retirados doLivro de sonetos, de Vinicius de Moraes

(São Paulo: Companhia das Letras, 2009).

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

[3] E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento

[6] Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

[9] De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

[12] Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

Na terceira estrofe (v. 9-11), a seleção vocabular evidencia a passagem de um estado emocional a outro por parte do poeta.

A partir dessa seleção, os estados emocionais por que passa o poeta podem ser definidos como:

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CANÇÃO DO VER

[1] Fomos rever o poste.

O mesmo poste de quando a gente brincava de pique

e de esconder.

Agora ele estava tão verdinho!

[5] O corpo recoberto de limo e borboletas.

Eu quis filmar o abandono do poste.

O seu estar parado.

O seu não ter voz.

O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com

[10] as mãos.

Penso que a natureza o adotara em árvore.

Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos1 de passarinhos

que um dia teriam cantado entre as suas folhas.

Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.

[15] Mas o mato era mudo.

Agora o poste se inclina para o chão − como alguém

que procurasse o chão para repouso.

Tivemos saudades de nós.

Manoel de Barros Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

A memória expressa pelo enunciador do texto não pertence somente a ele. Na construção do poema, essa ideia é reforçada pelo emprego de:

PortuguêsUERJ2018

− Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições.

A fala inicial do conto anuncia que a história combina gêneros textuais distintos. Além da narrativa, o outro gênero que se realiza nesse conto é o da:

PortuguêsUERJ2014

O tempo em que o mundo tinha a nossa idade

Nesse entretempo, ele nos chamava para escutarmos seus imprevistos improvisos. As estórias

dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo. Nenhuma narração tinha fim, o

sono lhe apagava a boca antes do desfecho. Éramos nós que recolhíamos seu corpo dorminhoso.

Não lhe deitávamos dentro da casa: ele sempre recusara cama feita. Seu conceito era que a morte

[5] nos apanha deitados sobre a moleza de uma esteira. Leito dele era o puro chão, lugar onde a

chuva também gosta de deitar. Nós simplesmente lhe encostávamos na parede da casa. Ali ficava

até de manhã. Lhe encontrávamos coberto de formigas. Parece que os insectos gostavam do suor

docicado do velho Taímo. Ele nem sentia o corrupio do formigueiro em sua pele.

- Chiças: transpiro mais que palmeira!

[10] Proferia tontices enquanto ia acordando. Nós lhe sacudíamos os infatigáveis bichos. Taímo nos

sacudia a nós, incomodado por lhe dedicarmos cuidados.

Meu pai sofria de sonhos, saía pela noite de olhos transabertos. Como dormia fora, nem dávamos

conta. Minha mãe, manhã seguinte, é que nos convocava:

- Venham: papá teve um sonho!

[15] E nos juntávamos, todos completos, para escutar as verdades que lhe tinham sido reveladas.

Taímo recebia notícia do futuro por via dos antepassados. Dizia tantas previsões que nem havia

tempo de provar nenhuma. Eu me perguntava sobre a verdade daquelas visões do velho,

estorinhador como ele era.

- Nem duvidem, avisava mamã, suspeitando-nos.

[20] E assim seguia nossa criancice, tempos afora. Nesses anos ainda tudo tinha sentido: a razão

deste mundo estava num outro mundo inexplicável. Os mais velhos faziam a ponte entre esses

dois mundos. (...)

Mia Couto Terra sonâmbula. São Paulo, Cia das Letras, 2007.

A escrita literária de Mia Couto explora diversas camadas da linguagem: vocabulário, construções sintáticas, sonoridade. O exemplo em que ocorre claramente exploração da sonoridade das palavras é:

PortuguêsUERJ2017

Ao fugir para o Brasil, metade dos Brun ganhou uma perna a mais. O “n” virou “m”. Mas essa perna a mais era um membro fantasma, um ganho que revelava uma perda. (l. 26-27)

A autora associa a troca de letras no registro do sobrenome de seu tetravô à expressão um membro fantasma. Essa associação constrói um exemplo da figura de linguagem denominada:

PortuguêsUFRR2015

[...] – Afinal, quem é você?

– Sua sombra. Huhuhu! Gostou da viagem que fez pelas quatro montanhas de palavras, conceitos e teorias?

– Muito. Nela, encontrei o elixir do rejuvenescimento.

– Descobri que sou um alienado, historicamente, ignorante como a maioria dos tupiniquins. Preciso de mais chão para voar mais alto...

[...] Proponho um pacto: você me socorre e será socorrido.

– Qual a missão? Percebi sua mudança de estratégia.

– Minha grande indignação com os carniceiros humanos...

Espero que a genética da nossa espécie nunca se degenere a ponto de nos tornarmos seres infelizes e produtores de lixo como o bicho-homem. [...]

[...] “se você quiser caçar macacos tem que aprender a subir em árvores”. Huhuhu! Agora, no meu desassossego, sofro por não saber como caçar quem destrói nosso nicho ecológico.

Todas as alternativas fazem referências ao livro, EXCETO: