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PortuguêsUNESP2015

Protestos a Arminda

Conheço muitas pastoras

Que beleza e graça têm,

Mas é uma só que eu amo

Só Arminda e mais ninguém.

Revolvam meu coração

Procurem meu peito bem,

Verão estar dentro dele

Só Arminda e mais ninguém.

De tantas, quantas belezas

Os meus ternos olhos veem,

Nenhuma outra me agrada

Só Arminda e mais ninguém.

Estes suspiros que eu solto

Vão buscar meu doce bem,

É causa dos meus suspiros

Só Arminda e mais ninguém.

Os segredos de meu peito

Guardá-los nele convém,

Guardá-los aonde os veja

Só Arminda e mais ninguém.

Não cuidem que a mim me importa

Parecer às outras bem,

Basta que de mim se agrade

Só Arminda e mais ninguém.

Não me alegra, ou me desgosta

Doutra o mimo, ou o desdém,

Satisfaz-me e me contenta

Só Arminda e mais ninguém.

Cantem os outros pastores

Outras pastoras também,

Que eu canto e cantarei sempre

Só Arminda e mais ninguém.

(Viola de Lereno, 1980.)

Levando em consideração o contexto da estrofe, assinale a alternativa em que a forma verbal surge no modo imperativo.

PortuguêsUNESP2016

MÃOS

Mãos de veludo, mãos de mártir e de santa,

o vosso gesto é como um balouçar de palma;

o vosso gesto chora, o vosso gesto geme, o vosso

[gesto canta!

Mãos de veludo, mãos de mártir e de santa,

rolas à volta da negra torre da minh’alma.

Pálidas mãos, que sois como dois lírios doentes,

Caridosas Irmãs do hospício da minh’alma,

O vosso gesto é como um balouçar de palma,

Pálidas mãos, que sois como dois lírios doentes...

Mãos afiladas, mãos de insigne formosura,

Mãos de pérola, mãos cor de velho marfim,

Sois dois lenços, ao longe, acenando por mim,

Duas velas à flor duma baía escura.

Mimo de carne, mãos magrinhas e graciosas,

Dos meus sonhos de amor, quentes e brandos ninhos,

Divinas mãos que me heis coroado de espinhos,

Mas que depois me haveis coroado de rosas!

Afilhadas do luar, mãos de rainha,

Mãos que sois um perpétuo amanhecer,

Alegrai, como dois netinhos, o viver

Da minha alma, velha avó entrevadinha.

(Obras poéticas, 1968.)

Indique o verso cuja imagem significa “trazer sofrimentos, padecimentos”.

PortuguêsUNESP2018

Analise o trecho da letra do samba “Brasil pandeiro”, de Assis Valente, composto em 1940.

Chegou a hora dessa

gente bronzeada

mostrar seu valor!

[...]

eu quero ver

O Tio Sam tocar pandeiro

Para o mundo sambar

O Tio Sam está querendo

conhecer a nossa batucada

anda dizendo

que o molho da baiana

melhorou seu prato

Vai entrar no cuscuz

acarajé e abará

Na Casa Branca

já dançou a batucada

[...]

(Assis Valente. “Brasil Pandeiro”, 1940.Apud Antonio Pedro Tota. O imperialismo sedutor, 2000.)

Esse samba pode ser considerado um exemplo.

PortuguêsUNESP2017

Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida descontente,

repousa lá no Céu eternamente,

e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueças daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

alguma coisa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te,

quão cedo de meus olhos te levou.

(Sonetos, 2001.)

Embora predomine no soneto uma visão espiritualizada da mulher (em conformidade com o chamado platonismo), verifica- se certa sugestão erótica no seguinte verso:

PortuguêsUNESP2015

A gente Honório Cota

Quando o coronel João Capistrano Honório Cota mandou erguer o sobrado, tinha pouco mais de trinta anos. Mas já era homem sério de velho, reservado, cumpridor. Cuidava muito dos trajes, da sua aparência medida. O jaquetão de casimira inglesa, o colete de linho atravessad pela grossa corrente de ouro do relógio; a calça é que era como a de todos na cidade — de brim, a não ser em certas ocasiões (batizado, morte, casamento — então era parelho mesmo, por igual), mas sempre muito bem passada, o vinco perfeito. Dava gosto ver:

O passo vagaroso de quem não tem pressa — o mundo podia esperar por ele, o peito magro estufado, os gestos lentos, a voz pausada e grave, descia a rua da Igreja cumprimentando cerimoniosamente, nobremente, os que por ele passavam ou os que chegavam na janela muitas vezes só para vê-lo passar.

Desde longe a gente adivinhava ele vindo: alto, magro, descarnado, como uma ave pernalta de grande porte. Sendo assim tão descomunal, podia ser desajeitado: não era, dava sempre a impressão de uma grande e ponderada figura. Não jogava as pernas para os lados nem as trazia abertas, esticava-as feito medisse os passos, quebrando os joelhos em reto.

Quando montado, indo para a sua Fazenda da Pedra Menina, no cavalo branco ajaezado de couro trabalhado e prata, aí então sim era a grande, imponente figura, que enchia as vistas. Parecia um daqueles cavaleiros antigos, fugidos do Amadis de Gaula ou do Palmeirim, quando iam para a guerra armados cavaleiros.

(Ópera dos mortos, 1970.)

Em seu conjunto, a descrição do coronel sugere uma figura que

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Leia o trecho extraído do livro A dança do universo do físico brasileiro Marcelo Gleiser para responder à questão.

Durante o século VI a.C., o comércio entre os vários Estados gregos cresceu em importância, e a riqueza gerada levou a uma melhoria das cidades e das condições de vida. O centro das atividades era em Mileto, uma cidade-Estado situada na parte sul da Jônia, hoje a costa mediterrânea da Turquia. Foi em Mileto que a primeira escola de filosofia pré-socrática floresceu. Sua origem marca o início da grande aventura intelectual que levaria, 2 mil anos depois, ao nascimento da ciência moderna. De acordo com Aristóteles, Tales de Mileto foi o fundador da filosofia ocidental.

A reputação de Tales era legendária. Usando seu conhecimento astronômico e meteorológico (provavelmente herdado dos babilônios), ele previu uma excelente colheita de azeitonas com um ano de antecedência. Sendo um homem prático, conseguiu dinheiro para alugar todas as prensas de azeite de oliva da região e, quando chegou o verão, os produtores de azeite de oliva tiveram que pagar a Tales pelo uso das prensas, que acabou fazendo uma fortuna.

Supostamente, Tales também previu um eclipse solar que ocorreu no dia 28 de maio de 585 a.C., que efetivamente causou o fim da guerra entre os lídios e os persas. Quando lhe perguntaram o que era difícil, Tales respondeu: “Conhecer a si próprio”. Quando lhe perguntaram o que era fácil, respondeu: “Dar conselhos”. Não é à toa que era considerado um dos Sete Homens Sábios da Grécia Antiga. No entanto, nem sempre ele era prático. Um dia, perdido em especulações abstratas, Tales caiu dentro de um poço. Esse acidente aparentemente feriu os sentimentos de uma jovem escrava que estava em frente ao poço, a qual comentou, de modo sarcástico, que Tales estava tão preocupado com os céus que nem conseguia ver as coisas que estavam a seus pés.

(A dança do universo, 2006. Adaptado.)

Em “Tales também previu um eclipse solar que ocorreu no dia 28 de maio de 585 a.C.” (3o parágrafo), o termo destacado exerce função de

PortuguêsUNESP2018

Leia o soneto “Nasce o Sol, e não dura mais que um dia”, do poeta Gregório de Matos (1636-1696), para responder à questão.

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?

Se é tão formosa a Luz, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

(Poemas escolhidos, 2010.)

Em “Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,” (1a estrofe), a conjunção aditiva “e” assume valor

PortuguêsUNESP2020

Para responder à questão, leia o trecho de uma fala do personagem Quincas Borba, extraída do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, publicado originalmente em 1891.

— […] O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas. [...] Aparentemente, há nada mais contristador que uma dessas terríveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse suposto mal é um benefício, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistência, como porque dá lugar à observação, à descoberta da droga curativa. A higiene é filha de podridões seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho.

(Quincas Borba, 2016.)

Em “mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é condição da sobrevivência da outra” e “As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos”, os termos sublinhados estabelecem relação, respectivamente, de

PortuguêsUNESP2016

A invasão

A divisão ciência/humanismo se reflete na maneira como as pessoas, hoje, encaram o computador. Resiste--se ao computador, e a toda a cultura cibernética, como uma forma de ser fiel ao livro e à palavra impressa. Mas computador não eliminará o papel. Ao contrário do que se pensava há alguns anos, o computador não salvará as florestas. Aumentou o uso do papel em todo o mundo, e não apenas porque a cada novidade eletrônica lançada no mercado corresponde um manual de instrução, sem falar numa embalagem de papelão e num embrulho para presente. O computador estimula as pessoas a escreverem e imprimirem o que escrevem. Como hoje qualquer um pode ser seu próprio editor, paginador e ilustrador sem largar o mouse, a tentação de passar sua obra para o papel é quase irresistível.

Desconfio que o que salvará o livro será o supérfluo, o que não tem nada a ver com conteúdo ou conveniência.Até que lancem computadores com cheiro sintetizado, nada substituirá o cheiro de papel e tinta nas suas duas categorias inimitáveis, livro novo e livro velho. E nenhuma coleção de gravações ornamentará uma sala com o calor e a dignidade de uma estante de livros. A tudo que falta ao admirável mundo da informática, da cibernética, do virtual e do instantâneo acrescente-se isso: falta lombada. No fim, o livro deverá sua sobrevida à decoração de interiores.

(O Estado de S.Paulo, 31.05.2015.)

Em “falta lombada” (2o parágrafo), o cronista se utiliza, estilisticamente, de uma figura de linguagem que

PortuguêsUNESP2017

Seu Afredo (ele sempre subtraía o “l” do nome, ao se apresentar com uma ligeira curvatura: “Afredo Paiva, um seu criado...”) tornou-se inesquecível à minha infância porque tratava-se muito mais de um linguista que de um encerador. Como encerador, não ia muito lá das pernas. Lembro-me que, sempre depois de seu trabalho, minha mãe ficava passeando pela sala com uma flanelinha debaixo de cada pé, para melhorar o lustro. Mas, como linguista, cultor do vernáculo1 e aplicador de sutilezas gramaticais, seu Afredo estava sozinho.

Tratava-se de um mulato quarentão, ultrarrespeitador, mas em quem a preocupação linguística perturbava às vezes a colocação pronominal. Um dia, numa fila de ônibus, minha mãe ficou ligeiramente ressabiada2 quando seu Afredo, casualmente de passagem, parou junto a ela e perguntou-lhe à queima-roupa, na segunda do singular:

– Onde vais assim tão elegante?

Nós lhe dávamos uma bruta corda. Ele falava horas a fio, no ritmo do trabalho, fazendo os mais deliciosos pedantismos que já me foi dado ouvir. Uma vez, minha mãe, em meio à lide3 caseira, queixou-se do fatigante ramerrão4 do trabalho doméstico. Seu Afredo virou-se para ela e disse:

– Dona Lídia, o que a senhora precisa fazer é ir a um médico e tomar a sua quilometragem. Diz que é muito bão.

De outra feita, minha tia Graziela, recém-chegada de fora, cantarolava ao piano enquanto seu Afredo, acocorado perto dela, esfregava cera no soalho. Seu Afredo nunca tinha visto minha tia mais gorda. Pois bem: chegou-se a ela e perguntou-lhe:

– Cantas?

Minha tia, meio surpresa, respondeu com um riso amarelo:

– É, canto às vezes, de brincadeira...

Mas, um tanto formalizada, foi queixar-se a minha mãe, que lhe explicou o temperamento do nosso encerador:

– Não, ele é assim mesmo. Isso não é falta de respeito, não. É excesso de... gramática.

Conta ela que seu Afredo, mal viu minha tia sair, chegou-se a ela com ar disfarçado e falou:

– Olhe aqui, dona Lídia, não leve a mal, mas essa menina, sua irmã, se ela pensa que pode cantar no rádio com essa voz, ‘tá redondamente enganada. Nem em programa de calouro!

E, a seguir, ponderou:

– Agora, piano é diferente. Pianista ela é!

E acrescentou:

– Eximinista pianista!

(Para uma menina com uma flor, 2009.)

Em “Conta ela que seu Afredo, mal viu minha tia sair, chegou-se a ela com ar disfarçado e falou [...]” (12o parágrafo), a conjunção destacada pode ser substituída, sem prejuízo para o sentido do texto, por: