Texto para aquestão
PARDAIS NOVOS
Um dia o meu telefone, instalado à cabeceira de minha cama, retiniu violentamente às sete da manhã. Estremunhado tomei do receptor e ouvi do outro lado uma voz que dizia: “Mestre, sou um pardal novo. Posso ler-lhe uns versos para que o senhor me dê a sua opinião?” Ponderei com mau humor ao pardal que aquilo não eram horas para consultas de tal natureza, que ele me telefonasse mais tarde. O pardal não telefonou de novo: veio às nove e meia ao meu apartamento.
Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo. Ele mesmo como que concordou que o não era, pois perguntando-lhe eu a idade, hesitou contrafeito para responder que tinha 35 anos. Ainda por cima era um pardal velho!
Desde esse dia passei a chamar de pardais novos os rapazes que me procuram para mostrar-me os seus primeiros ensaios de voo no céu da poesia. Dizem eles que desejam saber se têm realmente queda para o ofício, se vale a pena persistir etc. Fico sempre embaraçado para dar qualquer conselho. A menos que se seja um Rimbaud ou, mais modestamente, um Castro Alves, que poesia se pode fazer antes dos vinte anos? Como Mallarmé afirmou certa vez que todo verso é um esforço para o estilo, acabo aconselhando ao pardal que vá fazendo os seus versinhos, sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha.
(...)
Manuel Bandeira, Melhores crônicas. Global Editora.Tendo em vista o gênero literário em que se enquadra o texto, o autor permite-se o uso de uma expressão típica da linguagem informal em:
Examine este cartum:
Tendo em vista a reação do garçom, dentre as palavras abaixo, a mais adequada para figurar como legenda do cartum é:
No mar de dúvidas
Há duas maneiras de aprender qualquer coisa: uma, leve, suave, com informações corretas mas
superficiais, que, pela incompletude da lição, não indo aos assuntos a ela correlatos, acaba sendo
insuficiente para permitir a fixação da aprendizagem. É um método que pode agradar, e até divertir o
leitor menos exigente; mas não lhe garante o sucesso do conhecimento.
[5] A segunda maneira é aquela que procura dar um passo à frente da resposta breve e imediata:
estabelece relações entre a dúvida apresentada e outros assuntos afins, de modo que, aprofundando um
pouco mais a lição, amplia o conhecimento e garante sua permanência, porque não se contenta em ficar
na superfície dos problemas e das dúvidas.
Falamos em superfície, e a palavra nos sugere agora uma comparação entre as duas maneiras
[10] de aprender das quais vimos tratando. A primeira ensina a pessoa, no mar de dúvidas, a manter-se à
superfície; não afunda, mas não sai do lugar. A segunda, além de permitir à pessoa permanecer à
superfície, ensina-lhe a dar braçadas, ir mais além. Assim, pela primeira maneira, a pessoa boia; pela
segunda, nadando, avança e chega a seu destino.
Evanildo Bechara, Na ponta da língua. Adaptado.Sobre os verbos “boiar” e “nadar”, empregados metaforicamente no texto, é correto afirmar:
Texto para aquestão
Por que o senhor não escreve coisas poéticas, soltas, gostosas? As crônicas, antigamente, nos deixavam mais leves, de bem com a vida e o mundo. Agora, tudo o que a gente lê nos leva para baixo. Está difícil de suportar. Escrevo na manhã de um domingo. Sete horas. Aquele sol que nos tem castigado, começava a dar sinais de ardência profunda. Olhei pela porta de vidro do terraço e descobri, maravilhado e feliz, que a pitangueira plantada em vaso, que chegou há dois anos, estava repleta de frutos vermelhos, reluzentes, envernizados. Os primeiros. Fiquei admirado. Os pássaros não tinham descoberto? Aquelas frutinhas tinham se salvado? Chupei uma, duas três, queria todas, mas precisava guardar para a família, afinal, eram as primeiras. Pitanga, coisa de infância, do interior. Uma das frutas mais sofisticadas do Brasil, a meu ver. Antigamente, quando viajávamos pela Varig, ao sair do Recife, recebíamos um copo de suco fresco de pitanga, perfumado. Dia desses, Maria Eduarda, amiga pernambucana, me disse: “Você está chegando aqui, sabemos que gosta de vinhos. Que vinho prefere?”. E eu: “Nenhum! Quero suco de pitanga”. Maria Eduarda: “Pois vai tomar das pitangas do pomar de meu pai, Cornélio”. Foi uma celebração!
Esta é a pitada de poesia que encontrei neste momento. Mas ficaram em minha mente essas perguntas cotidianas que todos estão fazendo. Ouço no dia a dia, pela manhã ao comprar o pão e o leite, no supermercado, no bar, numa escola, na livraria, ao entrar no cinema. Ouvi agora, ao percorrer cinco cidades do litoral (...). Jovens e mais velhos, acreditando que o escritor tem as respostas, me olhavam: “O senhor acha que a gente sai dessa?”. Só consegui dizer: “Não sei e acho que ninguém sabe”.
Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo, 02/10/2015.Sobre os procedimentos do autor quanto aos recursos de construção, a única afirmação que NÃO está correta é:
Texto para aquestão
TALENTOS DESVALORIZADOS
Em meio ao furor gerado pelos escândalos de assédio sexual nos Estados Unidos – assédio, não galanteios –, perdida ficou uma discussão para lá de
urgente: o papel da mulher na academia, sobretudo na Economia. Na última reunião da American Economic Association, houve uma sessão especialmente
dedicada ao papel da mulher na economia e às evidências de discriminação que saltam aos olhos na profissão.
Betsey Stevenson, professora da Universidade de Michigan, analisou a ocorrência de nomes e pronomes masculinos nos exemplos dos livros-texto mais
[5] utilizados nos cursos básicos de Economia. Seus achados? Cerca de 77% das vezes, os principais livros de economia valem-se de exemplos com homens para
explicar conceitos fundamentais: “Fulano de tal é um fazendeiro que vende trigo em um mercado onde há concorrência perfeita. Ele é, portanto, um
tomador de preços”.
As mulheres aparecem apenas 18% das vezes, e, quando aparecem, são consumidoras, donas de casa, ou pessoas que sofrem a ação de outras – elas
raramente aparecem como tomadoras de decisão e quase nunca são citadas como gestoras de política econômica.
[10] Erin Hengel, da Universidade de Cambridge, examinou o tratamento conferido às mulheres nas principais publicações científicas. Artigos acadêmicos de
autoria de mulheres levam, em média, seis meses a mais para passar pelo processo de peer review – o controle de qualidade da academia. Ou seja,
mulheres que produzem artigos com a mesma qualidade e importância que os homens enfrentam critérios mais rigorosos na avaliação de sua pesquisa.
Como a publicação em uma revista científica de ponta é a métrica fundamental a partir da qual a competência de um pesquisador acadêmico é avaliada,
não surpreende que haja menos mulheres com status de professoras titulares nos principais departamentos de economia das mais importantes
[15] universidades americanas do que homens.
Sobre as seguintes expressões utilizadas pela autora em sua argumentação, entendidas no contexto em que ocorrem, a única afirmação correta é:
Leia o texto para responder à questão
Pela tarde apareceu o Capitão Vitorino. Vinha numa burra velha, de chapéu de palha muito alvo, com a fita verde- -amarela na lapela do paletó. O mestre José Amaro estava sentado na tenda, sem trabalhar. E quando viu o compadre alegrou-se. Agora as visitas de Vitorino faziam-lhe bem. Desde aquele dia em que vira o compadre sair com a filha para o Recife, fazendo tudo com tão boa vontade, que Vitorino não lhe era mais o homem infeliz, o pobre bobo, o sem-vergonha, o vagabundo que tanto lhe desagradava. Vitorino apeou-se para falar do ataque ao Pilar. Não era amigo de Quinca Napoleão, achava que aquele bicho vivia de roubar o povo, mas não aprovava o que o capitão fizera com a D. Inês.
– Meu compadre, uma mulher como a D. Inês é para ser respeitada.
– E o capitão desrespeitou a velha, compadre?
– Eu não estava lá. Mas me disseram que botou o rifle em cima dela, para fazer medo, para ver se D. Inês lhe dava a chave do cofre. Ela não deu. José Medeiros, que é homem, borrou-se todo quando lhe entrou um cangaceiro no estabelecimento. Me disseram que o safado chorava como bezerro desmamado. Este cachorro anda agora com o fogo da força da polícia fazendo o diabo com o povo.
(José Lins do Rego, Fogo Morto)Sem que haja alteração de sentido do texto, assinale a alternativa correta quanto à regência verbal
Leia o texto para responder à questão.
O Supremo Tribunal Federal mostrou na semana passada que há focos de ________________ em Brasília. Ministros e juízes podem merecer melhores salários, mas ficar sem reajuste neste momento é apenas uma bela demonstração de bom ________________. Afinal, as contas públicas não fecham, ________________ recursos para hospitais e escolas, o governo estuda aumentar impostos e o desemprego atinge 13,5 milhões de brasileiros. Os ministros, diante desse cenário dantesco, deram sua cota de sacrifício. Nesse espírito, a presidente do Supremo encaminhou seu voto. Disse ela: “Nunca vi, nos meus quase quarenta anos de serviço público, um momento de tamanha gravidade ________________”.
(Veja, 16.08.2017. Adaptado)Sem prejuízo de sentido ao texto, a frase “Os ministros, diante desse cenário dantesco, deram sua cota de sacrifício.” está corretamente reescrita em:
Texto para aquestão
PARDAIS NOVOS
Um dia o meu telefone, instalado à cabeceira de minha cama, retiniu violentamente às sete da manhã. Estremunhado tomei do receptor e ouvi do outro lado uma voz que dizia: “Mestre, sou um pardal novo. Posso ler-lhe uns versos para que o senhor me dê a sua opinião?” Ponderei com mau humor ao pardal que aquilo não eram horas para consultas de tal natureza, que ele me telefonasse mais tarde. O pardal não telefonou de novo: veio às nove e meia ao meu apartamento.
Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo. Ele mesmo como que concordou que o não era, pois perguntando-lhe eu a idade, hesitou contrafeito para responder que tinha 35 anos. Ainda por cima era um pardal velho!
Desde esse dia passei a chamar de pardais novos os rapazes que me procuram para mostrar-me os seus primeiros ensaios de voo no céu da poesia. Dizem eles que desejam saber se têm realmente queda para o ofício, se vale a pena persistir etc. Fico sempre embaraçado para dar qualquer conselho. A menos que se seja um Rimbaud ou, mais modestamente, um Castro Alves, que poesia se pode fazer antes dos vinte anos? Como Mallarmé afirmou certa vez que todo verso é um esforço para o estilo, acabo aconselhando ao pardal que vá fazendo os seus versinhos, sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha.
(...)
Manuel Bandeira, Melhores crônicas. Global Editora.Sabendo-se que “alegoria consiste em uma metáfora que, em um dado contexto, desdobra-se em outras”, pode-se apontar o emprego desse recurso, sobretudo, no seguinte trecho do texto:
Leia o texto para responder à questão
Foi exatamente durante o almoço que se deu o fato.
Almira continuava a querer saber por que Alice viera atrasada e de olhos vermelhos. Abatida, Alice mal respondia. Almira comia com avidez e insistia com os olhos cheios de lágrimas.
– Sua gorda! disse Alice de repente, branca de raiva. Você não pode me deixar em paz?!
Almira engasgou-se com a comida, quis falar, começou a gaguejar. Dos lábios macios de Alice haviam saído palavras que não conseguiam descer com a comida pela garganta de Almira G. de Almeida.
– Você é uma chata e uma intrometida, rebentou de novo Alice. Quer saber o que houve, não é? Pois vou lhe contar, sua chata: é que Zequinha foi embora para Porto Alegre e não vai mais voltar! Agora está contente, sua gorda?
Na verdade Almira parecia ter engordado mais nos últimos momentos, e com comida ainda parada na boca.
Foi então que Almira começou a despertar. E, como se fosse uma magra, pegou o garfo e enfiou-o no pescoço de Alice. O restaurante, ao que se disse no jornal, levantou-se como uma só pessoa. Mas a gorda, mesmo depois de ter feito o gesto, continuou sentada olhando para o chão, sem ao menos olhar o sangue da outra.
Alice foi ao pronto-socorro, de onde saiu com curativos e os olhos ainda regalados de espanto. Almira foi presa em flagrante.
Na prisão, Almira comportou-se com delicadeza e alegria, talvez melancólica, mas alegria mesmo. Fazia graças para as companheiras. Finalmente tinha companheiras. Ficou encarregada da roupa suja, e dava-se muito bem com as guardiãs, que vez por outra lhe arranjavam uma barra de chocolate.
(Clarice Lispector. A Legião Estrangeira, 1964. Adaptado)Considere as passagens do texto:
– O restaurante, ao que se disse no jornal, levantou-se como uma só pessoa.
– ... e dava-se muito bem com as guardiãs...
Pretendendo-se conferir sentido pejorativo à primeira passagem e obter na segunda passagem um termo masculino plural que siga a mesma regra do masculino plural de “guardiãs”, os termos em destaque devem ser substituídos, respectivamente, por
Texto para aquestão
Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando
um jargão falso, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até ser
descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo
que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se
[05] aproveita da ignorância generalizada para enganar. Estou dizendo que a
análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do
embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. Quem garantiria que o
meu enfoque diferente – minha defesa de um overspread corretivo sobre a
base de pagamentos, por exemplo – não era uma novidade que mereceria
[10] estudo, já que ninguém parece mesmo saber o que é certo?
Pelo contexto, pode-se concluir que a expressão “overspread” constitui