POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e
[manifestações de apreço ao sr. diretor
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo
[de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
[com cem modelos de cartas e as diferentes
[maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
─ Não quero saber do lirismo que não é libertação.
BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 129.O poema de Manuel Bandeira filia-se ao movimento modernista brasileiro, que, ao longo de seu percurso, foi incorporando diferentes perspectivas, sejam temáticas, formais ou sociais. Considerando o contexto em que se deu o Modernismo, a participação de Manoel Bandeira nesse movimento e tendo em vista, também, a leitura do poema, analise as afirmativas a seguir.
I. O poema representa a ruptura de Bandeira com o lirismo, isto é, o poeta, ao filiar-se ao Modernismo, rejeita os temas românticos e o subjetivismo da arte.
II. O poema de Bandeira constitui uma espécie de modelo das propostas iniciais do Modernismo brasileiro, pois a quebra com os padrões clássicos da arte literária fica evidente não só na temática que desenvolve como em alguns dos seus aspectos formais.
III. O poema apresenta um tom panfletário que lembra os manifestos deflagrados pelos vários movimentos de vanguarda surgidos, no Brasil, a partir da Semana de Arte Moderna.
IV. As diversas enumerações sem vírgula que aparecem no poema, juntamente com a irregularidade métrica dos versos, são características que se firmaram a partir do segundo momento modernista.
V. Após a contestação veemente dos modelos vigentes, o poeta apresenta a sua visão de poesia a partir do verso que se inicia com a forma “Quero antes”.
Estão corretas apenas as afirmativas:
POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e
[manifestações de apreço ao sr. diretor
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo
[de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
[com cem modelos de cartas e as diferentes
[maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
─ Não quero saber do lirismo que não é libertação.
BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 129.No poema de Manuel Bandeira, destacam-se ainda:
I. um título que antecipa a natureza metalinguística do texto;
II. a indecisão entre duas perspectivas de se fazer poesia;
III. a defesa de um fazer poético espontâneo e livre de regras;
IV. a adoção de uma perspectiva mais rígida em relação à arte;
V. uma reflexão técnica sobre os processos criativos literários.
Estão corretas apenas as afirmativas:
Observe as afirmativas abaixo a respeito das inovações presentes no texto de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:
I. A estrutura da composição das memórias de Brás Cubas é carregada de metalinguagem, com a revelação de que estamos diante de uma construção em curso, sujeita a todas as vicissitudes da escrita “ao correr da pena”. Revela-se a consciência de que o que as memórias conseguem ser é a representação (sempre precária) de uma vida e que, como tal, ela é afetada pelos limites do ponto de vista do narrador.
II. No texto, há o uso constante (e muito rico esteticamente) das digressões. A ação tem vários momentos de interrupção para o narrador fazer alguns comentários, seja sobre o processo de escrita, seja sobre o significado das ações narradas. Mas, além dos comentários em si, as digressões revelam algo sobre a concepção literária a que o livro se filia: o narrador busca se livrar da obrigação de “contar tudo” e, suspendendo a ação, abre-se à exploração da incerteza quanto ao que narra, preenchendo os vazios do texto com essas ponderações à margem do conteúdo narrado.
III. Memórias Póstumas de Brás Cubas investe no mergulho no psicológico. A confissão do narrador busca, na reconstituição do passado a elucidação de um caso nebuloso do seu relacionamento com a esposa. A suspeita da traição é um fardo. Amparado por indícios que, embora tenham consistência, não se configuram “provas” e, sem contar com a confissão de Vergília, o advogado Brás busca, na reconstituição de dados de sua vida, um reforço à sua argumentação para defender, diante dos leitores, a tese de que foi traído, o que explica a sua situação de desesperança no momento em que faz a narração.
IV. Memórias Póstumas de Brás Cubas parece investir num novo modo de se relacionar com a recepção. As constantes interpelações à figura do “leitor” - em geral admoestado de modo agressivo pelo narrador – partem do pressuposto de que o leitor deve se adequar a um novo tipo de experiência leitora, na qual, mais do que a história detalhista, com ações encadeadas de modo linear, ele receberá uma trama feita de elipses e incompletudes, cabendolhe agir de modo inteligente diante dessa proposição. Tal procedimento, que, em certa medida, apela à participação do leitor na composição da obra, é bastante moderno.
Estão corretas APENAS as afirmativas
Para responder à questão, leia o trecho do conto “As águas do mundo”, de Clarice Lispector, e as afirmativas que seguem.
Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Ela olha o mar, é o que se pode fazer.
Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra. São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar. Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.
I. O trecho apresenta uma abordagem filosófica sobre as existências do homem e do mar, a partir de inferências e questionamentos.
II. A passagem, intimista, revela uma das principais características da obra de Clarice Lispector.
III. Segundo o trecho, o homem não é um ser livre porque tem a capacidade de autoquestionar-se.
IV. O trecho também apresenta uma abordagem existencialista, mostrando que a união da mulher com o oceano a faz conhecer-se melhor e, finalmente, desfrutar o mar como os outros humanos.
Estão corretas apenas as afirmativas
A questão aborda o livro “Água Viva”, de ClariceLispector
Sobre “Água Viva”, pode-se afirmar:
I. Em determinado trecho da narrativa, Clarice Lispector substitui a personagem narradora como voz enunciativa e afirma estar escrevendo uma autobiografia.
II. Animais, vegetais, objetos e humanos são nivelados num mesmo plano existencial, o que chega a conferir uma conotação panteísta a algumas falas da protagonista.
III. Assim como Érica, a protagonista de “Enquanto Deus não está olhando”, de Débora Ferraz, a narradora de “Água Viva” deixa de exercer o ofício de artista plástica para refletir sobre a própria vida, evocar lembranças e superar o luto.
IV. Há um momento de epifania (revelação) no final da trama responsável pela adequação de “Água Viva” ao formato clássico do gênero conto.
V. O monólogo de “Água Viva” é constituído por dezenas de momentos epifânicos da protagonista.
Estão corretas apenas as afirmações
Sobre os elementos estruturais de Outros Cantos, afirma-se:
I. A narradora evoca tradições africanas, árabes e mexicanas para compor o sertão brasileiro como um espaço cultural contraditório.
II. A linguagem caracteriza-se por abundantes imagens sinestésicas, vários termos estrangeiros e técnicos, alegorias e longos trechos descritivos.
III. A marcação do tempo cronológico se sobrepõe ao tempo psicológico na composição do relato memorialista da narradora.
IV. As ações do enredo são apresentadas de modo linear, indo em ordem cronológica do período final da ditadura militar aos dias atuais.
V. A vida cotidiana dos moradores de Olho d’Água é contada por Maria, narradora observadora e onisciente, com foco narrativo de 3ª pessoa.
Estão corretas apenas
Sobre o romance Rita no Pomar, do escritor Rinaldo de Fernandes, responda à questão
Sobre a personagem Rita, afirma-se que
I. ela elege Pet como único confidente por não conseguir interação com os simplórios moradores do litoral nordestino.
II. os assassinatos que ela comete, inclusive o matricídio, podem ser tomados como ilustrações dos argumentos apresentados por Jairo Bouer no artigo “Mudar a maioridade penal adianta?”
III. o modo como planeja, executa e julga os crimes cometidos faz de Rita uma personagem típica dentro do que se caracteriza no discurso médico/jurídico como personalidade psicopata.
IV. ao narrar sobre seus atos criminosos, Rita lança mão tanto do fluxo de consciência da narrativa ficcional como da objetividade, da brevidade e do discurso lacunar adquiridos em sua formação como jornalista.
V. ela é uma representante típica da heroína trágica do Realismo/Naturalismo por ser vítima de um destino que a conduz à criminalidade sem possibilidade de escape.
Estão corretas apenas
A questão refere-se ao livro Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade
Leia com atenção o poema “Inocentes do Leblon”, transcrito abaixo:
“Os INOCENTES do Leblon
Não viram o navio entrar.
Trouxe bailarina?
Trouxe emigrantes?
Trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.”
É possível afirmar que:
I. O termo navio, no segundo verso, pode ser lido em seu sentido literal e pode ser lido também como metáfora para uma invasão colonialista ou bélica.
II. Estruturado como um poema concreto, “Os inocentes do Leblon” exemplifica a tese da arte pela arte típica da terceira fase do Modernismo brasileiro.
III. Referências a bailarinas e emigrantes que chegam pelo oceano podem sugerir imageticamente o tráfego ilegal de pessoas (escravos e mulheres) existente durante o período colonial brasileiro.
IV. A referência ao metal pesado e extremamente radioativo que poderia entrar pela costa do país sem ser visto de certo modo contrasta com o “óleo suave” das costas dos banhistas inocentes do Leblon.
V. Os inocentes do Leblon tudo ignoram por serem crianças.
Estão corretas apenas
A questão faz referência ao livroA Botija, de Clotilde Tavares
Sobre A Botija, afirma-se:
I. Trata-se de uma prosa poética por adotar a estrutura típica do romance de cordel.
II. Parodia o cordel O Pavão Misterioso através da utilização do pastiche.
III. Reúne várias personagens, lendas e “casos” característicos tanto da cultura popular nordestina quanto das tradições orais europeias.
IV. Aproxima-se da literatura popular de folhetos também por incorporar a xilogravura como componente importante das artes visuais populares.
V. Apresenta narrador em terceira pessoa como recurso de focalização predominante nas três histórias que compõem a trama.
Estão corretas apenas
“O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
(...)
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta”.
A expressão “não tenho outro de pia” justifica-se porque o narrador-personagem
I. não tem sobrenome cartorial.
II. não tem nome de batismo.
III. representa todos os nordestinos que sofrem com a miséria
IV. tem pouca tinta no sangue.
Estão corretas apenas