Leia o texto a seguir, que contém o início do conto “A menina do futuro torcido”, incluído em Vozes anoitecidas, de Mia Couto
Joseldo Bastante, mecânico da pequena vila, punha nos ouvidos a solução da sua vida. Viajante que passava, carro que parava, ele aproximava e capturava as conversas. Foi assim que chegou de ouvir um destino para sua filha mais velha, Filomeninha. Durante toda uma semana, chegavam da cidade notícias de um jovem que fazia sucesso virando e revirando o corpo, igual uma cobra. O rapaz tinha sido contratado por um empresário para exibir suas habilidades, confundir o trás para a frente. Percorria as terras e o povo corria para lhe ver. Assim, o jovem ganhou dinheiro até encher caixas, malas e panelas. Só devido das dobragens e enrolamentos da espinha e seus anexos. O contorcionista era citado e recitado pelos camionistas e cada um aumentava uma volta nas vantagens elásticas do rapaz. Chegaram mesmo a dizer que, numa exibição, ele se amarrou no próprio corpo como se fosse um cinto. Foi preciso o empresário ajudar para desatar o nó; não fosse isso, ainda hoje o rapaz estaria cintado.
COUTO, Mia. Vozes anoitecidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 127.Assinale a alternativa que explica corretamente a frase: “O contorcionista era citado e recitado pelos camionistas e cada um aumentava uma volta nas vantagens elásticas do rapaz.”
Observe a fotografia a seguir, que mostra pichação feita por moradora de Bauru-SP, no muro da própria casa.
Assinale a alternativa que corresponde ao propósito dessa pichação.
Pero
– Vossa mãe foi-se? Ora bem!
Sós nos deixou ela assim?
Quanto a mim quero-me ir daqui,
não diga algum demo alguém...
Inês
– Vós, que me havíeis de fazer,
nem ninguém que há-de dizer?
(à parte)
Oh! Galante despejado!
Pero
– Se eu fora já casado,
d’outra arte havia de ser...
como homem de bom recado.
(VICENTE, G. Farsa de Inês Pereira. Adaptação de Cecília Reggiane Lopes. São Paulo: Global, 2005. p.29-30.)
Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, uma interpretação para essa cena.
Sobre o intertexto bíblico presente em O Pagador de Promessas, considere as frases a seguir.
I. “Mas eu conheço seus adeptos! Mesmo quando se disfarçam sob a pele do cordeiro!”
II. “Por que então repete a Divina Paixão? Para salvar a humanidade?”
III. “Uma epopeia. Uma nova Ilíada, onde Troia é a Lua e o cavalo de Troia é o cavalo de São Jorge!”
IV. “É até bom demais. Nunca fez mal a ninguém, nem mesmo a um passarinho.”
Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, frases com intertexto bíblico.
Em pouco, o jardim vestiu o cetim das folhas novas. Em cada tronco, em cada haste, em cada pedúnculo, a seiva empurrou para fora pétalas e pistilos. E mesmo no escuro da terra os bulbos acordaram, espreguiçando-se em pequenas pontas verdes.
Mas enquanto todos os arbustos se enfeitavam de flores, nem uma só gota de vermelho brilhava no corpo da roseira. Nua, obedecia ao esforço do seu jardineiro que, temendo viessea floração romper tanta beleza, cortava rente todos os botões.
De tanto contrariar a primavera, adoeceu porém o jardineiro. E ardendo de amor e febre na cama, inutilmente chamou por sua amada.
Muitos dias se passaram antes que pudesse voltar ao jardim. Quando afinal conseguiu se levantar para procurá- -la, percebeu de longe a marca da sua ausência. Embaralhando-se aos cabelos, desfazendo a curva da testa, uma rosa embabadava suas pétalas entre os olhos da mulher. E já outra no seio despontava.
Parado diante dela, ele olhava e olhava. Perdida estava a perfeição do rosto, perdida a expressão do olhar. Mas do seu amor nada se perdia. Florida, pareceu-lhe ainda mais linda. Nunca Rosamulher fora tão rosa. E seu coração de jardineiro soube que nunca mais teria coragem de podá-la. Nem mesmo para mantê-la presa em seu desenho.
(COLASANTI, M. Doze reis e a moça no labirinto do vento. 12.ed. São Paulo: Global Editora, 2006. p.26-28.)Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, a figura de linguagem encontrada na passagem “nem uma só gota de vermelho brilhava no corpo da roseira”.
[1] A cavalgada, que lenta subira a encosta, descia-a rapidamente enquanto Atanagildo, visitando os muros,
exortava os guerreiros da cruz a pelejarem esforçadamente. Quando estes souberam quais eram as intenções
dos árabes acerca das virgens do mosteiro, a atrocidade do sacrilégio afugentou-lhes dos corações a menor
sombra de hesitação. Sobre as espadas juraram todos combater e morrer como godos. Então o quingentário,
[5] a quem parecia animar sobrenatural ousadia, correu ao templo.
(HERCULANO, A. Eurico, o presbítero. 2.ed. São Paulo: Martin Claret, 2014. p.107.)Assinale a alternativa que apresenta, correta e respectivamente, o que os verbos “exortava” e “pelejarem” (ambos na linha 2) indicam no texto.
Sentimental
Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
– Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.
Poema do jornal
O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.
Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.
Poesia
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 35; 41; 45).O termo “pena”, utilizado no segundo verso de “Poesia”, tem o significado de peça que se adapta à caneta, ou é a própria caneta, ou ainda corresponde ao instrumento com que se escreve. A palavra, porém, tem outros sentidos dicionarizados.
Assinale a alternativa em que se estabelece a correta correlação entre a palavra empregada no poema e os demais sentidos.
estupor
esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer
esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir
esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir
(LEMINSKI, P. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p.249.)Considerando o poema no conjunto da obra Toda Poesia, de Paulo Leminski, é CORRETO
afirmar que
estupor
esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer
esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir
esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir
(LEMINSKI, P. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p.249.)Acerca dos pronomes presentes no poema, assinale a alternativa correta.
[1] O velho adormeceu, a mulher sentou-se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei
das luzes. Pensou no dia e riu-se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim
marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou-se e adormeceu. Sonhou dali
para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu-se de produtos, os olhos a
[5] escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas.
Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar-se, grávida de promessas. Naquela
roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua
carne para a morte. Os ruídos da manhã foram-na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele
sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos.
[10] Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a
sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele
adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.
(Adaptado de: COUTO, Mia. A fogueira. In: Vozes anoitecidas. São Paulo, Companhia das Letras, 2013. p. 25).Acerca do trecho “O velho adormeceu, a mulher sentou-se à porta”, assinale a alternativa que apresenta, corretamente, o conectivo que pode ser inserido no lugar da vírgula, sem alterar o sentido original do período.