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PortuguêsUERJ2014

A namorada

Havia um muro alto entre nossas casas.

Difícil de mandar recado para ela.

Não havia e-mail.

O pai era uma onça.

A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por um cordão

E pinchava a pedra no quintal da casa dela.

Se a namorada respondesse pela mesma pedra

Era uma glória!

Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira

E então era agonia.

No tempo do onça era assim.

Manoel de Barros Poesia completa. São Paulo: Leya, 20 0.

Nesse verso, a palavra onça está empregada em um sentido que se define como:

PortuguêsUERJ2019

Soneto do Corifeu*

São demais os perigos desta vida

Para quem tem paixão, principalmente

[3] Quando uma lua surge de repente

E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado

[6] Vem se unir uma música qualquer

Aí então é preciso ter cuidado

Porque deve andar perto uma mulher.

[9] Deve andar perto uma mulher que é feita

De música, luar e sentimento

E que a vida não quer, de tão perfeita.

[12] Uma mulher que é como a própria Lua:

Tão linda que só espalha sofrimento

Tão cheia de pudor que vive nua.

* Corifeu: personagem sempre presente no antigo teatro grego.

Na última estrofe, a figura feminina é descrita por meio de elementos que estabelecem entre si uma relação do seguinte tipo:

PortuguêsUERJ2022

SONETOI

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor1 espanto,
Que não se muda já como soía2

1 mor − maior 2 soía − costumav

SONETO Il

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza,
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro,
E o mais ledo1
prazer em choro triste;
O tempo a tempestade em grã2 bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

1 ledo − alegre 2 grã − grande

SONETO lII

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel, lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.

Os sonetos I, II e III destacam um sentimento de impotência diante da passagem do tempo.

Na última estrofe de cada poema, porém, o poeta revela sentimentos que se confrontam com essa impotência.

PortuguêsUERJ2017

O uso de palavras que se referem a termos já enunciados, sem que seja necessário repeti-los, faz parte dos processos de coesão da linguagem.

Na pergunta feita no segundo quadrinho, uma palavra empregada com esse objetivo é:

PortuguêsUERJ2020

O CONTO A SEGUIR FOI RETIRADO DO LIVRO HORA DE ALIMENTAR SERPENTES, DE MARINA COLASANTI.

PARA COMEÇAR

Desejou ter a beleza de uma árvore frondosa tatuada nas costas, copa espraiada sobre os ombros. Temendo, porém, o longo sofrimento imposto pelas agulhas, mandou tatuar na base da coluna, bem na base, a mínima semente.

Na narrativa, o desejo inicial e a decisão final do personagem podem ser relacionados por meio da seguinte figura de linguagem:

PortuguêsUERJ2020

OTRECHO A SEGUIR FOI RETIRADO DA PEÇA GOTA D’ÁGUA − UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA, DE CHICO BUARQUE E PAULO PONTES.

JOANA:

(...)
Seu povo é que é urgente, força cega,
coração aos pulos, ele carrega
um vulcão amarrado pelo umbigo
Ele então não tem tempo, nem amigo,
nem futuro, que uma simples piada
pode dar em risada ou punhalada
Como a mesma garrafa de cachaça
acaba em carnaval ou desgraça
(...)

Na caracterização do povo brasileiro feita por Joana no trecho acima, observa-se uma sequência da seguinte figura de linguagem:

PortuguêsUERJ2018

Metonímia é a figura de linguagem em que a parte representa o todo, ou vice-versa. No romance, a protagonista Macabéa constitui uma metonímia de todos os:

PortuguêsUERJ2014

Por que ler?

Certas coisas não basta anunciar, como uma verdade que deve ser aceita por si só. Precisamos

dizer o porquê. Se queremos fazer os brasileiros lerem mais de um livro por ano, essa trágica

média nacional, precisamos de fato conquistar o seu interesse.

Listo os três benefícios fundamentais que a leitura pode trazer.

[5] O primeiro: ler nos faz mais felizes. É um caminho para o autoconhecimento, e o exercício

constante de autoconhecimento é um caminho para a felicidade. A vida, também no plano

individual, é mais intensa na busca. Os personagens de um livro de ficção, os fatos de um

livro-reportagem, as ideias de um livro científico, interagem com os nossos sentimentos, ora

refletindo-os, ora agredindo-os, e portanto servindo de parâmetro para sabermos quem somos,

[10] seja por identidade ou oposição.

O segundo benefício: ler nos torna amantes melhores. Treina nossa sensibilidade para o contato

com o outro. Amores românticos, amores carnais, amores perigosos, amores casuais, amores

culpados, todos estão nos livros. A sensibilidade do leitor encontra seu caminho. E quanto mais

o nosso imaginário estiver arejado pelas infinitas opções que as histórias escritas nos oferecem,

[15] sejam elas factuais ou ficcionais, com mais delícia aproveitamos os bons momentos do amor, e

com mais calma enfrentamos os maus.

Por fim: ler nos torna cidadãos melhores. Os livros propiciam ao leitor um ponto de vista

privilegiado, de onde observa conflitos de interesses. No processo, sua consciência é estimulada

a se posicionar com equilíbrio. Tendem a ganhar forma, então, princípios de “honestidade”,

[20] “honra”, “justiça” e “generosidade”. Guiado por estes valores, o leitor pode enfim ultrapassar

as fronteiras sociais, e ver a humanidade presente em todos os tipos, em todas as classes.

Teríamos menos escândalos de corrupção, se lêssemos mais; construiríamos uma sociedade

menos injusta, se educássemos melhor os nossos espíritos; eu acredito nisso.

Rodrigo Lacerda Adaptado de rodrigolacerda.com.br

ler nos faz mais felizes. É um caminho para o autoconhecimento, e o exercício constante de autoconhecimento é um caminho para a felicidade. (l. 5-6) Neste argumento, Rodrigo Lacerda formula uma premissa geral e uma premissa particular, para relacioná-las na conclusão. Essa estrutura caracteriza o argumento como:

PortuguêsUERJ2016

A ARTE DE ENGANAR

[1] Em seu livro Pernas pro ar, Eduardo Galeano recorda que, na era vitoriana, era proibido mencionar

“calças” na presença de uma jovem. Hoje em dia, diz ele, não cai bem utilizar certas expressões

perante a opinião pública: “O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

imperialismo se chama globalização; suas vítimas se chamam países em via de desenvolvimento;

[5] oportunismo se chama pragmatismo; despedir sem indenização nem explicação se chama

flexibilização laboral” etc.

A lista é longa. Acrescento os inúmeros preconceitos que carregamos: ladrão é sonegador; lobista

é consultor; fracasso é crise; especulação é derivativo; latifúndio é agronegócio; desmatamento é

investimento rural; lavanderia de dinheiro escuso é paraíso fiscal; acumulação privada de riqueza

[10] é democracia; socialização de bens é ditadura; governar a favor da maioria é populismo; tortura

é constrangimento ilegal; invasão é intervenção; peste é pandemia; magricela é anoréxica.

Eufemismo é a arte de dizer uma coisa e acreditar que o público escuta ou lê outra. É um jeitinho

de escamotear significados. De tentar encobrir verdades e realidades.

Posso admitir que pertenço à terceira idade, embora esteja na cara: sou velho. Ora, poderia dizer

[15] que sou seminovo! Como carros em revendedoras de veículos. Todos velhos! Mas o adjetivo

seminovo os torna mais vendáveis.

Coitadas das palavras! Elas são distorcidas para que a realidade, escamoteada, permaneça como

está. Não conseguem, contudo, escapar da luta de classes: pobre é ladrão, rico é corrupto.

Pobre é viciado, rico é dependente químico.

Em suma, eufemismo é um truque semântico para tentar amenizar os fatos.

Frei Betto Adaptado de O Dia, 21/03/2015.

Frei Betto inicia seu texto com uma citação do escritor uruguaio Eduardo Galeano, recorrendo a recurso comum de argumentação. Esse recurso constitui um argumento de:

PortuguêsUERJ2018

Estrelaé uma palavra que faz parte do título do romance, além de ser o símbolo do carro da marca Mercedes, decisivo para o final da história. Considerando esse final, o título do livro expressa o sentido de