Numa esquina da avenida mais movimentada,
às sete da noite, o sinal fica verde, entretanto a
carroça do papeleiro não se mexe. Os motoristas
começam a buzinar. O papeleiro agita as rédeas,
[5] faz um som esquisito com a boca, e nada
adianta. O cavalo empacou. Os motoristas, já
numa fila de incontáveis faróis e buzinas, com
o que lhes resta de forças depois de mais um
dia cansativo e estressante em seus escritórios
[10] e repartições, gritam, xingam, amaldiçoam. O
papeleiro, por sua vez, com o que lhe resta de
fôlego depois de mais um dia de sol pelas ruas da
cidade, os braços fracos de abrir lixeiras desde
as seis da manhã, desce da carroça empunhando
[15] um cabo de vassoura e grita, bate, espanca. E
o cavalo, com o que lhe resta de si depois de
mais um dia que ele nem sabe que passou, com
a fome de hoje somada à de ontem e anteontem,
que o deixam lerdo e confuso, ajoelha-se, de
[20] olhos fechados, como quem reza para morrer.
BRASILIENSE, Leonardo. Solidariedade. Corpos sem pressa. Casa Verde. 2000. Disponível em: <http://www.leonardobrasiliense.com.br>.Acesso em: 9 abr. 2016.O miniconto de Leonardo Brasiliense constrói psicologicamente personagens que
Aprendizado
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
GULLAR, Ferreira. Aprendizado. Barulhos (1980/1987). Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/gula.html#aprendizado>. Acesso em: 10 abr. 2016.O eu poético que se faz presente nos versos convida o seu interlocutor a
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe ‒ todos eles príncipes ‒ na vida...
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos ‒ mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
CAMPOS, Álvaro de, (Fernando Pessoa). Poema em linha reta. Disponível em: <https://verdadesdepapel.wordpress.com> Acesso em: mar. 2017. Adaptado.O eu poético ao analisar-se como o único ser vil e errôneo no meio social em que vive, denuncia, de forma implícita,
Conversar se tornou difícil. Não porque
podemos ter visões e convicções diferentes – ao
contrário, as diferenças tornariam as discussões
mais proveitosas. O que faz com que conversar
[5] tenha se tornado difícil é que, em geral, nosso
interlocutor só quer saber de que lado nós estamos.
As pessoas divergem, poderiam aproveitar sua
discordância; mas a maioria só quer “descobrir”,
entender, inventar ou decidir (apressadamente)
[10] de que lado está o outro. Em outras palavras, o
intento do debate não é articular a complexidade
dos fatos e das escolhas possíveis. Trata-se
apenas de saber se você é “um dos nossos” ou
não. Obviamente, quem não for “um dos nossos” é
[15] contra a gente. Não tente dizer que você não está
de lado algum. Ou melhor, tente, e isso será a
prova esperada de que você é “contra a gente”.
CALLIGARIS, Contardo. De que lado você está? Disponível em: . Acesso em: 3 abr. 2016. Adaptado.O articulista revela como é difícil a interlocução, na atualidade, entre indivíduos que pensam de forma diferente, porque
No texto, a função conativa da linguagem pode ser identificada por meio da característica indicada em
Ganhou a câmera de aniversário. Era um modelo semiprofissional, sua esposa explicou. É usada, mas o “moço” disse que está bem conservada. Mas cadê as outras lentes? Que outras? As outras? Não tem outras. E olhou para a câmera com a teleobjetiva de 200mm em sua mão.
A partir daquele dia, virou o fotógrafo oficial da família. Cadê o Carlos, com aquela câmera legal dele? Perguntavam. E o Carlos estava do lado de fora da casa, do outro lado da rua, para conseguir foco.
Se tornou, ao mesmo tempo, a sensação e o alienado de todas as festas. As fotos parecem de revista. Comentavam. Pareciam de revista mesmo, National Geographic. Sentado no banco da praça, tirava fotos da prima no altar da igreja. Na janela do hotel, tirava fotos da esposa e filhos deitados na praia. Era a presença e a ausência, sempre sentidas. Às vezes, acenava.
Tentou aprender a ler lábios para passar o tempo. Um dia, a solidão bateu mais forte e foi para casa. Ninguém notou. Depois disso, parou de ir a festas e eventos da família. No dia seguinte, cobravam as fotos. Ele desconversava. Tá no pendrive. Quando passar pro computador, eu mando. Mas nunca mandava.
DACCONI, Adriano. Foco. Ele gostava de voar e outros contos curtos. Disponível em: <https://contoscurtos.wordpress.com>. Acesso em: set. 2017.No miniconto de Adriano Docconi a insatisfação da personagem central decorre da
Às vezes, observam-se desvios na construção normal de uma expressão ou frase com a finalidade estilística de realçar ideias, dando-lhes maior expressividade.
Na placa em destaque, aparece uma dessas interferências na estrutura gramatical da mensagem transmitida, que se identifica como
Na fala da professora Telma, “O mais gratificante é ver que a leitura continua além da sala de aula”, a expressão “além da sala de aula” denota
Essa peça plublicitária informando à sociedade o que reza o art. 7°do Estatuto da Criança e do Adolescente pretende
Em relação aos aspectos linguísticos do cartum, é correto afirmar: