AprendiAprendi
PortuguêsUSP2016

Seria ingenuidade procurar nos provérbios de qualquer povo uma filosofia coerente, uma arte de viver. É coisa sabida que a cada provérbio, por assim dizer, responde outro, de sentido oposto. A quem preconiza o sábio limite das despesas, porque “vintém poupado, vintém ganhado”, replicará o vizinho farrista, com razão igual: “Da vida nada se leva”. (...)

Mais aconselhável procurarmos nos anexins não a sabedoria de um povo, mas sim o espelho de seus costumes peculiares, os sinais de seu ambiente físico e de sua história. As diferenças na expressão de uma sentença observáveis de uma terra para outra podem divertir o curioso e, às vezes, até instruir o etnógrafo.

Povo marítimo, o português assinala semelhança grande entre pai e filho, lembrando que “filho de peixe, peixinho é”. Já os húngaros, ao formularem a mesma verdade, não pensavam nem em peixe, nem em mar; ao olhar para o seu quintal, notaram que a “maçã não cai longe da árvore”.

Paulo Rónai, Como aprendi o português e outras aventuras

No texto, a função argumentativa do provérbio “Da vida nada se leva” é expressar uma filosofia de vida contrária à que está presente em “vintém poupado, vintém ganhado”. Também é contrário a esse último provérbio o ensinamento expresso em:

PortuguêsUSP2015

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Antonio Candido, “Dez livros para entender o Brasil”. Teoria e debate. Ed. 45, 01/07/2000.

Constitui recurso estilístico do texto

I. a combinação da variedade culta da língua escrita, que nele é predominante, com expressões mais comuns na língua oral;

II. a repetição de estruturas sintáticas, associada ao emprego de vocabulário corrente, com feição didática;

III. o emprego dominante do jargão científico, associado à exploração intensiva da intertextualidade.

Está correto apenas o que se indica em

PortuguêsUSP2018

Uma obra de arte é um desafio; não a explicamos

ajustamo-nos a ela. Ao interpretá-la, fazemos uso dos nossos

próprios objetivos e esforços, dotamo-la de um significado que

tem sua origem nos nossos próprios modos de viver e de pensar.

[5] Numa palavra, qualquer gênero de arte que, de fato, nos afete,

torna-se, deste modo, arte moderna.

As obras de arte, porém, são como altitudes inacessíveis.

Não nos dirigimos a elas diretamente, mas contornamo-las.

Cada geração as vê sob um ângulo diferente e sob uma nova

[10] visão; nem se deve supor que um ponto de vista mais recente é

mais eficiente do que um anterior. Cada aspecto surge na sua

altura própria, que não pode ser antecipada nem prolongada;

e, todavia, o seu significado não está perdido porque o

significado que uma obra assume para uma geração posterior

[15] é o resultado de uma série completa de interpretações anteriores.

Arnold Hauser, Teorias da arte. Adaptado.

De acordo com o texto, a compreensão do significado de uma obra de arte pressupõe

PortuguêsUSP2017

Evidentemente, não se pode esperar que Dostoiévski seja traduzido por outro Dostoiévski, mas desde que o tradutor procure penetrar nas peculiaridades da linguagem primeira, apliquese com afinco e faça com que sua criatividade orientada pelo original permita, paradoxalmente, afastarse do texto para ficar mais próximo deste, um passo importante será dado. Deixando de lado a fidelidade mecânica, frase por frase, tratando o original como um conjunto de blocos a serem transpostos, e transgredindo sem receio, quando necessário, as normas do “escrever bem”, o tradutor poderá trazêlo com boa margem de fidelidade para a língua com a qual está trabalhando.

Boris Schnaiderman, Dostoiévski Prosa Poesia

De acordo com o texto, a boa tradução precis

PortuguêsUSP2018

Neste texto, o autor descreve o fascínio que as descobertas em Química exerciam sobre ele, durante sua infância

Eu adorava Química em parte por ela ser uma ciência de

transformações, de inúmeros compostos baseados em algumas

dúzias de elementos, eles próprios fixos, invariáveis e eternos. A

noção de estabilidade e de invariabilidade dos elementos era

[5] psicologicamente crucial para mim, pois eu os via como pontos

fixos, como âncoras em um mundo instável. Mas agora, com a

radioatividade, chegavam transformações das mais incríveis.

(...)

A radioatividade não alterava as realidades da Química

[10] ou a noção de elementos; não abalava a ideia de sua

estabilidade e identidade. O que ela fazia era aludir a duas

esferas no átomo – uma esfera relativamente superficial e

acessível, que governava a reatividade e a combinação química,

e uma esfera mais profunda, inacessível a todos os agentes

[15] químicos e físicos usuais e suas energias relativamente

pequenas, onde qualquer mudança produzia uma alteração

fundamental de identidade.

Oliver Sacks, Tio Tungstênio: Memórias de uma infância química.

De acordo com o autor,

PortuguêsUSP2017

A adoção do cardápio indígena introduziu nas cozinhas e zonas de serviço das moradas brasileiras equipamentos desconhecidos no Reino. Instalou nos alpendres roceiros a prensa de espremer mandioca ralada para farinha. Nos inventários paulistas é comum a menção de tal fato. No inventário de Pedro Nunes, por exemplo, efetuado em 1623, fala-se num sítio nas bandas do Ipiranga “com seu alpendre e duas camarinhas no dito alpendre com a prensa no dito sítio” que deveria comprimir nos tipitis toda a massa proveniente do mandiocal também inventariado. Mas a farinha não exigia somente a prensa – pedia, também, raladores, cochos de lavagem e forno ou fogão. Era normal, então, a casa de fazer farinha, no quintal, ao lado dos telheiros e próxima à cozinha.

Carlos A. C. Lemos, Cozinhas, etc.

Além de “tipitis”, constituem contribuição indígena para a língua portuguesa do Brasil as seguintes palavras empregadas no texto:

PortuguêsUSP2014

A tirinha tematiza questões de gênero (masculino e feminino), com base na oposição entre

PortuguêsUSP2017

Leia o texto e observe a imagem

Numa guerra não se matam milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete, outro que é gay, outro que tem uma namorada. Uma acumulação de pequenas memórias... .

Nós que aqui estamos, por vós esperamos. Direção de Marcelo Masagão. Brasil, 1999

A partir do texto e da imagem, pode-se afirmar corretamente que

PortuguêsUSP2018

Sarapalha

– Ô calorão, Primo!... E que dor de cabeça excomungada!

– É um instantinho e passa... É só ter paciência....

– É... passa... passa... passa... Passam umas mulheres

vestidas de cor de água, sem olhos na cara, para não terem de

olhar a gente... Só ela é que não passa, Primo Argemiro!... E eu

já estou cansado de procurar, no meio das outras... Não vem!...

Foi, rio abaixo, com o outro... Foram p’r’os infernos!...

– Não foi, Primo Ribeiro. Não foram pelo rio... Foi trem-de-

ferro que levou...

– Não foi no rio, eu sei... No rio ninguém não anda... Só a maleita é quem sobe e desce, olhando seus mosquitinhos e pondo neles a benção... Mas, na estória... Como é mesmo a estória, Primo? Como é?...

– O senhor bem que sabe, Primo... Tem paciência, que não é

bom variar...

– Mas, a estória, Primo!... Como é?... Conta outra vez...

– O senhor já sabe as palavras todas de cabeça... “Foi o moço-bonito que apareceu, vestido com roupa de dia-de-domingo e com a viola enfeitada de fitas... E chamou a moça p’ra ir se fugir com ele”...

– Espera, Primo, elas estão passando... Vão umas atrás das outras... Cada qual mais bonita... Mas eu não quero, nenhuma!... Quero só ela... Luísa...

– Prima Luísa...

– Espera um pouco, deixa ver se eu vejo... Me ajuda, Primo! Me ajuda a ver...

– Não é nada, Primo Ribeiro... Deixa disso!

– Não é mesmo não...

– Pois então?!

– Conta o resto da estória!...

– ...“Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o capeta, ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e foi com ele na canoa, descendo o rio...”

Guimarães Rosa, Sagarana.

A novela Sarapalha apresenta uma estória dentro de outra, por meio da qual a personagem masculina da narrativa principal (Primo Argemiro) alude a uma mulher da narrativa secundária (a moça levada pelo capeta). O mesmo procedimento ocorre em

PortuguêsUnit-AL2015

TEXTO:

Crescer como pessoa de cor na África do Sul do

Apartheid, na década de 1940, não era nada agradável.

Principalmente se você era brutalmente lembrado da cor

de sua pele a cada momento do dia. Depois, ser

[5] espancado aos 10 anos por jovens brancos que o

consideravam negro demais e, em seguida, por jovens

negros que o consideravam branco demais era uma

experiência humilhante que poderia levar qualquer um à

vingança violenta.

[10] Uma das muitas coisas que aprendi com meu avô

foi a compreender a profundidade e a amplitude da não

violência e a reconhecer que somos todos violentos e

precisamos efetuar uma mudança qualitativa em nossas

atitudes. Com frequência, não reconhecemos nossa

[15] violência porque somos ignorantes a respeito dela.

Presumimos que não somos violentos porque nossa

visão da violência é aquela de brigar, matar, espancar e

guerrear – o tipo de coisa que os indivíduos comuns não

fazem.

[20] O mundo em que vivemos é aquilo que fazemos

dele. Se hoje é impiedoso, foi porque nossas atitudes o

tornaram assim. Se mudarmos a nós mesmos,

poderemos mudar o mundo, e essa mudança começará

por nossa linguagem e nossos métodos de comunicação.

[25] É um primeiro passo significativo para mudarmos nossa

comunicação e criarmos um mundo mais compassivo.

ARUN GANDHI (Fundador e presidente do M. K. Gandhi Institute for Nonviolence). In: Marshall B. Rosenberg. Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. Tradução Mário Vilela. São Paulo: Ágora, 2006. p. 22. Adaptado.

Sobre o discurso de Arun Gandhi, é correto afirmar: