Em 2019, Dorrico [...] lançou “Eu sou Macuxi e outras histórias” (Caos e Letras). Em um dos contos, ela “vira o jogo”: transforma o Deus dos homens brancos em um caçula dos deuses dos povos da floresta. Um troco a Mário de Andrade, que transformou o deus dela em um herói peculiar.
(Marcos Cândido. “Nova colunista da Ecoa leva literatura indígena a milhares de seguidores”. https://uol.com.br, 09.03.2021.)A escritora Julie Dorrico é descendente do povo Macuxi que, atualmente, vive na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. A cosmogonia dos Macuxi relata que eles são descendentes do herói mítico Macunaíma.
Pode-se considerar o conto em que a escritora “vira o jogo” contra Mário de Andrade, autor de Macunaíma, como
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.Pode-se apontar, no texto, a contradição, que repercute na obra a que ele pertence, entre
Pode-se afirmar, didaticamente, que a estética literária nomeada de Realismo inicia no Brasil na:
TEXTO
Modinha do exílio
Os moinhos têm palmeiras
Onde canta o sabiá.
Não são artes feiticeiras!
Por toda parte onde eu vá,
Mar e terras estrangeiras,
Posso ver mesmo as palmeiras
Em que ele cantando está.
Meu sabiá das palmeiras
Canta aqui melhor que lá.
Mas, em terras estrangeiras,
E por tristezas de cá,
Só à noite e às sextas-feiras.
Nada mais simples não há!
Canta modas brasileiras.
Canta – e que pena me dá!
Pode-se afirmar sobre o poema de Ribeiro Couto que
TEXTO 1
Soneto de Santa Cruz
Há um descompasso no tempo
no asfalto e no peso do passo
o acaso perdendo terreno
a alegria faltando pedaço
O ar virando veneno
o sol virando carrasco
há um descompasso no tempo
há um descompasso no espaço
Choveu o dia inteiro lá em casa
não teve som de obra
não teve sol na sala
Choveu o dia inteiro lá em casa
não teve pipoqueiro
nem tristeza tava
(LINS, Cícero Rosa. Soneto de Santa Cruz. Intérprete: Cícero. In: CÍCERO. A Praia. São Paulo: Deckdisc, 2015. 1 CD. Faixa 6.)TEXTO 2
Cidadezinha qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. 7.ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. p.71.)A letra da canção de Cícero e o poema de Carlos Drummond de Andrade fazem referência ao cotidiano. Ainda que possuam uma mesma temática, os dois textos divergem quanto à maneira que retratam a passagem mais lenta do tempo.
Pode-se afirmar que tal diferença
De ponta a ponta, é tudo praia... muito chã e muito formosa. [...]. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro nem prata... porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados... Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa, que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto que dela se pode tirar me parece será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
Pode-se afirmar que o trecho acima integra o período chamado
TEXTO
A canção do africano
(fragmento)
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão…
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar…
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!
“Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
“O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
“Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar…
“Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro.”
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
Pode-se afirmar que o Texto pertence ao período literário conhecido como
Pertencente ao Romantismo, a obra de Victor Meirelles caracteriza-se como uma
Considerando as particularidades de cada um dos heterônimos de Fernando Pessoa, é possível afirmar que os versos
“Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.”
pertencem a
TEXTO
[1] – Pode deixar o tabuleiro aí mesmo. Já estava com fome.
– Sinhá Mariana manda dizer ao senhor para desculpar. Hoje é dia de guarda, e o povo da casa-grande está no
jejum.
– Este povo vai todo pro céu. Estão pensando que Deus Nosso Senhor gosta de gado magro. Deus gosta é de
[5] ver gado de sedenho abrindo. O que foi que a velha mandou hoje? Esta história de bacalhau não é comigo.
– Todo mundo está no bacalhau, mestre Zé.
– Não venho trabalhar aqui para comer isto.
– Os brancos estão comendo, mestre.
– Quero lá saber de branco. Quero é a minha barriga cheia.
[10] O moleque abriu os dentes numa risada gostosa.
– Mestre, o velho anda com essa leseira de reza que não acaba mais.
– É o que eles querem. Estão pensando que oficial é cachorro. Pensam que me machucam, não me chamando
para comer na casa-grande. Não sou o pintor Laurentino que vive por aí contando prosa. O mestre José Amaro,
menino, tem a sua bondade, também. Tenho trabalhado para senhor de engenho de muitas posses, gente de mesa
[15] de banquete, e nunca vi este luxo aqui no Santa Fé.
(REGO, José Lins. Fogo Morto. 53ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. p.24-25).Pertence à mesma Escola que Lins do Rego: