Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente. [...] Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. [...] Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. [...] uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis. [...] Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
Graciliano Ramos, Vidas secas.Os trechos citados narram a morte da cachorra Baleia, ferida com um tiro por Fabiano. A maneira como Baleia é descrita em suas atitudes e pensamentos reforça a ironia que se observa no fato de ela ser
TEXTO I
Dois quadros
Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terras do Sul.
De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.
TEXTO II
ABC do Nordeste flagelado
O – Outro tem opinião
de deixar mãe, deixar pai,
porém para o Sul não vai,
procura outra direção.
Vai bater no Maranhão
onde nunca falta inverno;
outro com grande consterno
deixa o casebre e a mobília
e leva a sua família
pra construção do governo.
Disponível em: www.revista.agulha.com.br. Acesso em: 23 abr. 2010 (fragmento).Os Textos I e II são de autoria do escritor nordestino Patativa do Assaré, que, em sua obra, retrata de forma bastante peculiar os problemas de sua região. Esses textos têm em comum o fato de abordarem
Os textos dramáticos podem ser definidos como aqueles em que:
Responder à questão com base nos textos A e B.
TEXTO A
Ismália
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar...
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer no mar...
E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar
TEXTO B
“O maluco respondia que sim com a cabeça, ao mesmo tempo que sapateava brandamente no assoalho. Nem para atender ao médico, tirava os olhos do sapato “novo”
O programa da manhã consistia numa volta pelo centro. À tarde, ele deveria acompanhá-lo numa visita ao seu “cliente”.
– Que tal?
O maluco farejou muito todo aquele centro da cidade: a praça, a igreja, a casa do governo, a rua principal e o seu movimento. Com o focinho no ar, a capa voando ao vento forte, às vezes se retardava. O médico advertia-o. Ele então se apressava. E quando de novo se reunia ao companheiro, tinha um olhar de expectativa e de consulta.
Não: o doutor Valério só o que queria era que ele visse tudo (claro); com tempo, porém, para irem tomar o seu cafezinho.
– Um plano e tanto, não é assim?
O café estava quase deserto. (...)
Isto também já está visto – decidiu o Dr. Valério, na qualidade de guia. – Vamos tocando. (...)
Ao chegarem numa casa de esquina (...) o médico começou a consultar uns cartazes impressos entre os batentes e as vidraças das portas fechadas. Eram “horários”. O doutor não encontrava o que queria.
– Mas eu tenho uma ideia de que os dias são segundas, quartas e sextas – ruminava ele, alto, sem nenhum interesse, entretanto, em ser ouvido por mais ninguém senão por ele próprio. O maluco também avançava o focinho – querendo ajudar o doutor, mas sem saber bem o que.”
(O louco do Cati, p. 192-193)Os textos A e B pertencem, respectivamente, a ________________ e _________________, autores que se alinham aos movimentos literários denominados _________________ e _________________.
TEXTO:
Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se
foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o
que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato.
Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois
5 para uma cidade, e os meninos frequentariam
escolas, seriam diferentes deles. Sinha Vitória
esquentava-se. Fabiano ria, tinha desejo de esfregar as
mãos agarradas à boca do saco e à coronha da
espingarda de pederneira.
[10] Não sentia a espingarda, o saco, as pedras miúdas
que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carniças
que empestavam o caminho. As palavras de Sinha
Vitória encantavam-no. Iriam para diante, alcançariam
uma terra desconhecida.
[15] Fabiano estava contente e acreditava nessa terra,
porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia
docilmente as palavras de Sinha Vitória, as palavras que
Sinha Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E
andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade
[20] grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em
escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles
dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros,
inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer?
Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra
[25] desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E
o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão
mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como
Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.
RAMOS, G. Vidas Secas. 71. ed. São Paulo: Record, 1996. p. 125-126“Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia.” (l. 21-23)
Os termos “cachorros” e “Baleia”, dentro do contexto da passagem e no todo do livro, revelam
Os romancistas de 1930, ao contrário dos poetas modernistas, não pretendiam seguir os pressupostos estéticos das correntes de vanguarda, embora considerassem irreversíveis muitas ideias dos primeiros modernistas. Entre essas ideias, merece destaque:
Os romances O homem duplicado, de José Saramago, eTriste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, são produções literárias exemplares de
Os romances de José Lins do Rego e Graciliano Ramos, guardadas as diferenças de concepção literária desses dois autores, têm em comum
LEIA O FRAGMENTO DO POEMA AÇÚCAR, DE FERREIRA GULLAR, REFERÊNCIA PARA AQUESTÃO.
(...)
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
Os recursos expressivos e o enfoque do tema emprestam ao texto um caráter:
Leia os trechos apresentados a seguir.
ZÉ PAULO
Álvares, essa é a nossa condição. Hoje só existe poesia no inú- til, no inacabado...
ÁLVARES
No meu tempo já era assim.
ZÉ PAULO
Eu sei, mas não havia ainda o Grande Ciclo da Produção e do Consumo.
[…]
ZÉ PAULO
[…]
horário de pico é aquele em que se atinge o máximo congestionamento das vias...
[...]
ÁLVARES
Mas como aconteceu tudo isso?
ZÉ PAULO
Aconteceu como acontece com todas as cidades da América. É muito simples: elas foram entregues aos automóveis... Ou melhor, aos combustíveis fósseis!
[…]
ÁLVARES
[...]
Existem fontes imemoriais, é a elas que devemos recorrer...
[...]
ÁLVARES
O que é isso?
ZÉ PAULO
Material para escavação.
ÁLVARES
E posso saber o que é que vamos escavar?
ZÉ PAULO
Alguma dor não contaminada
MARTINS, Alberto. Uma noite em cinco atos. São Paulo: Editora 34, 2009. p. 49; p. 73; p. 81; p. 96-97Os questionamentos sobre o fazer literário presentes nostrechos transcritos interagem com a crítica de Zé Paulo à realidade das cidades da América. Essa interação torna-se evidente, pois