Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos sonoros, túmidos de desejo; e no silêncio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça às costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vê-la em colete diante do toucador desfazendo as tranças; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos.
Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.
Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos a Jesus.
– Verá, é muito bonito, de muita devoção! Disse ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.
Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até o meio da face. Queixou-se de insônia, de palpitações.
– E então, gostou dos Cânticos?
– Muito. Orações lindas! respondeu.
Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste – e sem razão, às vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue.
(Eça de Queirós. O crime do padre Amaro.)O texto permite afirmar que
A mudança
O homem voltou à terra natal e achou tudo mudado. Até a igreja mudara de lugar. Os moradores pareciam ter trocado de nacionalidade, falavam língua incompreensível. O clima também era diferente.
A custo, depois de percorrer avenidas estranhas, que se perdiam no horizonte, topou com um cachorro que também vagava, inquieto, em busca de alguma coisa. Era um velhíssimo animal sem trato, que parou à sua frente.
Os dois se reconheceram: o cão Piloto e seu dono. Ao deixar a cidade, o homem abandonara Piloto, dizendo que voltaria em breve, e nunca mais voltou. O animal inconformado procurava-o por toda parte. E conservava uma identidade que talvez só os cães consigam manter na terra mutante.
Piloto farejou longamente o homem, sem abanar o rabo. O homem não se animou a acariciá- lo. Depois, o cão virou as costas e saiu sem destino. O homem pensou em chamá-lo, mas desistiu. Afinal, reconheceu que ele próprio tinha mudado, ou que talvez só ele mudara, e a cidade era a mesma, vista por olhos que tinham esquecido a arte de viver.
(Carlos Drummond de Andrade in REGIS, Herman; MEDEIROS, Graça. Produção textual. Fortaleza: Premius, 2002)O texto NÃO permite afirmar:
Meu povo, meu poema
Meu povo e meu poema crescem juntos
Como cresce no fruto A árvore nova
No povo meu poema vai nascendo
Como no canavial
Nasce verde o açúcar
No povo meu poema está maduro
Como o sol
Na garganta do futuro
Meu povo em meu poema
Se reflete
Como espiga se funde em terra fértil
Ao povo seu poema aqui devolvo
Menos como quem canta
Do que planta.
FERREIRA GULLAR. Toda poesia. José Olympio: Rio de Janeiro, 2000.O texto Meu povo, meu poema, de Ferreira Gullar, foi escrito na década de 1970. Nele, o diálogo com o contexto sociopolítico em que se insere expressa uma voz poética que
Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das florestas d’África. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Então a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara. Fora o lazareto. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto é que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da cidade, levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina.
(Jorge Amado. Capitães da areia, 2008.)O texto literário, publicado em 1937, fala da epidemia de bexiga (varíola) e
Quer um conselho? Vá conhecer alguma coisa da terra e deixe os homens em paz... Os homens mudam, a terra é inalterável. Vá por aí dentro, embrenhe-se pelo interior e observe alguma coisa de proveitoso. Aqui na capital só encontrará casas mais altas, ruas mais cheias e coisas parecidas ao que de igual existe em todas as cidades modernas. Mas ao contato com a terra você sentirá o que não pode sentir nas avenidas asfaltadas.
LOBATO, M. Lobatiana: meio ambiente. São Paulo: Brasiliense, 1985.O texto literário evidencia uma percepção dual sobre a cidade e o campo, fundamentada na ideia de
Escravo Isidoro
É noite,
Isidoro destramela
A porta da senzala
- lua clara,
Riscos de nuvens cobrem o pico do Itambé.
Isidoro
- dispara
Ele sabe dos fios das conversas,
Da arenga na boca das catas,
Ele sabe onde esconder o ouro
E camuflar o fisco.
O diamante é um sonho que escorrega pelas mãos,
A rebelião está armada
- meias palavras.
- portas fechadas.
Isidoro é chamado
A chibata come.
- Seu corpo é arrastado pelas ruas do Tejuco.
Fonte: VENTURA, Adão. Costura de nuvens – antologia poética. Sabará: Dubolsinho, 2006. P. 31.O texto literário aborda uma forma de resistência negra à escravidão no Brasil, identifique-a
Texto II
Somos todos poetas
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
MENDES, M. A poesia em pânico. Rio de Janeiro: Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.O Texto II exemplifica a seguinte afirmativa a respeito da obra de Murilo Mendes:
Texto II
[...] Na testa de Fabiano o suor secava, misturando-
-se à poeira que enchia as rugas fundas, embebendo-
-se na correia do chapéu. A tontura desaparecera,
o estômago sossegara. Quando partissem, a cabaça
não envergaria o espinhaço de sinha Vitória. Instintivamente
procurou no descampado indício de fonte.
Um friozinho agudo arrepiou-o. Mostrou os dentes
sujos num riso infantil. Como podia ter frio com semelhante
calor? Ficou um instante assim besta, olhando
os filhos, a mulher e a bagagem pesada. O menino
mais velho esbrugava um osso com apetite. [...]
RAMOS, G. Vidas Secas. RJ/SP: Record, 2013, p. 124.O Texto II é um trecho selecionado de Vidas Secas. Esse trecho caracteriza-se pela representação de aspectos específicos do romance modernista regional porque
XIII
Certas palavras têm ardimentos; outras, não.
A palavra jacaré fere a voz.
É como descer arranhando pelas escarpas de um
serrote.
É nome com verdasco de lodo no couro.
Além disso é agríope (que tem olho medonho).
Já a palavra garça tem para nós um
sombreamento de silêncios...
E o azul seleciona ela!
O texto exemplifica a linguagem particular da poesia de Manoel de Barros, aqui centrada na
A inexistência de uma forma especificamente alemã incomodava determinados músicos, como Richard Wagner e, até mesmo, Robert Schumann, uma vez que tais autores identificavam a igualdade de temas, porém a indefinição de formas composicionais para um público basicamente homogêneo.
(RICON, Leandro Couto Carreira. A Emergência de uma Ópera Alemã no Primeiro Escrito de Richard Wagner. p. 05 In: https://revistahistoriauft.files.wordpress.com/2012/04/artigo-4.pdf. Adaptado.)O texto está conectado a uma fase da história europeia, identificada como Romantismo. Sobre a obra de Richard Wagner, assinale a alternativa CORRETA.