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LiteraturaENEM2011

— Adiante... Adiante... Não pares... Eu vejo. Canaã! Canaã!

Mas o horizonte da planície se estendia pelo seio da noite e se confundia com os céus.

Milkau não sabia para onde o impulso os levava: era o desconhecido que os atraía com a poderosa e magnética força da Ilusão. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito...

— Canaã! Canaã!... suplicava ele em pensamento, pedindo à noite que lhe revelasse a estrada da Promissão.

E tudo era silêncio, e mistério... Corriam... corriam. E o mundo parecia sem fim, e a terra do Amor mergulhada, sumida na névoa incomensurável... E Milkau, num sofrimento devorador, ia vendo que tudo era o mesmo; horas e horas, fatigados de voar, e nada variava, e nada lhe aparecia... Corriam... corriam...

ARANHA, G. Canaã. São Paulo: Ática, 1998 (fragmento).

O sonho da terra prometida revela-se como valor humano que faz parte do imaginário literário brasileiro desde a chegada dos portugueses. Ao descrever a situação final das personagens Milkau e Maria, Graça Aranha resgata esse desejo por meio de uma perspectiva

LiteraturaFIP2018

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.
Olavo Bilac

O soneto, além de suas características parnasianas, apresenta o seguinte traço romântico:

LiteraturaUFPR2013

Considere o soneto a seguir, de Gregório de Matos:

Descreve com galharda propriedade o labirinto confuso de suas desconfianças

Ó caos confuso, labirinto horrendo,

Onde não topo luz, nem fio achando;

Lugar de glória, aonde estou penando;

Casa da morte, aonde estou vivendo!

Oh voz sem distinção, Babel* tremendo;

Pesada fantasia, sono brando;

Onde o mesmo que toco, estou sonhando;

Onde o próprio que escuto, não o entendo;

Sempre és certeza, nunca desengano;

E a ambas pretensões com igualdade,

No bem te não penetro, nem no dano.

És ciúme martírio da vontade;

Verdadeiro tormento para engano;

E cega presunção para verdade.

*Babel: bíblico, torre inacabada por castigo divino; quando de sua construção os homens viram seus idiomas se confundirem, gerando o desentendimento que os obrigou a se dispersarem. Por extensão, desentendimento, confusão.

(MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção e organização: José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 219.)

O soneto transcrito apresenta características recorrentes da poesia de Gregório de Matos e do período literário em que ele o escreveu, o Barroco. Acerca desse soneto, é correto afirmar:

LiteraturaFACISB2019

Leia o soneto “Mal secreto”, de Raimundo Correia, para responder à questão.

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

(Sânzio de Azevedo (org.). Parnasianismo, 2006.)

O soneto explora, sobretudo, a oposição

LiteraturaFAMECA2014

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o Mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve...) as saudades.

E o tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mi[m] converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.

(Obra completa, 2005.)

O soneto aborda um tema que perpassa a obra de Camões. É correto afirmar que esse tema diz respeito à

LiteraturaPUC-Campinas2018

Se a obra historiográfica de Sérgio Buarque de Hollanda foi um olhar para o passado brasileiro a partir da História de São Paulo (as monções, as entradas e bandeiras, os caminhos e fronteiras) entre a generalidade do ensaio, em Raízes do Brasil, e a sistematização acadêmica de sua produção na USP, a cidade do Rio de Janeiro funda um universo poético e um horizonte criativo inteiramente novos em Chico Buarque, no cruzamento das atividades do “morro” (o samba, sobretudo) com as da “cidade” (A Bossa Nova e a vida intelectual do circuito Zona Sul).

(FIGUEIREDO, Luciano (org). História do Brasil para ocupados. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013, p. 451)

O sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, em sua obra Raízes do Brasil, buscou caracterizar traços fundadores da nossa identidade cultural, ao tempo que também a literatura registrava aspectos regionais de nossa cultura mais enraizada, tal como ocorreu

LiteraturaUnit-AL2019

Antônio Brás tinha tanto medo do mar, que só no terceiro dia de total pavor lembrou-se de que agora era imortal.

O tempo frustrara os planos de D. Manuel. Depois da solenidade, um vento do Sul impediu que a esquadra zarpasse, o que só aconteceu no dia seguinte, 9 de março de 1500, quando a maioria das pessoas já voltava ao trabalho.

[...]

O problema era sobreviver. As naus e caravelas, como cascas de nozes sobre o oceano desconhecido balançavam para todos os lados [...]. A água se tornava intragável. As comidas apodreciam. Só duas coisas ajudavam a enfrentar tudo isso: a ambição do lucro e a cota diária de litro e meio de vinho.

[...]

Mas a esperança de resolver tudo rápido e voltar o consolava.

(JAF, Ivan. O vampiro que descobriu o Brasil. São Paulo: Ática, 1999. p.16-17).

Antônio Brás, ao tornar-se vampiro, tornou-se imortal. Para reassumir a mortalidade, era necessário eliminar o velho vampiro que lhe cravou os dentes.

O seu desejo de readquirir o seu estado anterior tinha como razão

LiteraturaFEMA2016

Leia o trecho de Inocência, de Visconde de Taunay, para responder à questão.

O legítimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem em geral família. Enquanto moço, o seu fim único é devassar terras, pisar campos onde ninguém antes pusera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras1 e furar matas que descobridor algum até então haja varado.

Cresce-lhe o orgulho na razão direta da extensão e importância das viagens empreendidas; o seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudais que transpôs, os ribeirões que batizou, as serras que trasmontou e os pantanais que afoitamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeá-los com rara paciência.

Cada ano que finda lhe traz mais um valioso conhecimento e acrescenta uma pedra ao monumento da sua inocente vaidade.

– Ninguém pode comigo, exclama ele enfaticamente. Nos campos da Vacaria, no sertão do Mimoso e nos pantanos2 do Pequiri, sou rei.

E esta presunção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular majestático em sua singela manifestação.

Notas do autor: 1 despontar cabeceiras: rodear as nascentes dos rios, procurando sempre terreno enxuto. 2 pantanos: no interior pronuncia-se a palavra grave e não esdrúxula, mais conforme assim com a etimologia. (Inocência, 1994.)

O sertanejo é descrito, no trecho, como alguém

LiteraturaUNESP2021

De maneira que, assim como a natureza faz de feras homens, matando e comendo, assim também a graça faz de feras homens, doutrinando e ensinando. Ensinastes o gentio bárbaro e rude, e que cuidais que faz aquela doutrina? Mata nele a fereza, e introduz a humanidade; mata a ignorância, e introduz o conhecimento; mata a bruteza, e introduz a razão; mata a infidelidade, e introduz a fé; e deste modo, por uma conversão admirável, o que era fera fica homem, o que era gentio fica cristão, o que era despojo do pecado fica membro de Cristo e de S. Pedro. […] Tende-os [os escravos], cristãos, e tende muitos, mas tende-os de modo que eles ajudem a levar a vossa alma ao céu, e vós as suas. Isto é o que vos desejo, isto é o que vos aconselho, isto é o que vos procuro, isto é o que vos peço por amor de Deus e por amor de vós, e o que quisera que leváreis deste sermão metido na alma.

(Antônio Vieira. “Sermão do Espírito Santo” (1657). http://tupi.fflch.usp.br.)

O Sermão do Espírito Santo foi pregado pelo Padre Antônio Vieira em São Luís do Maranhão, em 1657, e recorre

LiteraturaPUC-Campinas2018

A composição da obra de Graciliano Ramos resulta de um processo rigorosamente seletivo e subordinado essencialmente aos limites da experiência pessoal, notadamente sertaneja. Nos limites da paisagem rural, de estrutura bem característica, o fazendeiro é poderoso e único, por vezes o “coronel”, até que se enfraquece em consequência da desarticulação de todo um sistema de mandonismo tradicional, ou consequência de um drama pessoal, que nos parece ainda condicionado de qualquer forma pelo sentimento fatalista do homem regional.

(Adaptado de: CANDIDO, Antonio e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira – Modernismo. 6. ed. Rio de Janeiro-São Paulo: Difel, 1977, p. 290)

O sentimento fatalista do homem regional está presente, como base das ações narradas, no livro de Graciliano Ramos