AprendiAprendi
LiteraturaFGV-RJ2013

Quando Bauer, o de pés ligeiros, se apoderou da cobiçada esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe partiu ao encalço, mas já Brandãozinho, semelhante à chama, lhe cortou a avançada. A tarde de olhos radiosos se fez mais clara para contemplar aquele combate, enquanto os agudos gritos e imprecações em redor animavam os contendores. A uma investida de Cárdenas, o de fera catadura, o couro inquieto quase se foi depositar no arco de Castilho, que com torva face o repeliu. Eis que Djalma, de aladas plantas, rompe entre os adversários atônitos, e conduz sua presa até o solerte Julinho, que a transfere ao valoroso Didi, e este por sua vez a comunica ao belicoso Pinga. (...)

Assim gostaria eu de ouvir a descrição do jogo entre brasileiros e mexicanos, e a de todos os jogos: à maneira de Homero. Mas o estilo atual é outro, e o sentimento dramático se orna de termos técnicos.

Carlos Drummond de Andrade, Quando é dia de futebol. Rio: Record, 2002.

O fragmento em que a convergência estilística predominante é a que se estabelece entre metonímia e personificação encontra-se em

LiteraturaUEFS2013

— Eu sou novo aqui. Meu nome é João Caio.

Aproxima-se o rapaz, trazendo o rifle inseparável, na orelha o cigarro de palha apagado. O homem não recusa a conversa:

—- Me chamo Pereira — e explica apontando o rapaz: — É meu filho, seu nome é Leonel. Estamos com Cajango desde o combate de Arataca.

Duro é o semblante, o tropeiro observa. A mesma dureza que está no olhar. Quase de porco-espinho aquela barba. Nas mãos, que se põem dentro da luz, as cicatrizes se mostram. “Ele lutou a facão”, pensa João Caio. Mas, se o pai é uma estaca que parece concentrar a vida na voz — seca, metálica, de lâmina no corpo a corpo —, o filho não esconde a raiva nos olhos. A pele se estica no rosto enxuto, desenhando-se a caveira, os lábios como cortados por febre. Pesará pouco mais que o rifle e o tropeiro não entende como possa carregar os bornais de munição. Nos tiroteios, saltando de moita em moita, é um gato do mato.

FILHO, Adonias. Corpo vivo. 25. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. p. 53.

O fragmento em foco, pertencente a uma importante obra do Modernismo brasileiro, evidencia

LiteraturaUEFS2012

[...] Quando o afoxé desapontou no Politeama, ouviu-se um grito uníssono de saudação, um clamor de aplauso: viva, viva, vivoô!

A surpresa fazia o delírio ainda maior: o doutor Francisco Antônio de Castro Loureiro, diretor interino da Secretaria de Polícia, não proibira por motivos étnicos e sociais, em defesa das famílias, dos costumes, da moral e do bem-estar público, no combate ao crime, ao deboche e à desordem, a saída e o desfile dos afoxés, a partir de 1904, sob qualquer pretexto e onde quer que fosse na cidade? Quem ousara, então?

Ousara o Afoxé dos Filhos da Bahia; nunca saíra antes e jamais se concebera e vira afoxé assim de majestade, de figuração tão grande e bela, com batuque igual, maravilha de

cores, ordem admirável e Zumbi em sua grandeza.

AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. 45. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 65.

O fragmento em foco, pertencente à obra “Tenda dos Milagres”, comprova um traço da prosa de Jorge Amado presente na alternativa

LiteraturaUEFS2012

Ao que, digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram — pelo pulo fino de sem ver se dar — a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa ideia me põe susto. Mas, o senhor veja: cheguei em casa do Mestre Lucas, ele me saudou, tão natural. Achei também tudo o natural, eu estava era cansado. E, quando Mestre Lucas me perguntou se eu vinha era de passeata, ou de recado da fazenda, expliquei que não: que eu tinha merecido licença de meu padrinho, para começar vida própria em Curralinho ou adiante, a fito de desenvolver mais estudos e apuramento só de cidade.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 117-118.

O fragmento em foco faz parte de uma das mais importantes obras da literatura brasileira – “Grande sertão: veredas”. No texto, o narrador

LiteraturaUEFS2013

TEXTO:

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve

um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma

criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar

5 exclamava:

— Ai! que preguiça!. . .

e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros

e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O

divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra

10 ganhar vintém.

ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. 30. ed. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Villa Rica, 1997. p. 9.

O fragmento em destaque foi retirado de uma obra considerada ícone da literatura modernista do início do século XX e evidencia seu caráter antropofágico, na medida em que

LiteraturaUESB2011

— Inocência!...Inocência!...chamou com voz sumida, mas ardente e cheia de súplica. Ninguém lhe respondeu.

— Inocência, implorou o moço, olhe...abra, tenha pena de mim...Eu morro por sua causa...

Depois de breve tempo, que para Cirino pareceu um século, descerrou-se a medo a janela, e apareceu a moça toda assustada, sem saber por que razão ali estava nem explicar tudo aquilo.

Parecia-lhe um sonho.

Quis, entretanto, dar qualquer desculpa à situação e, fingindo-se admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:

— Que vem...mecê...fazer aqui? ...já...estou boa.

Da parte de fora, agarrou-lhe Cirino nas mãos.

— Oh! disse ele com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou morrer...porque você me enfeitiçou, e não acho remédio para o meu mal.

TAUNAY, Visconde de. Inocência. São Paulo: Ática, 1996, p. 94-95.

O fragmento em destaque faz parte de uma narrativa do Romantismo e apresenta, predominantemente, um dos traços marcantes desse estilo de época, que é

LiteraturaENEM2016

Esaú e Jacó

Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é somente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro.

Por outro lado, há proveito em irem as pessoas da minha história colaborando nela, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade, espécie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trebelhos.

Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre, nem a torre de peão. Há ainda a diferença da cor, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, eassim vai o mundo.

ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1964 (fragmento).

O fragmento do romance Esaú e Jacó mostra como o narrador concebe a leitura de um texto literário. Com base nesse trecho, tal leitura deve levar em conta

LiteraturaCESMAC2018

Analise o fragmento de um poema transcrito abaixo.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?...
Ó mar! por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas?
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolais das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
(Castro Alves. Canto V de O navio negreiro).

O fragmento do poema transcrito acima poderia aplicar-se a fatos que temos presenciado nos dias de hoje, embora a literatura tenha como universo de referência a ficção. No caso desse poema – que se refere a fatos do mundo real:

LiteraturaEBMSP2017

Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiências, foi a de Diogo Meireles. Lavrava então na cidade uma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara do paciente, e não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar tamanho peso. Conquanto os físicos da terra propusessem extrair os narizes inchados, para alívio e melhoria dos enfermos, nenhum destes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso à lacuna, e tendo por mais aborrecível que nenhuma outra coisa a ausência daquele órgão. Diogo Meireles, que desde algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atrás, estudou a moléstia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrifício. Então, ocorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi que, reunindo muitos físicos, filósofos, bonzos, autoridades e povo, comunicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o órgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por ele em várias partes, e muito aceita aos físicos de Malabar. O assombro da assembleia foi imenso, e não menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria não sabia em que acreditar, pois se lhe repugnava a metafísica do nariz, cedia, entretanto, à energia das palavras de Diogo Meireles, ao tom alto e convencido com que ele expôs e definiu o seu remédio.

ASSIS, Machado de. O Segredo do Bonzo. Papéis Avulsos. Disponível em: <http://www. dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000236.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Adaptado.

O fragmento do conto “O Segredo do Bonzo”, de Machado de Assis, revela

LiteraturaFDF2014

Sentimento do Mundo

Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige

na confluência do amor

O fragmento de poema acima integra a obra de Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo. Da leitura dele NÃO se pode depreender que