Leia o fragmento a seguir para responder à questão.
Mesmo estranhei, quando fui notando que o tiroteio da rua tinha pousado termo; achei que fazia um certo minuto que o fogo tinha sopitado. Cessaram, sim. Mas gritavam, vuvú vavavá de conversa ruim, uns para os outros, de ronda- roda. Haviam de ter desautorizado toda munição”? Olhando, desentendi. [...] E vi, chefiando os dele, o Hermógenes! [...].
Conheci o que estava para ser: quer os dele e os meus tinham cruzado grande e doido desafio, conforme para cumprir se arrumavam, uns e outros, nas duas pontas da rua, debaixo de forma; e a frio desembainhavam. Que vendo, Diadorim — movimentos dele. Querer mil gritar, e não pude, desmim de mim-mesmo, me tonteava, numas ânsias. [...] tiraram minha voz.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 609-010. (Fragmento).O excerto, bem como o romance do qual ele foi extraído, são narrados em primeira pessoa, o que promove
De acordo com esse movimento, a arte deve valer-se dos métodos científicos de observação e experimentação no tratamento dos fatos e dos personagens. Tal movimento substitui o estudo do homem abstrato e metafísico pelo do homem sujeito a leis físico-químicas e determinado pela influência do meio.
(Afrânio Coutinho. Introdução à literatura no Brasil, 1976. Adaptado.)O excerto trata do movimento
É preciso ler esse livro singular sem a obsessão de enquadrá-lo em um determinado gênero literário, o que implicaria em prejuízo paralisante. Ao contrário, a abertura a mais de uma perspectiva é o modo próprio de enfrentá- lo. A descrição minuciosa da terra, do homem e da luta situa-o no nível da cultura científica e histórica. Seu autor fez geografia humana e sociologia como um espírito atilado poderia fazê-las no começo do século, em nosso meio intelectual, então avesso à observação demorada e à pesquisa pura. Situando a obra na evolução do pensamento brasileiro, diz lucidamente o crítico Antonio Candido: “Livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, esta obra assinala um fim e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira (no caso, as contradições contidas na diferença de cultura entre as regiões litorâneas e o interior).”
(Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira, 1994. Adaptado.)O excerto trata da obra
TEXTO 4
[...] o garçom larga a cerveja na mesa, sirvo lentamente nossos copos, simulando apreensão, pronto para expressar toda a minha ternura, e quando vou abrir a boca ela me interrompe: “Eu tou grávida” Camila disse isso e me fitou com olhos aguados. Parecia mendigar uma resposta que expressasse um mínimo de cumplicidade. Fiquei mudo, obviamente, talvez por alguns minutos, e ela entendeu meu silêncio absoluto como sendo de fato um silêncio absoluto, recolheu sua bolsa numa lentidão
torturante e foi embora, deixando o copo cheio.
Caro amigo, se não somos chimpanzés é porque temos a melancólica capacidade de chorar sozinhos durante as madrugadas.
GALERA, Daniel. Clichê romântico. In: GALERA, Daniel. Dentes guardados. 3 ed. Porto Alegre: Livros do Mal, 2004. p. 10.O excerto pode ser considerado um exemplar do pós-modernismo brasileiro porque
Chegara a época da colheita das castanhas, e a vila começava a ficar deserta. […] Muitas famílias, preocupadas com os arranjos da viagem, esqueciam os deveres religiosos, e pouco a pouco fora padre Antônio ficando reduzido a dizer missa para meia dúzia de pessoas […]. Não se podia perder o tempo próprio para a colheita das castanhas naquele ano, estavam dando um dinheirão […]. A poderosa atração dos castanhais arrancava todos os dias as ovelhas ao pastor católico […].
[…] Como deixar Silves que oferecia todas as vantagens da civilização, para ir-se meter pelos castanhais dentro, expondo-se a febres, a sezões, a mordeduras de cobras, a ataques de onças?
(Inglês de Sousa. O missionário, 2010. Adaptado.)O missionário foi publicado em 1888 e seu enredo transcorre em uma cidade do interior amazônico, Silves, nos anos setenta do século XIX.
O excerto faz uma descrição da exploração dos castanhais, que aparece no texto como
Cantiga de enganar
(...)
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta.
De sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
de escolher nossas lembranças
e revertê‐las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
– mas a conta não existe –
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
(...)
Em Claro Enigma, a ideia de engano surge sob a perspectiva do sujeito maduro, já afastado das ilusões, como se lê no verso‐síntese “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.” (“Legado”).
O excerto de “Cantiga de enganar” apresenta a relação do eu com o mundo mediada
[4]
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casalENF e nele assistoEOF;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!
(...)
[5]
Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia,
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateiaEPF.
(...)
Não verás enrolar negros pacotes
das secas folhas do cheiroso fumo;
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumesEQF de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.
Tomás A. Gonzaga, marilia dirceuO excerto contém versos que atestam, de modo enfático, que, no Brasil, o Arcadismo, também chamado de Neoclassicismo,
A ideia de pátria se vinculava estreitamente à de natureza e em parte extraía dela a sua justificativa. Ambas conduziam a uma literatura que compensava o atraso material e a debilidade das instituições por meio da supervalorização dos aspectos regionais, fazendo do exotismo razão de otimismo social. A partir de 1930 houve uma mudança de orientação, sobretudo na ficção regionalista, percebendo-se o que havia de mascaramento no encanto pitoresco com que antes se abordava o homem rústico. Evidenciou-se a realidade dos solos pobres, das técnicas arcaicas, da miséria pasmosa das populações, da sua incultura paralisante. A visão que resulta dessa perspectiva é pessimista quanto ao presente e problemática quanto ao futuro.
(Antonio Candido. A educação pela noite e outros ensaios, 1989. Adaptado.)O excerto assinala uma reorientação nos rumos da literatura brasileira, na medida em que os escritores
Leia o excerto a seguir.
Finalmente o descobri. Meu pai, o que lhe tinha sido feito? Estava magrito, esgazelado, parecia até que a alma lhe era uma coisa externa. Desde minha última visita ele se inquilinara num escuro, no oco de um velho farol. Tinha-se tornado faroleiro.
COUTO, Mia. O último voo do flamingo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 53.O excerto apresentado, relatado por um narrador em primeira pessoa, apresenta verbos no pretérito, sugerindo
Leia o fragmento a seguir para responder a questão.
Tua amada mandou para ti, disse Florita. Cansou de ser metade bicho, metade mulher.
Florita me provocava? A crença em seres sobrenaturais sumia de manhã e voltava à noite. Jogamos os peixes para os urubus do matadouro; quando sumiu o cheiro de vísceras e fel, recebi cartas e bilhetes de pessoas que tinham sido seduzidas e depois perseguidas por seres do fundo das águas. Uma grávida, com medo de dar à luz uma menina com cara de boto, escreveu que dormia na beira do Amazonas e cantava para o rio quando o sol nascia. Um homem que sonhava com uma inscrição milenar numa pedra no rio Nhamundá e se dizia imortal porque os encantados não morrem [...]. Gastei muito dinheiro com barqueiros. E o que trouxeram para mim? Mitos e meninas violentadas.
HATOUM, Milton. Órfãos do Eldorado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 65.O excerto apresentado tem como voz narrativa um narrador