Passagem da noite
É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
ANDRADE, Carlos Drummond. Passagem da noite. A rosa do povo. 18. ed. Rio de Janeiro: Record, 1997. p. 41-42.
Nos versos de Carlos Drummond de Andrade, a noite
São Paulo gigante, torrão adorado
Estou abraçado com meu violão
Feito de pinheiro da mata selvagem
Que enfeita a paisagem lá do meu sertão
Tonico e Tinoco, São Paulo GiganteNos versos da canção dos paulistas Tonico e Tinoco, otermo “sertão” deve ser compreendido como
TEXTO:
Nosso Tempo
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
[5] A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
[10] Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
[15] sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
[20] Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
[25] perderam o sentido, apenas querem explodir.
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
[30] Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
[35] Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.
[40] e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Record, 22ª-edição, p. 29-31. Adaptado.Nos versos “As leis não bastam. / Os lírios não nascem / da lei.” (v. 7-8), a relação semântica entre as duas afirmações está bem explicada em
Eu queria usar palavras de ave para escrever. Onde a gente morava era um lugar imensamente e sem nomeação.
Ali a gente brincava de brincar com palavras tipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada na pedra!
A Mãe que ouvira a brincadeira falou:
Já vem você com suas visões!
Porque formigas nem têm joelhos ajoelháveis
e nem há pedras de sacristias por aqui.
Isso é traquinagem da sua imaginação.
O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de Fontes.
O Pai achava que a gente queria desver o mundo
para encontrar nas palavras novas coisas de ver
[...]
O que a gente aprendia naquele lugar era só
ignorâncias
para a gente bem entender a voz das águas e
dos caracóis.
A gente gostava das palavras quando elas
perturbavam
o sentido normal das ideias.
Porque a gente também sabia que só os absurdos
enriquecem a poesia”.
(BARROS, Manoel de. Menino do Mato).Nos trechos “O Pai achava que a gente queria desver o mundo/para encontrar nas palavras novas coisas de ver / Porque a gente também sabia que só os absurdos enriquecem a poesia”, Manoel de Barros indica uma característica literária peculiar, identificada em Menino do Mato. Assinale a alternativa que vem ao encontro dessa característica:
O Classicismo, nas sociedades em que esteve presente como ideal estético, expressava a estrutura mental dos grupos que dispunham dos meios de produção material e, ao mesmo tempo, dos meios de produção intelectual.
(BRANDÃO, Domingos. Classicismo e antagonismos sociais. Belo Horizonte: UFMG, 1987. p.128.)Nos termos propostos pelo autor, elementos estéticos valorizados em períodos como o Renascimento europeu refletem a:
Nos romances Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e O cortiço, de Aluí-sio Azevedo, observam-se as seguintes características em comum:
Instrução: Leia o trecho inicial de Quincas Borba, de Machado de Assis, para responder à questão.
Rubião fitava a enseada - eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas”, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...
Que abismo que há entre o espírito e o coração! O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não se casasse; podia vir um filho ou uma filha... – Bonita canoa! – Antes assim! – Como obedece bem aos remos do homem! – O certo é que eles estão no céu!
(Machado de Assis. Quincas Borba, 1997.)Nos romances machadianos, é frequente o narrador dirigir-se diretamente ao leitor para comentar as condutas de personagens. É exemplo disso a passagem:
Nos quatro primeiros quadrinhos, a relação intertextual é uma:
Negros
Negros que escravizam
e vendem negros na África
não são meus irmãos.
Negros senhores na América
a serviço do capital
não são meus irmãos.
Negros opressores,
em qualquer parte do mundo,
não são meus irmãos.
Só os negros oprimidos,
escravizados,
em luta por liberdade,
são meus irmãos.
Para estes, tenho um poema
grande como o Nilo.
Solano Trindade. O poeta do povo. São Paulo: Ediouro, 2008, p. 41.Nos projetos que o Modernismo brasileiro, como um movimento estético e também político, propôs, constava a ideia de que a literatura poderia ser uma ferramenta de inclusão. No poema Negros, de Solano Trindade, o trecho “não são meus irmãos”, presente em três estrofes, demonstra que o poeta rejeita não só essa proposta de inclusão, mas também
TEXTO PARA AQUESTÃO
O homem que petrificava cadáveres e outros cientistas que hoje estariam presos
França, verão de 1885. Jean-Baptiste Vincent Laborde espera ansioso na entrada do cemitério. A lei determina que, antes de um cadáver ser doado para a ciência, deve-se encenar um enterro cristão. Para Laborde, é fundamental ganhar tempo. Ele criou um laboratório portátil montado numa carroça, que conta com uma maca, lanternas e material cirúrgico. No país que viu nascer a guilhotina, esse médico tenta demonstrar que os executados continuam conscientes após a decapitação. Quando chegam os restos do condenado à morte, cedido pelas autoridades, Laborde segura sua cabeça, perfura o crânio e aplica correntes elétricas no cérebro. A cara começa a se mexer e, por fim, abre um olho.
Várias décadas mais tarde, Gabriel Beaurieux, outro médico francês, presencia uma execução na guilhotina. Segundos depois, o doutor levanta a cabeça do cesto e grita o nome do condenado. Os olhos se abrem e voltam a se fechar. O médico chama pela segunda vez. E de novo o morto abre os olhos
Laborde e Beaurieux explicaram seus experimentos em publicações da época, mas nunca conseguiram provar sua hipótese. A guilhotina deixou de ser usada em 1977. A história desses médicos é contada agora em O cientista louco: uma história da pesquisa no limite, que será lançado em 30 de janeiro. Trata-se de um compêndio de pesquisadores reais que, movidos por uma forte convicção e pela ânsia de conhecimento, enfrentaram o pensamento dominante da época e inclusive realizaram testes que hoje poderiam levá-los à prisão.
DOMINGUEZ, N. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/.html. Acesso em: 05 mar. 2019.Nos parágrafos iniciais, o tempo e o modo verbal predominantes constituem estratégias que contribuem para