Considere o trecho de O Cortiço, de Aluísio Azevedo.
Uma aluvião de cenas, que ela [Pombinha] jamais tentara explicar e que até ali jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cuja fotografia Léonie lhe mostrou no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios, que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.
— Ah! homens! homens! ... sussurrou ela de envolta com um suspiro.
No texto, os pensamentos da personagem
Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava, nas relações com as pessoas, a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e perigosas.
(Vidas Secas, Graciliano Ramos.)No texto, os aspectos descritivos são empregados para
Texto
PRA MIM BRINCAR
Não há nada mais gostoso do que o mim sujeito de verbo no infinitivo. Pra mim brincar. As cariocas que não sabem gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática.
- As palavras mais feias da língua portuguesa são quiçá, alhures e miúde.
(BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Org: Emanuel de Moraes. 4ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986. p.19)No texto, o poeta modernista Manuel Bandeira faz uma recomendação em relação ao emprego do pronome oblíquo tônico mim, como se verifica no trecho “[...]Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática.” Diante disso, pode-se inferir que a sua crítica se centra em
[José Dias] Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. “Esta é a melhor apólice”, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos efeitos do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.
Machado de Assis, Dom Casmurro.No texto, o narrador diz que José Dias “sabia opinar obedecendo”. Considerada no contexto da obra, essa característica da personagem é motivada, principalmente, pelo fato de José Dias ser
Responder à questão com base no texto.
TEXTO
De tudo não falo. Não tenciono relatar ao senhor
minha vida em dobrados passos; servia para quê?
Quero é armar o ponto dum fato, para depois lhe
pedir um conselho. Por daí, então, careço de que
[5] o senhor escute bem essas passagens: da vida de
Riobaldo, o jagunço.
No texto, o narrador de Grande sertão: veredas dirige-se ao seu interlocutor, _________________, a quem narra os episódios vividos por/pelo _________________, num fluxo contínuo, marcado pela oralidade da fala do sertão de _________________
Para responder à questão, leia o trecho do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta — só o deo-gratias; e o troco. Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando: — “A pátria não pode nada com a velhice...” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas — ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos os animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. [...] Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
No texto, o narrador
O novo!... Esse foi o pensamento estético que nos agitou aqui durante a guerra. Onde estava o novo? Lá fomos buscar o novo nas Europas. E imitamos os “ismos” europeus.
ANDRADE, M. Modernismo e ação. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 abr. 1925, apud SCHWARTZ, J. (Org.). Vanguardas latino-americanas: polêmicas, manifestos e textos críticos. São Paulo: Iluminuras; Edusp; Fapesp, 1995.No texto, o autor, participante da Semana de Arte Moderna de 1922, está criticando a
Leia o texto para responder às questão.
O desenvolvimento do romance brasileiro mostra quanto a nossa literatura tem sido consciente da sua responsabilidade na construção de uma cultura. Os românticos, em especial, se achavam possuídos de um senso de missão, um intuito de exprimir a realidade específica da sociedade brasileira.
Quando se fala na irrealidade ou convencionalismo dos romancistas românticos, é preciso notar que os bons, dentre eles, não foram irreais na descrição da realidade social, mas apenas nas situações narrativas. É digna de reparo a circunstância de não haverem, nos romances regionalistas e urbanos, inventado personagens socialmente inverossímeis, como se poderia esperar devido à influência estrangeira. Mais do que ela, funcionou aqui a fidelidade ao meio observado: e apesar da fascinação exercida por um escritor como Alexandre Dumas (1802-1870), nunca se traçou em nossa literatura um personagem como Monte Cristo, incompatível com as condições ambientes. Estude-se a influência do Romance dum Rapaz Pobre, do francês Octave Feuillet, em Senhora para se apreciar o tato com que José de Alencar manuseava sugestões europeias.
(Antonio Candido. Formação da literatura brasileira, 1971. Adaptado.)No texto, o autor
O poema abaixo, de Alice Ruiz, faz parte do livro Jardim de Haijin.
passeio no Ibirapuera
uma cerejeira florida
interrompe a conversa
No texto, NÃO há
O texto a seguir corresponde ao capítulo 92, chamado “Estelário”, das Memórias sentimentais de João Miramar, obra representativa da primeira fase da literatura modernista brasileira.
Coração esperançava o esperançoso
Começo claro da noite cidadina
Retalhos grandes de nuvens
E duas estrelas vivas
Trem rolava com minha estrela
Bordando a vida fabricadora
Do Brás à Luz
Rolah estrelava o Hotel Suíço
(Oswald de Andrade)No texto, encontram-se vários traços de inovação estética, entre os quais NÃO ESTÁ