AprendiAprendi
LiteraturaUEMS2010

Considere o texto “Apelo”, para responder à questão.

Apelo

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor

(TREVISAN, D. Mistérios de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 1996.)

O narrador do texto é o personagem protagonista; esse recurso revela de forma convincente sentimentos, sensações e atitudes desse personagem.

No texto, é possível detectar dois sentimentos sucessivos e opostos em relação à ausência da mulher, identificados como

LiteraturaUFTM2013

Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, – um simples lenço! – e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.

(Machado de Assis, Dom Casmurro.)

No texto, duas narrativas entrecruzam-se: a história vivida pelo narrador e a história encenada na peça Otelo. A semelhança entre elas reside no fato de que ambas

LiteraturaPUC-MG2019

Um dos grandes escritores de sempre, tão pouco conhecido em Portugal, é o inglês Charles Dickens. Uma das suas páginas, de que me lembrei agora e é das mais comoventes que alguma vez li, fala de um filho que vai visitar a mãe, muito doente, ao hospital. De pé junto à sua cama pergunta-lhe

– Sentes dores, mãe?

e ela responde

– Tenho a impressão que há uma dor aqui no quarto mas não tenho a certeza de que sou eu que a sinto

e este extraordinário diálogo é profundamente verdadeiro. Quando estava internado no Hospital de Santa Maria, a sofrer com o cancro do cólon, era exatamente isto que eu estava a sentir. Havia uma dor intensa ali no quarto mas não sabia se era minha. Umas vezes parecia-me que sim, outras que não e estava para ali como um pobre boneco articulado, a tentar entender. Havia ocasiões em que me sentia ser eu, outras em que me sentia uma coisa vaga e, por estranho que pareça, o sofrimento era-me, às vezes, quase indiferente. Não possuía a consciência de ser uma pessoa, achava-me uma coisa vaga a flutuar sem destino, olhando vagamente a janela numa indiferença opaca, consciente da miséria do meu pobre corpo imóvel, tão longe de mim, tão longe dos outros, quase não respondendo aos médicos porque mal os ouvia e, estranhamente, sem nada a lamentar. Não me queixava: parecia-me incompreensível e ao mesmo tempo alheio a mim. As enfermeiras manejavam-me como um boneco, punham-me fraldas, tiravam-me fraldas, mudavam-me a algália, mudavam-me os soros e eu calado a vê-las sem as olhar, distante, indiferente, não triste sequer, não desesperado, ausente apenas. Durante a noite, sem dormir, olhava vagamente a janela e o vazio atrás dos vidros, tomava os comprimidos, não falava nunca. Aliás falar era difícil, articular palavras, fossem elas quais fossem, uma quase impossibilidade, não sentia medo nem esperança: não sentia nada, como não esperava nada nem desejava nada. E havia de facto uma dor ali no quarto, mas a quem pertencia?

ANTUNES, A. L. Disponível em: http://visao.sapo.pt/opiniao. Acesso em: 01 mar. 2019.

No texto, de autoria de um célebre escritor e médico português contemporâneo, a dor

LiteraturaFUVEST2022

Sofia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do leito o marido:
– Que foi? perguntou ele.
– Ah! respirou Sofia. Gritei, não gritei?

(...)

– Sonhei que estavam matando você.

Palha ficou enternecido. Havê-la feito padecer por ele, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, íntimo, profundo, – que o faria desejar outros pesadelos, para que o assassinassem aos olhos dela, e para que ela gritasse angustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.

Machado de Assis. Quincas Borba, cap. CLXI.

No texto, ao analisar a interioridade de Palha, o narrador descobre, no pensamento oculto do negociante,

LiteraturaUNIFESP2021

Leia o conto de Carlos Drummond de Andrade para responder à questão.


O entendimento dos contos


— Agora você vai me contar uma história de amor — disse o rapaz à moça. — Quero ouvir uma história de amor em que entrem caravelas, pedras preciosas e satélites artificiais.
— Pois não — respondeu a moça, que acabara de concluir o mestrado de contador de histórias, e estava com a imaginação na ponta da língua. — Era uma vez um país onde só havia água, eram águas e mais águas, e o governo como tudo mais se fazia em embarcações atracadas ou em movimento, conforme o tempo. Osmundo mantinha uma grande indústria de barcos, mas não era feliz, porque Sertória, objeto dos seus sonhos, se recusava a casar com ele. Osmundo ofereceu-lhe um belo navio embandeirado, que ela recusou. Só aceitaria uma frota de dez caravelas, para si e para seus familiares.
Ora, ninguém sabia fazer caravelas, era um tipo de embarcação há muito fora de uso. Osmundo apresentou um mau produto, que Sertória não aceitou, enumerando os defeitos, a começar pelas velas latinas, que de latinas não tinham um centavo. Osmundo, desesperado, pensou em afogar-se, o que fez sem êxito, pois desceu no fundo das águas e lá encontrou um cofre cheio de esmeraldas, topázios, rubis, diamantes e o mais que você imagina. Voltou à tona para oferecê-lo à rígida Sertória, que virou o rosto. Nada a fazer, pensou Osmundo; vou transformar-me em satélite artificial. Mas os satélites artificiais ainda não tinham sido inventados. Continuou humilde satélite de Sertória, que ultimamente passeava de uma lancha para outra, levando-o preso a um cordão de seda, com a inscrição “Amor imortal”. Acabou.
— Mas que significa isso? — perguntou o moço, insatisfeito.
— Não entendi nada.
— Nem eu — respondeu a moça —, mas os contos devem ser contados, e não entendidos; exatamente como a vida.

(Contos plausíveis, 2012.)

No texto, a moça

LiteraturaENEM2015

Lisboa: aventuras

tomei um expresso

cheguei de foguete

subi num bonde

desci de um elétrico

pedi um cafezinho

serviram-me uma bica

quis comprar meias

só vendiam peúgas

fui dar a descarga

disparei um autoclisma

gritei "ó cara!"

respondeu-me "ó pá!" positivamente

as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá

PAES, J. A poesia está morta mas juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988.

No texto, a diversidade linguística é apresentada pela ótica de um observador que entra em contato com uma comunidade linguística diferente da sua. Esse observador é um

LiteraturaFUVEST2022

Tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.

Machado de Assis. Quincas Borba, cap. XVIII.

A analogia consiste em um recurso de expressão comumente utilizado para ilustrar um raciocínio por meio da semelhança que se observa entre dois fatos ou ideias.

No texto, a analogia construída a partir da imagem do chicote pretende sugerir que

LiteraturaUFRN2011

[...]

Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o

cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites,

[3] convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns

tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'água benta, o fechar

[6] a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até

o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do

coche, o rodar dos carros, um a um...

[...]

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. In: COUTINHO, Afrânio (Org.). Obra completa. v. 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 562.

No texto,

LiteraturaESCS2015

Atração do mundo

1900. No ano em que o século passado se fecha e se abre para o século XX, Joaquim Nabuco, político pertencente à elite intelectual brasileira, publica Minha Formação, livro de memórias em que o autor reúne uma série de ensaios ficcionalizados, aparecidos na imprensa durante a década anterior. Naquele momento complexo e forte da nacionalidade, quando o Imperador era expulso do país e os militares plebeus e jacobinos inauguravam o regime republicano, Minha Formação pontuava as contradições políticas da história recente do país e, ao mesmo tempo, a opção pela indispensável e enriquecedora abertura da jovem nação sul-americana para o mundo, expressa pela tardia abolição da escravatura, sem dúvida o maior feito do agonizante regime monárquico.

Silviano Santiago. O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: UFMG, 2004, p. 11 (com adaptações).

No texto acima, o crítico literário Silviano Santiago se refere ao momento histórico em que se prepara a emergência do Modernismo brasileiro. Nesse movimento literário, as referências culturais estrangeiras foram

LiteraturaUCS2011

Por seu ________________, o Simbolismo apresenta algumas semelhanças com a poesia romântica, porém a grandediferença reside na linguagem bem mais trabalhada dos simbolistas, que procuram obter variados efeitos rítmicos e sonoros. Além disso, os simbolistas manifestam acentuado gosto pelo vocabulário litúrgico e ________________, o que dá a seus textos um ar de misticismo e espiritualidade ausente do Romantismo.

(In: TUFANO, Douglas. Estudos de literatura brasileira. 4. ed. rev. e ampl. São Paulo: Moderna, 1988. p. 170.)

No texto acima se estabelece uma comparação entre o Romantismo e o Simbolismo. Assinale a alternativa correta em relação ao período literário que, na poesia, está entre esses dois estilos de época.