No conto “Amor”, de Clarice Lispector, a percepção da personagem Ana, em relação ao seu mundo, é alterada de forma significativa pelo seguinte acontecimento:
Leia o fragmento a seguir.
O tambor e a dança são invenções do Jacaré, que os homens receberam de legado para compensar suas misérias. Dançando e percutindo o tambor os homens mantêm o Jacaré adormecido, impedindo que a terra trema e as águas primordiais sejam cuspidas pela boca da Serpente-dragão, num outro dilúvio. Os monstros subterrâneos deixam escapar pequenos suspiros d'água, em forma de nascentes, que descem as chapadas, umedecendo as florestas. O Jacaré acordará um dia, destruindo o mundo dos homens.
Contra o perigo se resguardavam os cariris, primeiros habitantes desta terra, zelo de que também se tomaram os brancos colonizadores, quando chegaram matando o que era vivo. Traziam os negros da África, com os mesmos olhos dos índios, de enxergar o sagrado em tudo.
BRITO, Ronaldo Correia de. Livro dos homens. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 58.No conto “A peleja de Sebastião Candeia”, de que se extraiuo fragmento acima, presentifica-se uma das temáticas recorrentes na obra Livro dos homens, a qual se expressa pela
Aquestão refere-se ao livro Contos de aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade.
No conto “A doida”, o menino, já dentro da casa da personagem-título, experimenta a mudança de um estado para outro, ou seja, passa de
CAPÍTULO LXXI
O senão do livro
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
E caem! — Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Heis de cair.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.No contexto, a locução “Heis de cair”, na última linha do texto, exprime:
Foi na terceira semana de abril que o embaixador do Sacramento tomou posse de sua cadeira no Conselho da Organização dos Estados Americanos. Ao entrar no edifício da União Pan- Americana, foi logo atraído por vozes estrídulas que despertaram o menino que dormia dentro dele. Afastou-se dos assessores que o acompanhavam e precipitou-se para o Pátio Tropical, onde duas araras de cores tão rútilas que pareciam recender ainda a tinta – escarlate, verde, azul, amarelo – gingavam e gritavam, assanhadas, nos seus poleiros. Gabriel Heliodoro aproximou-se duma delas, tentou pegar-lhe o bico, o que excitou ainda mais a colorida criatura, e ficou depois a dizer-lhe coisas numa língua que Titito Villalba jamais ouvira em sua vida. Em vão o secretário tentava mostrar a seu chefe as outras curiosidades do pátio. Sem dar-lhe atenção, o embaixador aproximou-se da outra arara e repetiu a brincadeira.
(Érico Veríssimo, O senhor embaixador.)No contexto, a cena descrita revela, em relação ao comportamento do embaixador,
TEXTO PARA AQUESTÃO
E Sofia? interroga impaciente a leitora, tal qual Orgon: Et
Tartufe? Ai, amiga minha, a resposta é naturalmente a
mesma, – também ela comia bem, dormia largo e fofo, –
coisas que, aliás, não impedem que uma pessoa ame, quando
[5] quer amar. Se esta última reflexão é o motivo secreto da vossa
pergunta, deixai que vos diga que sois muito indiscreta, e que
eu não me quero senão com dissimulados.
Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegara ao fim da
comissão das Alagoas, com elogios da imprensa; a Atalaia
[10] chamou‐lhe “o anjo da consolação”. E não se pense que este
nome a alegrou, posto que a lisonjeasse; ao contrário,
resumindo em Sofia toda a ação da caridade, podia mortificar
as novas amigas, e fazer‐lhe perder em um dia o trabalho de
longos meses. Assim se explica o artigo que a mesma folha
[15] trouxe no número seguinte, nomeando, particularizando e
glorificando as outras comissárias – “estrelas de primeira
grandeza”.
No excerto, o autor recorre à intertextualidade, dialogando com a comédia de Molière, Tartufo (1664), cuja personagem central é um impostor da fé. Tal é a fama da peça que o nome próprio se incorporou ao vocabulário, inclusive em português, como substantivo comum, para designar o “indivíduo hipócrita” ou o “falso devoto”.
No contexto maior do romance, sugere‐se que a tartufice
fim e começo
A noite caiu com licença da Câmara
Se a noite não caísse
Que seriam dos lampiões?
(Pau Brasil, 2003.)No contexto do poema, é correto afirmar que o título faz referência
Leia o capítulo IX do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, para responder à questão.
Transição
E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método. Na verdade, era tempo. Que isto de método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão. É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha. Vamos ao dia 20 de outubro.
(Memórias póstumas de Brás Cubas, 2018.)No contexto deste capítulo, os termos “gravata” e “suspensórios” representam
Observe a charge abaixo, que tem por título o estilo que se firmou no século XVII e teve na figura de Gregório de Matos seu principal representante.
No contexto dessa charge, a fala do amante, somada ao formato e à dimensão da flor, remete a uma característica do estilo barroco. Essa característica é o
[1] O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
[5] Nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!)
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender [...].
Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando PessoaNo contexto da obra do poeta, a imagem alma vestida (verso 06) pode sercorretamente compreendida assim: