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LiteraturaPUC-Campinas2017

Luiz Gama (1830-1882) foi um dos raros intelectuais negros brasileiros do século XIX, o único autodidata e também o único a ter sofrido a escravidão antes de integrar a república das Letras, universo reservado aos brancos. Em São Paulo, em 1859, lançou a primeira edição de seu único livro –Primeiras trovas burlescas de Getulino –, uma coletânea de poemas satíricos e líricos até bem pouco rara. Pela primeira vez na literatura brasileira, um negro ousara denunciar os paradoxos políticos, éticos e morais da sociedade imperial. (...) Jamais frequentou escolas, pois, como afirmara, “a inteligência repele os diplomas, como Deus repele a escravidão”. Luiz Gama converteu-se no incansável e douto “advogado dos escravos”. O poeta então se eclipsa, cedendo lugar ao abolicionista e militante republicano.

(FERREIRA, Lígia Fonseca. “Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça”. Revista Teresa de Literatura Brasileira (8/9). São Paulo: Editora 34/Universidade de São Paulo, 2008, p. 301)

Em alguns de seus poemas, Luís Gama cita versos alheios que refletem bem sua própria experiência, tais como estes, de Faustino Xavier de Novais:

Quero também ser poeta,

Bem pouco, ou nada, me importa

Se a minha veia é discreta,

Se a via que sigo é torta.

Nesses versos surpreende-se já

LiteraturaPUC-Campinas2016

Atente para estes versos de Manuel Bandeira, extraídos do poema “Minha terra”:

Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.
Diabo leve quem pôs bonita a minha terra.

Nesses versos o poeta pernambucano

LiteraturaPUC-Campinas2018

Não deixa de ser surpreendente que o lirismo delicado de Cecília Meireles tenha se mostrado, entre nós, um dos mais permeáveis aos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. De algum modo, aquele “costume de sofrer pelo mundo inteiro” reflete-se em diversas passagens entre 1939-1945, tal como nestes versos do poema “Pistoia, cemitério militar brasileiro”:

São como um grupo de meninos

num dormitório sossegado,

com lençóis de nuvens imensas,

e um longo sono sem suspiros,

de profundíssimo cansaço.

(MOURA, Murilo Marcondes de. O mundo sitiado. São Paulo, Editora 34, 2016, p. 254-255)

Nesses versos do poema “Pistoia, cemitério militar brasileiro”

LiteraturaUnit-SE2019

TEXTO:


Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

[5] Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
[10] O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Anjos, Augusto dos. Versos íntimos, Disponível em: https://www.escritas.org/pt/t/12236/versos-intimos. Acesso em: 17 nov. 2018.

Nesses versos de Augusto dos Anjos, a questão mais contundente de que ele trata é a

LiteraturaUFRN2013

Leia a seguir os trechos de "Consideração do poema", integrante do livro A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade.

Uma pedra no meio do caminho

ou apenas um rastro, não importa.

Estes poetas são meus. De todo o orgulho,

de toda a precisão se incorporaram

ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius

sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo

Que Neruda me dê sua gravata

chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.

São todos meus irmãos, não são jornais

nem deslizar de lancha entre camélias:

é toda a minha vida que joguei.

[...]

Saber que há tudo. E mover-se em meio

a milhões e milhões de formas raras,

secretas, duras. Eis aí meu canto.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2009. p. 139-140.

Nesses trechos, além da função poética, ocorre predominantemente a função

LiteraturaENEM2010

Texto I
XLI
Ouvia:
Que não podia odiar E nem temer
Porque tu eras eu.
E como seria
Odiar a mim mesma
E a mim mesma temer.
HILST, H. Cantares. São Paulo: Globo, 2004 (fragmento).
Texto II
Transforma–se o amador na cousa amada
Transforma–se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Camões. Sonetos. Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br. Acesso em: 03 set. 2010 (fragmento).

Nesses fragmentos de poemas de Hilda Hilst e de Camões, a temática comum é

LiteraturaUnit-AL2019

Alguns críticos costumam dividir a obra Os desvalidos em dois planos:

1) O objetivo — quando resgate a cultura popular através da retomada da tradição oral do cordel e da história do cangaço, na lendária figura de Lampião, cangaceiro que aterrorizou o Nordeste brasileiro na primeira metade do século XX.

2) O subjetivo — quando relata a memória, a percepção complexa das coisas que deixaram marca subjetivas no indivíduo, memória que possibilita que o passado se torne presente e o indivíduo elabore, para si próprio, a significação das coisas passadas.

Nesses dois eixos discursivos de Os desvalidos, a alternativa que contém, respectivamente, esses dois planos: o objetivo e o subjetivo é a

LiteraturaENEM2017

O exercício da crônica

Escrever prosa e uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo.

MORAES, V. Para viver um grande amor: crônicas e poemas. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.

Nesse trecho, Vinicius de Moraes exercita a crônica para pensã-la como gênero e prática. Do ponto de vista dele, cabe ao cronista

LiteraturaENEM2017

— Recusei a mão de minha filha, porque o senhor é... filho de uma escrava.

— Eu?

— O senhor é um homem de cor!... Infelizmente esta é a verdade...
Raimundo tornou-se lívido. Manoel prosseguiu, no fim de um silêncio:

— Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei
Ana Rosa, mas é por tudo! A família de minha mulher
sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela
é toda a sociedade do Maranhão! Concordo que seja uma
asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! O senhor
porém não imagina o que é por cá a prevenção contra os
mulatos!... Nunca me perdoariam um tal casamento; além
do que, para realizá-lo, teria que quebrar a promessa que
fiz a minha sogra, de não dar a neta senão a um branco
de lei, português ou descendente direto de portugueses!

AZEVEDO, A. O mulato. São Paulo: Escala, 2008.


Influenciada pelo ideário cientificista do Naturalismo, a obra destaca o modo como o mulato era visto pela sociedade de fins do século XIX.

Nesse trecho, Manoel traduz uma concepção em que a

LiteraturaFAAP2016

Os Bruzundangas

No gabinete do ministro

Pancome, quando se deu uma vaga de amanuense na sua secretaria de Estado, de acordo com o seu critério não abriu concurso, como era de lei, e esperou o acaso para preenchê-la convenientemente.

Houve um rapaz que, julgando que o poderoso visconde queria um amanuense chic e lindo, supondo-se ser tudo isso, requereu o lugar, juntando os seus retratos, tanto de perfil como de frente.

Pancome fê-lo vir à sua presença. Olhou o rapaz e disse:

_ Sabe sorrir?

_ Sei, Excelentíssimo Senhor Ministro.

_ Então mostre.

Pancome ficou contente e indagou ainda:

_ Sabe cumprimentar?

_ Sei, Senhor Visconde.

_ Então, cumprimente ali o Major Marmeleiro.

Este major era o seu secretário e estava sentado, em outra mesa, ao lado da do ministro, todo ele embrulhado em uma vasta sobrecasaca.

O rapaz não se fez de rogado e cumprimentou o major com todos os “ff” e “rr” diplomáticos.

O visconde ficou contente e perguntou ainda:

_ Sabe dançar?

_ Sei, Excelentíssimo Senhor Visconde.

_ Dance.

_ Sem música?

O visconde não se atrapalhou. Determinou ao secretário:

_ Marmeleiro, ensaia aí uma valsa.

_ Só sei “Morrer sonhando” (exemplo).

_ Serve.

O candidato dançou às mil maravilhas e o visconde não escondia o grande contentamento de que sua alma exuberava.

Indagou afinal:

_ Sabe escrever com desembaraço?

_ Ainda não, doutor.

_ Não faz mal. O essencial, o senhor sabe. O resto o senhor aprenderá com os outros.

E foi nomeado, para bem documentar, aos olhos dos estranhos, a beleza dos homens da Bruzundanga.

(Lima Barreto. Os Bruzundangas, 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1961, p. 166-7.)

Nesse trecho, Lima Barreto faz uma análise da sociedade brasileira. Uma destas análises não procede. Assinale-a.