Todo o barbeiro é tagarela, e principalmente
quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar
conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna.
O navio a que o marujo pertencia viajava para a
[5] Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos
combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e
estava pronto a largar.
— Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa,
você também não é sangrador?
[10] — Sim, eu também sangro...
— Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir
conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que
é uma praga.
— Homem, eu da cirurgia não entendo muito...
[15] — Pois já não disse que sabe também sangrar?
— Sim...
— Então já sabe até demais.
No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra
fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo
[20] aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a
médico de navio negreiro; restava unicamente saber
fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta.
Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de
viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o
[25] médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes,
e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto
ganhou imensa reputação, e começou a ser estimado.
Chegaram com feliz viagem ao seu destino;
tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para
[30] o Rio. Graças à lanceta do nosso homem, nem um só
negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe
a sólida reputação de entendedor do riscado.
Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.Neste trecho, em que narra uma cena relacionada ao tráfico de escravos, o narrador não emite julgamento direto sobre essa prática. Ao adotar tal procedimento, o narrador
“São Paulo, 13 de junho de 1929
Manu,
três horas duma noite que além de ser noite de sábado,
está de neblina formidável. Noite de sábado já é uma das coisas
mais humanas de São Paulo, todos os húngaros, tchecos,
búlgaros, sírios, austríacos, nordestinos saem passear (...)”
(Carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. In: MORAES, Marco Antonio (org). Correspondência. Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: EDUSP, 2001. p. 427)Neste trecho de carta a seu amigo Manuel Bandeira, Mário de Andrade,
Sabato Magaldi (2004) afirma que Ariano Suassuna aproxima-se de uma visão do mundo contemporâneo, que introduz o Auto da Compadecida como o texto mais popular do Modernismo brasileiro.
Neste sentido, assinale a alternativa incorreta.
Soneto
Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.
Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
E, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.
Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vossoamor de me salvar.
O Barroco surge na Europa, expressando uma tentativa de conciliação do conflito entre teocentrismo e antropocentrismo.
Neste poema Soneto, de Gregório de Matos Guerra, o “Boca do inferno”, um dos principais expoentes do Barroco brasileiro, a ideia da referida tentativa de conciliação é uma confissão que culmina no
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montanhosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com ódio tenaz e sagrado.
BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Penguin, 2011. p. 191.Neste fragmento, o autor descreve a irregularidade do traçado das ruas cariocas. Com o propósito de criar uma cidade mais moderna, com ruas e avenidas mais retilíneas, é que se efetivou
(...) É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali
mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais
beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu
nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem,
concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija;
e ela cumpre. O marido todavia não parece contente,
porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu
filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas
temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o
macho em todo o seu egoísmo...
Eça de Queirós, A cidade e as serras.Neste excerto, o julgamento expresso por Jacinto, ao falarde um casal que o serve em sua quinta de Tormes, manifesta um ponto de vista semelhante ao do
O escritor Lima Barreto faleceu em 1922, com saúde psicofísica cronicamente debilitada. Nesse mesmo ano ocorreu a Semana de Arte Moderna no Brasil, cujo propósito foi o resgate cultural de temas nacionais.
Neste contexto, no romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, o autor
A passagem abaixo é extraída do capítulo “Das negativas”, de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência de Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 27. ed. São Paulo: Ática,1999. p. 176.Neste capítulo, Brás Cubas faz uma espécie de balanço de sua existência, em que
Neste ano, comemoramos o centenário de nascimento do escritor Jorge Amado, cuja obra engloba:
TEXTO:
Agosto 1964
Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estada de Ferro – Leblon
5 Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.
O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções de juventude, adeus,
10 que a vida
eu a compro à vista dos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.
Digo adeus à ilusão
15 mas não ao mundo. Mas não à vida,
Meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
20 do terror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira.
GULLAR, Ferreira. Agosto 1964. In: MARICONI, Ítalo (Org.) Os cem melhores poemas do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 267.Nesses versos, o eu poético