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LiteraturaFUVEST2011

Todo o barbeiro é tagarela, e principalmente

quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar

conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna.

O navio a que o marujo pertencia viajava para a

[5] Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos

combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e

estava pronto a largar.

— Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa,

você também não é sangrador?

[10] — Sim, eu também sangro...

— Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir

conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que

é uma praga.

— Homem, eu da cirurgia não entendo muito...

[15] — Pois já não disse que sabe também sangrar?

— Sim...

— Então já sabe até demais.

No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra

fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo

[20] aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a

médico de navio negreiro; restava unicamente saber

fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta.

Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de

viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o

[25] médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes,

e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto

ganhou imensa reputação, e começou a ser estimado.

Chegaram com feliz viagem ao seu destino;

tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para

[30] o Rio. Graças à lanceta do nosso homem, nem um só

negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe

a sólida reputação de entendedor do riscado.

Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.

Neste trecho, em que narra uma cena relacionada ao tráfico de escravos, o narrador não emite julgamento direto sobre essa prática. Ao adotar tal procedimento, o narrador

LiteraturaPUC-Campinas2015

“São Paulo, 13 de junho de 1929

Manu,

três horas duma noite que além de ser noite de sábado,

está de neblina formidável. Noite de sábado já é uma das coisas

mais humanas de São Paulo, todos os húngaros, tchecos,

búlgaros, sírios, austríacos, nordestinos saem passear (...)”

(Carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. In: MORAES, Marco Antonio (org). Correspondência. Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: EDUSP, 2001. p. 427)

Neste trecho de carta a seu amigo Manuel Bandeira, Mário de Andrade,

LiteraturaUNEMAT2012

Sabato Magaldi (2004) afirma que Ariano Suassuna aproxima-se de uma visão do mundo contemporâneo, que introduz o Auto da Compadecida como o texto mais popular do Modernismo brasileiro.

Neste sentido, assinale a alternativa incorreta.

LiteraturaUNIFAN2016

Soneto

Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
E, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vossoamor de me salvar.

Adaptado de: GUERRA, Gregório de Matos. Soneto. In: Poemas satíricos. Gregório de Matos. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 96.

O Barroco surge na Europa, expressando uma tentativa de conciliação do conflito entre teocentrismo e antropocentrismo.

Neste poema Soneto, de Gregório de Matos Guerra, o “Boca do inferno”, um dos principais expoentes do Barroco brasileiro, a ideia da referida tentativa de conciliação é uma confissão que culmina no

LiteraturaUEG2013

Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montanhosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções.

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com ódio tenaz e sagrado.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Penguin, 2011. p. 191.

Neste fragmento, o autor descreve a irregularidade do traçado das ruas cariocas. Com o propósito de criar uma cidade mais moderna, com ruas e avenidas mais retilíneas, é que se efetivou

LiteraturaFUVEST2010

(...) É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali

mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais

beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu

nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem,

concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija;

e ela cumpre. O marido todavia não parece contente,

porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu

filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas

temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o

macho em todo o seu egoísmo...

Eça de Queirós, A cidade e as serras.

Neste excerto, o julgamento expresso por Jacinto, ao falarde um casal que o serve em sua quinta de Tormes, manifesta um ponto de vista semelhante ao do

LiteraturaUnirG2020

O escritor Lima Barreto faleceu em 1922, com saúde psicofísica cronicamente debilitada. Nesse mesmo ano ocorreu a Semana de Arte Moderna no Brasil, cujo propósito foi o resgate cultural de temas nacionais.

Neste contexto, no romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, o autor

LiteraturaUFRN2011

A passagem abaixo é extraída do capítulo “Das negativas”, de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência de Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 27. ed. São Paulo: Ática,1999. p. 176.

Neste capítulo, Brás Cubas faz uma espécie de balanço de sua existência, em que

LiteraturaUNCISAL2013

Neste ano, comemoramos o centenário de nascimento do escritor Jorge Amado, cuja obra engloba:

LiteraturaUEFS2012

TEXTO:

Agosto 1964

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,

mercados, butiques,

viajo

num ônibus Estada de Ferro – Leblon

5 Volto do trabalho, a noite em meio,

fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,

relógio de lilases, concretismo,

neoconcretismo, ficções de juventude, adeus,

10 que a vida

eu a compro à vista dos donos do mundo.

Ao peso dos impostos, o verso sufoca,

a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão

15 mas não ao mundo. Mas não à vida,

Meu reduto e meu reino.

Do salário injusto,

da punição injusta,

da humilhação, da tortura,

20 do terror,

retiramos algo e com ele construímos um artefato

um poema

uma bandeira.

GULLAR, Ferreira. Agosto 1964. In: MARICONI, Ítalo (Org.) Os cem melhores poemas do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 267.

Nesses versos, o eu poético