A História, mais ou menos
Negócio seguinte. Três reis magrinhos ouviram um plá de que tinha nascido um Guri. Viram o cometa no Oriente e tal e se flagraram que o Guri tinha pintado por lá. Os profetas, que não eram de dar cascata, já tinham dicado o troço: em Belém, da Judeia, vai nascer o Salvador, e tá falado. Os três magrinhos se mandaram.
Mas deram o maior fora. Em vez de irem direto para Belém, como mandava o catálogo, resolveram dar uma incerta no velho Herodes, em Jerusalém. Pra quê! Chegaram lá de boca aberta e entregaram toda a trama. Perguntaram: Onde está orei que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Quer dizer, pegou mal. Muito mal. O velho Herodes, que era um oligão, ficou grilado. Que rei era aquele? Ele é que era o dono da praça. Mas comeu em boca e disse: Joia. Onde é que esse guri vai se apresentar? Em que canal? Quem é o empresário? Tem baixo elétrico? Quero saber volta dicavam tudo para o coroa.
VERISSIMO, L. F. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.Na crônica de Verissimo, a estratégia para gerar o efeito de humor decorre do(a)
As crônicas de Rubem Braga resgatam aspectos do cotidiano que singularizam os episódios narrados.
Na crônica “O padeiro”, a singularização da personagem-título ocorre por meio da
Cadê você meu país do Nordeste
que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra?
Ah! Usina, você enguliu os banguezinhos do país das Alagoas!
(...)
Cadê a sua casa-grande, banguê, (...)
cadê seus quilombos com seus índios armados de flecha,
com seus negros mucufas que sempre acabam vendidos,
tirando esmola para enterrar o rei do Congo?
(Jorge de Lima. Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958,p. 352-353)Na construção desse texto, pode-se constatar que Jorge de Lima
Texto para aquestão
Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou os tições com a
ponta da alpercata. As brasas estalaram, a cinza caiu, um círculo de luz
espalhou-se em redor da trempe de pedras, clareando vagamente os pés
do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados. De quando em
[5] quando estes se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia
pedaços deles. Outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava
pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela. Por isso não
podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham
precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais.
[10] Não era propriamente conversa, eram frases soltas, espaçadas, com
repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava
energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção
às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao
espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de
[15] dominá-las.
Graciliano Ramos, Vida secas.
Na construção da cena apresentada no excerto, a ênfase nas alternâncias de claridade e escuridão, de quente e frio, entra em correspondência mais direta com o caráter
TEXTO:
Vozes da morte
Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!
Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!
Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,
Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos.
ANJOS, Augusto dos. Vozes da morte. Eu e outros poemas. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 62-63. (Coleção A obra-prima de cada autor).Na concepção do sujeito poético, a morte é
Canção
No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto.
Quando as ondas te carregaram
meus olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
Na composição do poema, o tom elegíaco e solene manifesta uma concepção de lirismo fundada na
Leia este trecho da letra da canção “Capitu” do compositor Luiz Tatit para responder a questão.
Capitu
De um lado
vem você
com seu jeitinho
Hábil, hábil, hábil
E pronto!
Me conquista
com seu dom
De outro
esse seu site
petulante
WWW
Ponto
Poderosa
ponto com
É esse o seu
modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar
Você é virtualmente
amada amante
Você real é ainda
mais tocante
Não há quem não se encante
Um método de agir
que é tão astuto
Com jeitinho
alcança tudo,
tudo, tudo
É só se entregar,
é não resistir,
é capitular
Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso Totem tabu
A mulher em milhares
Capitu
[...]
As grandes obras têm a qualidade de dialogar com outras criações, reaparecendo sob diversas formas em diferentes momentos. Esse é o caso do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, cuja protagonista, a personagem Capitu, imortalizou-se.Na letra da canção Capitu, o compositor constrói um universo semântico que traz para o presente alguns traços marcantes da ficção.
Na composição dessa canção, a(s) sequência(s)
Leia o trecho do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, para responder à questão.
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei- -me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei- -me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, — para dizer alguma cousa, — que era capaz de os pentear, se quisesse.
— Você?
— Eu mesmo.
— Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
— Se embaraçar, você desembaraça depois.
— Vamos ver.
Na cena retratada no texto, destaca-se uma das principais características do autor, que é sua capacidade de
Além de escrever Dom Quixote das crianças, Monteiro Lobato também leva o “cavaleiro errante” para o Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Lá na varanda Dom Quixote conversava com Dona Benta sobre as aventuras, e muito admirado ficou de saber que sua história andava a correr mundo; escrita por um tal de Cervantes. Nem quis acreditar; foi preciso que Narizinho lhe trouxesse a edição de luxo ilustrada por Gustavo Doré.
O fidalgo folheou o livro muito atento às gravuras, que achou ótimas, porém falsas
–Isso não passa duma mistificação! - protestou ele. – Esta cena aqui, por exemplo. Está errada. Eu não espetei este frade, como o desenhista pintou - espetei aquele lá.
– Isto é inevitável - disse Dona Benta. – Os historiadores costumam arranjar os fatos do modo mais cômodo para eles; por isto a História não passa de histórias.
(Adaptado de Monteiro Lobato, O Picapau Amarelo. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 18.)Na cena narrada,
Leia o conto de Mário Quintana para responder à questão.
Velha história
Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés. Como era tocante vê-los no “17”! − o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial…
Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:
“Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!…”
Dito isto, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando até que o peixinho morreu afogado…
(Eu passarinho, 2006.)Na cena do café, o modo como o texto cita as mãos do personagem indica