“No interior dos grandes períodos históricos, transforma-se com a totalidade do modo de existência das coletividades humanas também o modo de percepção. O modo como a percepção humana se organiza [...] não é apenas condicionado naturalmente, mas historicamente. A época das migrações dos povos [...] possuía não só uma outra arte que a da Antiguidade, como também outra percepção.”
BENJAMIN, Walter. A obra de arte de sua reprodutibilidade técnica. Tradução de Francisco de Ambrosis Pinheiro Machado. Porto Alegre: Zouk Editora, 2012, p. 25-27.Segundo essa tese de Walter Benjamin, é correto afirmar que
TEXTO
A Banda
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
[5] A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
[...]
O homem sério que contava dinheiro parou
[10] O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
[15] E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
[...]
O velho fraco se esqueceu do cansaço e
pensou
[20] Que ainda era moço pra sair no terraço e
dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e
[25] insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
[30] Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
[35] E em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
[...]
Se compreendermos o textocomo um paradigma da representação do mundo contemporâneo, é correto afirmar que
TEXTO
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
[5] Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
[10] Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
[15] sua raiz vai ao meu avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Quanto aos trechos destacados nos versos: “carregar bandeira” (linha 03)/ “sua raiz vai ao meu avô” (linha 16) e “Minha tristeza não tem pedigree” (linha 14), é correto afirmar que são exemplos da figura de linguagem denominada
Texto
Covid-19 é pauta de sessão na Assembleia Legislativa
[60] O tema coronavírus foi pauta no começo
desta tarde de terça-feira, 17, do Segundo
Expediente na Assembleia Legislativa do
Ceará. Na ocasião, o Secretário da Saúde do
Ceará, Carlos Roberto Martins Rodrigues
[65] Sobrinho (Dr. Cabeto), apresentou e tirou
dúvidas em relação às medidas adotadas pelo
Governo do Ceará na prevenção à doença.
Para Dr. Cabeto, todos os setores da
sociedade podem colaborar. É preciso que
[70] todos sejam proativos. “Não é momento de
apontar defeitos. Cada um precisa fazer sua
parte”, comentou.
Durante a manhã, o gestor participou de
reunião com os prefeitos dos municípios e
[75] membros do Ministério Público do Estado na
sede da Associação dos Municípios do Estado
do Ceará (Aprece).
“A informação é muito importante e
precisa ser repassada com qualidade. Temos
[80] que conduzir com serenidade”, lembrou o
Secretário.
Quanto ao gênero textual, o texto é classificado como
Texto 2
O evento
O pai lia o jornal – notícias do mundo. O telefone tocou – tirrim-. A mocinha, filha dele, dezoito vinte vinte e dois anos, sei lá, veio lá de dentro, atendeu: “Alô. Dois quatro sete um dois sete quatro. Mauro!!! Puxa, onde é que você andou? Há quanto tempo! Que coisa! Pensei que tinha morrido! Sumiu! Diz! Não!?! É mesmo? Que maravilha! Meus parabéns!!! Homem ou mulher? Ah! Que bom... Vem logo. Não vou sair não”. Desligou o telefone. O pai perguntou: “Mauro teve um filho?” A mocinha respondeu: “Não. Casou”.
MORAL: JÁ NÃO SE ENTENDEM OS DIÁLOGOS COMO ANTIGAMENTE.
(Millôr Fernandes. In: Novas fábulas fabulosas. p.68.)Pode-se incluir o texto de Millôr Fernandes no rol do gênero piada. Abaixo você encontrará quatro das várias acepções dicionarizadas do vocábulo piada. Escolha a que dá conta da estrutura do texto “O evento”.
TEXTO
Velhice
Vinícius de Moraes
[115]Virá o dia em que eu hei de ser um velho
experiente
Olhando as coisas através de uma filosofia
sensata
E lendo os clássicos com a afeição que a
[120] minha mocidade não permite.
Nesse dia Deus talvez tenha entrado
definitivamente em meu espírito
Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
Então todos os meus atos serão
[125] encaminhados no sentido do túmulo
E todas as ideias autobiográficas da
mocidade terão desaparecido:
Ficará talvez somente a ideia do testamento
bem escrito.
[130] Serei um velho, não terei mocidade, nem
sexo, nem vida
Só terei uma experiência extraordinária.
Fecharei minha alma a todos e a tudo
Passará por mim muito longe o ruído da
[135] vida e do mundo
Só o ruído do coração doente me avisará de
uns restos de vida em mim.
Nem o cigarro da mocidade restará.
Será um cigarro forte que satisfará os
[140] pulmões viciados
E que dará a tudo um ar saturado de
velhice.
Não escreverei mais a lápis
E só usarei pergaminhos compridos.
[145] Terei um casaco de alpaca que me fechará
os olhos.
Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
Cheio de irritação para com a vida
Cheio de irritação para comigo mesmo.
[150] O eterno velho que nada é, nada vale, nada
vive
O velho cujo único valor é ser o cadáver de
uma mocidade criadora.
MORAES, Vinícius. Velhice. Disponível em:http://www.viniciusdemoraes.com.br/ptbr/poesia/poesias-avulsas/velhice. Acesso: 23/9/17.Pela leitura atenta do poema Velhice, depreende-se que o autor, ao tratar do tema da velhice, constrói o seu texto com um tom
TEXTO
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
[5] Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
[10] Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
[15] sua raiz vai ao meu avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
O texto marca-se como gênero poema com versos livres (sem a necessidade de rimas ou de restrições métricas).
Para a composição desse texto, a autora selecionou predominantemente a tipologia textual
TEXTO 1
Envelhecer
Arnaldo Antunes
[1]A coisa mais moderna que existe nessa vida
é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão
caindo pra cabeça aparecer
[5] Os filhos vão crescendo e o tempo vai
dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente
aprendendo a esquecer
Não quero morrer pois quero ver
[10] Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer
Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
[15] Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
[20] No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá
[25] Pois ser eternamente adolescente nada é
mais démodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa
que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro
[30] presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o
tempo vai correr
Disponível em https://www.vagalume.com.br/arnaldoantunes/envelhecer.html. Acesso: 22/9/17.Os versos da canção “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer (linhas 01 e 02); “Eu quero pôr Rita Pavone no ringtone do meu celular” (linhas 19 e 20); “Pois ser eternamente adolescente nada é mais démodé” (linhas 25-26) têm em comum
TEXTO
Diáspora
Acalmou a tormenta
Pereceram
Os que a estes mares ontem se arriscaram
E vivem os que por um amor tremeram
[60] E dos céus os destinos esperaram
Atravessamos o mar Egeu
O barco cheio de fariseus
Como os cubanos, sírios, ciganos
Como romanos sem Coliseu
[65] Atravessamos pro outro lado
No Rio Vermelho do mar sagrado
Os Center shoppings superlotados
De retirantes refugiados
You, where are you?
[70] Where are you?
Where are you?
Onde está
Meu irmão
Sem Irmã
[75] O meu filho sem pai
Minha mãe
Sem avó
Dando a mão pra ninguém
Sem lugar
[80] Pra ficar
Os meninos sem paz
Onde estás
Meu senhor
Onde estás?
[85] Onde estás?
Deus
Ó Deus onde estás
Que não respondes
Em que mundo
[90] Em qu’estrela
Tu t’escondes
Embuçado nos céus
Há dois mil anos te mandei meu grito
Que embalde desde então corre o infinito
[95] Onde estás, Senhor Deus
[...]
ANTUNES, Arnaldo; BROWN, Carlinhos; MONTE, Marisa. Diáspora. In: Tribalistas. Rio de Janeiro: Phonomotor Records Universal Music, 2017. Disponível em: https://www.letras.mus.br/tribalistas/diaspora/. Acesso em: 08 de set. de 2019.Os versos “You, where are you?/ Where are you?” (linhas 69-71), cuja tradução literal para o português é Você, onde está você? / Onde está você?, encontram-se em língua inglesa porque
TEXTO 3
Velhice
Vinícius de Moraes
[115]Virá o dia em que eu hei de ser um velho
experiente
Olhando as coisas através de uma filosofia
sensata
E lendo os clássicos com a afeição que a
[120] minha mocidade não permite.
Nesse dia Deus talvez tenha entrado
definitivamente em meu espírito
Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
Então todos os meus atos serão
[125] encaminhados no sentido do túmulo
E todas as ideias autobiográficas da
mocidade terão desaparecido:
Ficará talvez somente a ideia do testamento
bem escrito.
[130] Serei um velho, não terei mocidade, nem
sexo, nem vida
Só terei uma experiência extraordinária.
Fecharei minha alma a todos e a tudo
Passará por mim muito longe o ruído da
[135] vida e do mundo
Só o ruído do coração doente me avisará de
uns restos de vida em mim.
Nem o cigarro da mocidade restará.
Será um cigarro forte que satisfará os
[140] pulmões viciados
E que dará a tudo um ar saturado de
velhice.
Não escreverei mais a lápis
E só usarei pergaminhos compridos.
[145] Terei um casaco de alpaca que me fechará
os olhos.
Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
Cheio de irritação para com a vida
Cheio de irritação para comigo mesmo.
[150] O eterno velho que nada é, nada vale, nada
vive
O velho cujo único valor é ser o cadáver de
uma mocidade criadora.
MORAES, Vinícius. Velhice. Disponível em:http://www.viniciusdemoraes.com.br/ptbr/poesia/poesias-avulsas/velhice. Acesso: 23/9/17.Os versos “Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente/ Olhando as coisas através de uma filosofia sensata/ E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite” (linhas 115- 120) podem ser traduzidos pelo seguinte ditado popular: