Era uma tarde triste, mas límpida e suave...
Eu — pálido poeta — seguia triste e grave
A estrada, que conduz ao campo solitário,
Como um filho, que volta ao paternal sacrário,
E ao longe abandonando o múrmur da cidade
— Som vago, que gagueja em meio à imensidade, —
No drama do crepúsculo eu escutava atento
A surdina da tarde ao sol, que morre lento.
A poeira da estrada meu passo levantava,
Porém minh’alma ardente no céu azul marchava
E os astros sacudia no voo violento
— Poeira, que dormia no chão do firmamento.
A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,
Procura os coruchéus da catedral antiga.
Eu — andorinha entregue aos vendavais do inverno,
Ia seguindo triste p’ra o velho lar paterno.
(Castro Alves, “Boa vista”. In: Espumas Flutuantes)Vocabulário
múrmur: ruído, burburinho
coruchéu: torre pontiaguda
Embora tenha se notabilizado pela poesia de caráter social, Castro Alves também se destacou por sua obra lírico-amorosa, na qual se encontram resquícios da chamada segunda geração romântica. Recorrente no contexto cultural do Romantismo, a temática que se encontra nesse soneto é
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tãoexterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geleia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada –, que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.
Clarice Lispector, A hora da estrela.Embora tanto A hora da estrela como Morte e vida severina tenham como protagonistas migrantes pobres, oriundos de zonas inóspitas, e nítido teor de crítica social, a percepção da sociedade que se configura nessa obra de Cabral de Melo não permitiria que ela assimilasse, sem quebra de coerência e inteireza, sobretudo a seguinte expressão do texto de Lispector, com o sentido que, nesse texto, ela tem:
Considere o texto abaixo para responder à questão.
TEXTO
Meu Bem-Querer
DjavanMeu bem querer
É segredo, é sagrado
Está sacramentado
Em meu coração
Meu bem querer
Tem um quê de pecado
Acariciado pela emoção
Meu bem querer
Meu encanto, estou
sofrendo tanto
Amor, e o que é o sofrer
Para mim que estou
Jurado pra morrer de amor
Embora seja uma composição contemporânea, é correto afirmar que
I
Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada,
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.
E eu olhava-a de baixo, olhava-a... Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de súplicas, feria...
Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! Íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.
E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando...
(Olavo Bilac,Via-Láctea)Embora seja identificado como o principal poeta parnasiano brasileiro, Olavo Bilac, nesse soneto, explora um aspecto do Romantismo, o qual está explicitado na seguinte alternativa:
Vocação do poeta
Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas.
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal e o bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos.
Não vim para construir a minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.
[...]
MENDES, M. Tempo e eternidade. Porto Alegre: Livrariado Globo, 1935.Embora seja considerado um escritor modernista, Murilo Mendes não se detém nos temas brasileiros, típicos do movimento de 1922. O Texto III revela um eu lírico que procura
Leia o poema “Soneto de fidelidade”, de Vinicius de Moraes
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Hei de vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.E assim, quando mais tarde me procure,
Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure
Fonte: MORAES, Vinicius de. Antologia poética. 2. ed., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960. p. 113.Embora se distinga da perspectiva romântica, o poema tematiza o arrebatamento amoroso. Sobre os versos, é correto afirmar que eles
Compare o poema Alma em flor, do parnasiano Alberto de Oliveira, à letra da canção popular Um dia de domingo, de Michael Sullivan e Paulo Massadas.
Alma em flor
Que ânsia de amar! E tudo a amar me ensina;
A fecunda lição decoro atento.
Já com liames1 de fogo ao pensamento
Incoercível2 desejo ata e domina.
Em vão procuro espairecer ao vento,
Olhando o céu, os morros, a campina.
Escalda-me a cabeça e desatina,
Bate-me o coração como em tormento.
E à noite, ai! como em mal sofreado anseio,
Por ela, a ainda velada, a misteriosa
Mulher, que nem conheço, aflito chamo!
E sorrindo-me, ardente e vaporosa,
Sinto-a vir (vem em sonho), une-me ao seio,
Junta o rosto ao meu rosto e diz-me: – Eu te amo!
Um dia de domingo
Eu preciso te falar,
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar,
Depois andar de encontro ao vento.
Eu preciso respirar
O mesmo ar que te rodeia,
E na pele quero ter
O mesmo sol que te bronzeia,
Eu preciso te tocar
E outra vez te ver sorrindo,
E voltar num sonho lindo
Já não dá mais pra viver,
Um sentimento sem sentido,
Eu preciso descobrir
A emoção de estar contigo,
Ver o sol amanhecer,
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo.
(www.radio.uol.com.br. Adaptado.)
Embora produzidas em diferentes séculos, essas obras possuem um tema em comum:
Paisagem noturna
A sombra imensa, a noite infinita enche o vale ...
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
[5] — Em noss’alma criminosa,
O pavor se insinua ...
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
[10] Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.
[15] Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa
Das serranias. [...]
Embora Manuel Bandeira seja o autor da primeira geração modernista, propondo uma poética libertadora e transgressora, muitas vezes, retoma perfis poéticos de outras tradições literárias, como ocorre em relação ao
Embora individualmente os contos do Livro dos homensrepresentem, por sentidos diversos, um espaço característico da geografia brasileira, no conjunto da obra, Ronaldo Correia de Brito caracteriza esse espaço pelo aspecto
texto para a questão
(...) Um dia, passado muito tempo, Pedro Bala ia com o Sem-Pernas pelas ruas. Entraram numa igreja da Piedade, gostavam de ver as coisas de ouro, mesmo era fácil bater uma bolsa de uma senhora que rezasse. Mas não havia nenhuma senhora na igreja àquela hora. Somente um grupo de meninos pobres e um capuchinho que lhes ensinava catecismo.
— É Pirulito... — disse Sem-Pernas.
Pedro Bala ficou olhando. Encolheu os ombros:
— Que adianta?
Sem-Pernas olhou:
— Não dá de comer...
— Um dia vai ser padre também. Tem que ser é tudo junto.
Sem-Pernas disse:
— A bondade não basta.
Completou:
— Só o ódio...
— É Pirulito... — disse Sem-Pernas. Pedro Bala ficou olhando. Encolheu os ombros: — Que adianta? Sem-Pernas olhou: — Não dá de comer... — Um dia vai ser padre também. Tem que ser é tudo junto. Sem-Pernas disse: — A bondade não basta. Completou: — Só o ódio...
— Nem o ódio, nem a bondade. Só a luta.
A voz bondosa de Pirulito atravessa a igreja. A voz de ódio do Sem-Pernas estava junto de Pedro Bala. Mas ele não ouvia nenhuma. Ouvia era a voz de João de Adão, o doqueiro, a voz de seu pai morrendo na luta.
Jorge Amado,Capitães da Areia.Embora as atitudes assumidas por Pirulito, Sem-Pernas e Pedro Bala sejam bastante diferentes entre si, todas as três são reações a um estado de coisas cuja causa principal, tal como identificada no contexto de Capitães da Areia, é a