— Não digo que seja uma mulher perdida, mas recebeu uma educação muito livre, saracoteia sozinha por toda a cidade e não tem podido, por conseguinte, escapar à implacável maledicência dos fluminenses. Demais, está habituada ao luxo, ao luxo da rua, que é o mais caro; em casa arranjam-se ela e a tia sabe Deus como. Não é mulher com quem a gente se case. Depois, lembra-te que apenas começas e não tens ainda onde cair morto. Enfim, és um homem: faze o que bem te parecer.
Essas palavras, proferidas com uma franqueza por tantos motivos autorizada, calaram no ânimo do bacharel. Intimamente ele estimava que o velho amigo de seu pai o dissuadisse de requestar a moça, não pelas consequências morais do casamento, mas pela obrigação, que este lhe impunha, de satisfazer uma dívida de vinte contos de réis, quando, apesar de todos os seus esforços, não conseguira até então pôr de parte nem o terço daquela quantia.
AZEVEDO, A. A dívida. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 20 ago. 2017.O texto, publicado no fim do século XIX, traz à tona representações sociais da sociedade brasileira da época.
Em consonância com a estética realista, traços da visão crítica do narrador manifestam-se na
O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. Não imaginava as catástrofes imprevistas da vida, que nos empurram, às vezes, para onde nunca sonhamos ter de passar. Não via que, adquirida uma pequena profissão honesta e digna de seu sexo, auxiliaria seus pais e seu marido, quando casada fosse.
BARRETO, Lima: Clara dos Anjos. Disponível: http// www.dominiopublico.gov.brEm Clara dos Anjos, a personagem protagonista – mulher pobre, mulata, moradora da periferia –, incorpora o papel que a sociedade da época, início do século XX, espera da mulher. Nesse sentido, o narrador critica o(a)
Em carta de Graciliano Ramos a José Condé, a propósito da obra Vidas Secas, o autor, a ela, assim se referia: A narrativa foi composta sem ordem. Comecei pelo nono capítulo. Depois chegaram o quarto, o terceiro, etc. Considerando a obra como um todo e a citação referida, indique a alternativa que contém enunciado que se mostra como explicitação do que é citado.
Em carta ao amigo Teófilo Braga, Eça de Queirós usa as seguintes palavras para se referir a Luísa, protagonista de seu romance O primo Basílio: “sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular que é ordinariamente a luxúria, nervosa pela falta de exercício e disciplina moral — enfim a burguesinha da baixa.” O trecho de O primo Basílio em que se explicita essa caracterização de Luísa é:
Desencaixotando Machado: a crônica está no detalhe, no mínimo, no escondido, naquilo que aos olhos comuns pode não significar nada, mas, uma palavra daqui, "uma reminiscência clássica" dali, e coloca–se de pé uma obra delicada de observação absolutamente pessoal. O borogodó está no que o cronista escolhe como tema. Nada de engomar o verbo. É um rabo de arraia na pompa literária. Um "falar à fresca", como o bruxo do Cosme Velho pedia. Muitas vezes uma crônica brilha, gloriosa, mesmo que o autor esteja declarando, como é comum, a falta de qualquer assunto. Não vale o que está escrito, mas como está escrito.
SANTOS, Joaquim Ferreira dos (org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005, p.17.Em As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, Joaquim Ferreira dos Santos argumenta contra a ideia de que a crônica é um gênero menor. De acordo com o fragmento apresentado acima, a crônica
Virgínia: Ana Maria precisa saber muitas coisas, inclusive que você é um estranho, um desconhecido, e que matou o pai dela...
Ismael: E quem dirá?
Virgínia: Eu.
RODRIGUES, Nelson. Anjo negro. Rio de Janeiro: 2012 p. 68.Em Anjo Negro, Nelson Rodrigues se aproxima
A imigração está no centro de duas obras importantes na nossa literatura: o poema dramático “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e o romance Vidas secas, de Graciliano Ramos.
Em ambos,
São estrofes de distintos poemas do livro Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade:
“Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.”
“À beira do negro poço
debruço-me, nada alcanço.
Decerto perdi os olhos
que tinha quando criança.”
Em ambas as estrofes há alguma alusão ao enigma do título da obra, representado figuradamente
A história de vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis.
TOLSTOI, Leon. A morte de Ivan Ilitch. Porto Alegre: LPM, 1999, p.20.Em A morte de Ivan Ilitch,
O excerto a seguir faz referência às tendências literárias que predominaram na segunda metade do século XIX.
"O liame que se estabelecia entre o autor romântico e o mundo estava afetado de uma série de mitos idealizantes: a natureza-mãe, a natureza-refúgio, o amor-fatalidade, a mulherdiva, o herói-prometeu, sem falar na aura que cingia alguns ídolos como a 'Nação', a 'Pátria', a 'Tradição', etc. O romântico não teme as demasias do sentimento nem os riscos da ênfase patriótica; nem falseia de propósito a realidade, como anacronicamente se poderia hoje inferir: é a sua forma mental que está saturada de projeções e identificações violentas, resultando-lhe natural a mitificação dos temas que escolhe. Ora, é esse complexo ideo-afetivo que vai cedendo a um processo de crítica na literatura dita 'realista'. Há um esforço, por parte do escritor antiromântico, de acercar-se impessoalmente dos objetos, das pessoas. E uma sede de objetividade que responde aos métodos científicos cada vez mais exatos nas últimas décadas do século."
(BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994, p. 167. Adaptado.)Em A mão e a luva, estão presentes os seguintes elementos: