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LiteraturaUSP2017

Nasceu o dia e expirou.

Já brilha na cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no azul do céu, as estrelas, filhas da lua, que esperam a volta da mãe ausente.

Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.

Iracema recostase langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro, e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro.

José de Alencar, Iracema

Atente para as seguintes afirmações, extraídas e adaptadas de um estudo do crítico Augusto Meyer sobre José de Alencar:

I. “Nesta obra, assim como nos ‘poemas americanos’ dos nossos poetas, palpita um sentimento sincero de distância poética e exotismo, de coisa notável por estranha para nós, embora a rotulemos como nativa.”

II. “Mais do que diante de um relato, estamos diante de um poema, cujo conteúdo se concentra a cada passo na magia do ritmo e na graça da imagem.”

III. “O tema do bom selvagem foi, neste caso, aproveitado para um romance histórico, que reproduz o enredo típico das narrativas de capa e espada, oriundas da novela de cavalaria.”

É compatível com o trecho de Iracema aqui reproduzido, considerado no contexto dessa obra, o que se afirma e

LiteraturaFGV-SP2014

Consideração do poema

Não rimarei a palavra sono

com a incorrespondente palavra outono.

Rimarei com a palavra carne

ou qualquer outra, que todas me convêm.

As palavras não nascem amarradas,

elas saltam, se beijam, se dissolvem,

no céu livre por vezes um desenho,

são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho

ou apenas um rastro, não importa.

Estes poetas são meus. De todo o orgulho,

de toda a precisão se incorporam

ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius

sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.

Que Neruda me dê sua gravata

chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.

São todos meus irmãos, não são jornais

nem deslizar de lancha entre camélias:

é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra

e é ainda mais do que ela. É qualquer homem

ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna

em qualquer estalagem, se ainda as há.

– Há mortos? há mercados? há doenças?

É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,

por que falsa mesquinhez me rasgaria?

Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.

O beijo ainda é um sinal, perdido embora,

da ausência de comércio,

boiando em tempos sujos.

(...)

Carlos Drummond de Andrade, A rosa do povo.

Considere as seguintes afirmações:

I A liberdade com que o poeta compõe o poema tem, como contrapartida, a seriedade com que considera sua atividade.

II O poeta se abre para o mundo exterior, mas continua a examinar a si mesmo, de modo atento e exigente.

III O foco na subjetividade do poeta desdobra-se em uma poesia de vocação coletiva, com alcance social e tendências anticapitalistas.

É compatível com o teor deste poema e do livro no qual ele se insere o que se afirma em

LiteraturaFGV-SP2018

Texto para aquestão

Legado

Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.

Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.

É compatível com o poema de Drummond o que se encontra na seguinte alternativa:

LiteraturaITA2010

O poema ao lado faz parte da obra Livro sobre nada (1996), de Manoel de Barros:

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá

mas não pode medir seus encantos.

A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem

nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

É certo dizer que estamos diante de um poema

LiteraturaFACISB2015

Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade para responder a questão.

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da

[janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens

[presentes,

a vida presente.

(Reunião, 1976.)

“Mãos dadas” foi publicado no livro Sentimento do mundo (1940).

É característica deste poema, frequente também nos demais poemas do livro:

LiteraturaUVA2015

TEXTO

[1] Antes de partir para os castanhais havia muito tempo que tal fato não se dera, a não ser em alguma tarde

chuvosa. O Valadão, o vereador João Carlos, o juiz municipal e outros que não frequentavam a loja do Costa

e Silva, inficionada de heresia maçônica pela presença do professor Chico Fidêncio, vinham todas as tardes à

porta da coletoria trazer as novidades do dia e conhecer a opinião do dono da casa, levando a dedicação ao

[5] ponto de ali ficarem palestrando quando o coletor, a pretexto da necessidade de comprar alguma coisa, fazia

uma investida ao antro do maçonismo, para mostrar àquele patife do Fidêncio que não tinha medo das suas

críticas ferinas.

Mas agora, depois da volta dos castanhais, o capitão Mendes da Fonseca, sentado na sua cadeira de

braços, fumando gravemente no seu cachimbo de taquari, notava a falta dos amigos, e não podia deixar de a

[10] relacionar com as notícias trazidas pelo Belém, e que ameaçavam claramente o seu prestígio e a sua posição

na sociedade de Silves.

(SOUSA, Inglês de. O Missionário. São Paulo: Martin Claret, 2010. p. 222).

É característica dessa Escola:

LiteraturaUVA2017

TEXTO

[1] José Roberto e Sebastião Campos serviam às senhoras, acompanhando com uma pilhéria cada prato que lhes

ofereciam. Raimundo pediu dispensa do chá, com medo do Freitas que lhe abrira um lugar ao lado do seu.

Ouviu-se mastigar as torradas e sorver, aos golinhos, o chocolate quente.

– Doutor, exclamou o cônego, procurando espetar com o garfo uma fatia de um bolo de tapioca. Prove ao

[05] menos do nosso “Bolo do Maranhão”. Também o chamam por aí “Bolo podre”. Prove, que isto não há fora de cá...

é uma especialidade da terra!

– Não é mau... disse Raimundo, fazendo-lhe a vontade. Muito saboroso, mas parece-me um tanto pesado...

– É de substância! acrescentou Maria Bárbara. Faz-se de tapioca de forno e ovos.

– D. Bibina! chamou Ana Rosa, apontando para os beijus. São fresquinhos...

[10] Amância, com a boca cheia, dizia baixo a Maria do Carmo:

– Pois, minha amiga, quando precisar de missa com cerimônia, não tem mais do que se entender com o padre

que lhe digo... É muito pontual e contenta-se com o que a gente lhe dá! Est’r’o dia apanhou-me dezoito mil- réis

por uma missinha cantada, mas também podia se ver a obra que o homem apresentou!.. Pois então! Há de dar

uma criatura seus cobrinhos, que, tanto custam a juntar, a muito padre, como há por aí, desses que, mal chegam

[15] ao altar, estão pensando no almoço e na comadre?... Deus te livre, credo! Até pesa na consciência de um cristão!

– Como o padre Murta!... lembrou a outra.

– Oh! Esse, nem se fala! Às vezes, Deus me perdoe! nos enterros, até se apresenta bêbado!

(AZEVEDO, Aluísio. O mulato. 8ª ed. São Paulo: Ática, 1988. p.60).

É característica dessa Escola:

LiteraturaFAG2020

Texto

Soneto

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se duma outra vontade,
que nunca poderá ser apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas

Luís Vaz de Camões.

O soneto trata de uma dor.

É a dor de um(a).

LiteraturaFAMECA2014

— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a murmurando:

— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

— Um bicho, Fabiano.

Duas marcas do estilo de Graciliano Ramos, que podem ser percebidas em Vidas secas, são:

LiteraturaFITS2019

O romance “Os Desvalidos”, de Francisco Dantas, como o próprio título sugere, retrata a vida agreste do sertanejo.

Dotada de uma riqueza linguística própria da cultura popular do Nordeste, Dantas vai tecendo as histórias de suas personagens por meio de