A meu pai doente
Para onde fores, pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu pai?! Que mão sombria
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
AUGUSTO, Anjos dos. Disponível em: www.avozdapoesia.com.brAugusto dos Anjos, poeta pré-modernista, tem a morte como tema recorrente em seus poemas. Em A meu pai doente, o tema da morte é tratado por meio de uma expressão metafórica,
Leia o fragmento a seguir e, em seguida, assinale a alternativa correta.
– Por que a gente come, Zé?
O agenciador riu; os peões da mesa riram.
– Bom – começou – tudo o que a gente come vira alguma coisa dentro da gente.
O menino ia abrindo a boca devagar, o queixo pendendo.
– O bife vira músculo. Deixa eu ver.
Apalpou o braço de menino.
(...) – E o arroz vira o quê?
– Arroz não é branco? Vira osso, vira dente.
(...) – E o feijão?
O feijão banhava o fundo do prato, lambuzava os pedaços de bife; num canto ia aparecendo abobrinha picada. O arroz já ia acabando, então o agenciador despejou farinha no feijão, ficou mexendo até virar um angu.
– Feijão é que nem óleo que a gente põe na máquina.
Atribui-se esse fragmento a
A incorporação das inovações formais e temáticas do modernismo ocorreu em dois níveis: um nível específico, no qual elas foram adotadas, alterando essencialmente a fisionomia da obra; e um nível genérico, no qual elas estimulavam a rejeição dos velhos padrões. Graças a isto, no decênio de 1930 o inconformismo e o anticonvencionalismo se tornaram um direito, não uma transgressão, fato notório mesmo nos que ignoravam, repeliam ou passavam longe do modernismo. Na verdade, quase todos os escritores de qualidade acabaram escrevendo como beneficiários da libertação operada pelos modernistas, que acarretava a depuração antioratória da linguagem, com a busca de uma simplificação crescente e dos torneios coloquiais que rompem o tipo anterior de artificialismo. Assim, a escrita de um Graciliano Ramos ou de um Dionélio Machado ("clássicas" de algum modo), embora não sofrendo a influência modernista, pode ser aceita como "normal” porque a sua despojada secura tinha sido também assegurada pela libertação que o modernismo efetuou. Na poesia a libertação foi mais geral e atuante, na medida em que os modos tradicionais ficaram inviáveis e praticamente todos os poetas que tinham alguma coisa a dizer entraram pelo verso livre ou a livre utilização dos metros, ajustando-os ao antissentimentalismo e à antiênfase. Os decênios de 1930 e 1940 assistiram à consolidação e difusão da poética modernista, e também à produção madura de alguns dos seus próceres, como por exemplo Manuel Bandeira e Mário de Andrade.
(Antonio Candido. A revolução de 30 e a cultura. Novos Estudos CEBRAP, v. 2, n. 4, abril de 1994. p. 29 e 30)Atente para as seguintes afirmações: I. Ao dizer que o inconformismo e o anticonvencionalismo se tornaram um direito, Antonio Candido está se referindo ao estado da cultura imediatamente anterior ao movimento de 22. II. Mesmo os escritores que não participaram do movimento de 22, ou que não eram entusiastas, beneficiaram- se em alguma medida das práticas libertárias modernistas. III. A sabedoria dos modernistas de 22 esteve em saber conciliar o encanto retórico das fórmulas poéticas tradicionais com a oralidade trazida pelo emprego do verso livre. Em relação ao texto, está correto o que se afirma SOMENTE em
Com base numa ideia central de Lucien Goldmann, o crítico e historiador Alfredo Bosi propõe, para a moderna ficção brasileira, enquadramentos como estes:
I.romances de tensão mínima: as personagens não se destacam visceralmente da estrutura social e da paisagem que as condicionam. Exemplos, as histórias populistas de Jorge Amado.
II. romances de tensão crítica: o herói opõe-se e resiste agonicamente às pressões da natureza e da exploração social. Exemplos, os romances de Graciliano Ramos.
III. romances de tensão transfigurada: o herói procura ultrapassar o conflito que o constitui existencialmente pela transmutação mítica ou metafísica da realidade: Exemplos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector.
(Apud História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970)Na literatura de Graciliano Ramos, a luta contra as pressões da natureza e da exploração social ocorre de modo exemplar em
I. Sagarana, em que a violência do meio e dos homens traz também consigo um voto de esperança na regeneração do espírito, tal como ocorre com os protagonistas.
II. Caetés, romance em que o autor, retomando a dicção do indianismo romântico, dispõe-se a narrar a saga de uma tribo oprimida.
III. Vidas secas, romance “em quadros”, como já foi classificado, no qual se relata o esforço de sobrevivência de Fabiano e de sua família.
Atende ao enunciado o que está APENAS em
Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.
Poti foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho; não sofria ele que nada mais o separasse de seu irmão branco. Deviam ter ambos um só deus, como tinham um só coração.
Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na língua dos novos irmãos.
(José de Alencar. Iracema. São Paulo: Moderna, 1993. p. 83)
Assiste-se, nesse trecho final do romance Iracema,
Machado de Assis é autor de textos consagrados na tradição literária brasileira. Entre seus romances, destacam-se: Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Memorial de Aires e Esaú e Jacó.
Sobre este último, do qual foi transcrito abaixo um fragmento, é correto afirmar:
“Tudo esperavam, menos os dois gêmeos, e nem por ser o espanto grande, foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir, assim como se entende que a mãe desse aos dois filhos aquele pão inteiro e dividido do poeta; eu acrescento que o pai fazia a mesma coisa. Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a compará-los, a medi-los, a pesá-los. Tinham o mesmo peso e cresciam por igual medida. A mudança ia-se fazendo por um só teor. O rosto comprido, cabelos castanhos, dedos finos e tais que, cruzados os da mão direita de um com os da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas pessoas. Viriam a ter gênio diferente, mas por ora eram os mesmos estranhões. Começaram a sorrir no mesmo dia. O mesmo dia os viu batizar.”
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: FDT, 2011, p. 34.
Soneto de Carnaval
[01] Distante o meu amor, se me afigura
[02] O amor como um patético tormento
[03] Pensar nele é morrer de desventura
[04] Não pensar é matar meu pensamento.
[05] Seu mais doce desejo se amargura
[06] Todo o instante perdido é um sofrimento
[07] Cada beijo lembrado uma tortura
[08] Um ciúme do próprio ciumento.
[09] E vivemos partindo, ela de mim
[10] E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
[11] Para a grande partida que há no fim
[12] De toda a vida e todo o amor humanos:
[13] Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
[14] Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
Vinícius de Moraes
Considere as seguintes afirmações sobre a obra de Vinícius de Moraes em suas diferentes fases:
I. Fez experiências formais, exercitando o redondilho e o decassílabo, o alexandrino e o verso livre.
II. Compôs uma lírica comprometida com o cotidiano, buscando grandes dramas sociais do seu tempo.
III. Abordou em poemas, crônicas, músicas e peças teatrais temáticas amorosa, infantil, religiosa, social e sensual.
Assinale:
Assinale, entre as descrições abaixo, aquela que NÃO corresponde corretamente ao personagem do livro O seminarista.
“O regionalismo de Lisbela e o Prisioneiro, fundado no aproveitamento de incidentes testemunhados por amigos, por familiares e por Osman Lins bem como apoiado na transposição de ditados, expressões populares e dísticos encontrados em para-choques de caminhões, é transfigurado sob a pena de seu autor.”
(Sandra Nitrini, S.Paulo, junho de 2003.)Assinale, abaixo, a alternativa cujo trecho citado NÃO confirma a análise de Sandra Nitrini:
Compare, agora, dois poemas escritos em séculos diferentes: o soneto da questão anterior, de Gregório de Matos (séculoXVII) e este fragmento de uma lira de Tomás Antônio Gonzaga (século XVIII):
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo claramente
Na vossa ardente vista o sol ardente,
E na rosada face a aurora fria:
Enquanto pois produz, enquanto cria
Essa esfera gentil, mina excelente
No cabelo o metal mais reluzente,
E na boca a mais fina pedraria:
Gozai, gozai da flor da formosura,
Antes que o frio da madura idade
Tronco deixe despido o que é verdura.
Que passado o zênite* da mocidade,
Sem a noite encontrar da sepultura
É cada dia ocaso da beldade.
[...]
Ornemos nossas testas com as flores,
E façamos de feno um brando leito;
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.
Com os anos, Marília, o gosto falta,
E se entorpece o corpo já cansado;
Triste, o velho cordeiro está deitado,
E o leve filho sempre alegre salta.
A mesma formosura
É dote que só goza a mocidade:
Rugam-se as faces, o cabelo alveja,
Mal chega a longa idade.
Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças,
E ao semblante a graça.
Marília de Dirceu, lira XIV, primeira parteAssinale verdadeira (V) ou falsa (F) nas afirmações. ( ) Os dois poemas versam sobre o mesmo tema, a fugacidade do tempo; decorre daí um motivo horaciano, também presente nos dois textos, o carpe diem. ( ) Trata-se de duas composições dialogadas, impregnadas de sentimento amoroso, que remetem à vida campestre. ( ) No soneto, o referente fica menos explícito do que na lira, na qual o realismo das cenas se impõe. ( ) Ambos os textos privilegiam imagens visuais e se valem do jogo cromático entre luz e sombra. ( ) Diante do inevitável, a reação de Dirceu é tranquila, pois celebra a vida; no soneto, o eu-lírico não se liberta da imagem da morte. A sequência correta é