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PortuguêsUDESC2015

TEXTO 4

[1] O nome de Emir quase nunca era mencionado nas horas das refeições ou nas

conversas animadas por baforadas de narguilé, goles de áraque e lances de gamão. Os

filhos de Emilie éramos proibidos de participar dessas reuniões que varavam a noite e

terminavam no pátio da fonte, aclarado por uma luz azulada. Era um momento em que

[5] os assuntos, já peneirados, esgotados e fartos de serem repetidos, davam lugar a

confidências e lamúrias, abafadas às vezes pela linguagem dos pássaros, e

entremeadas por exclamações e vozes que pronunciavam o nome de Deus. Era como

se a manhã – como uma intrusa que silencia as vozes calorosas da noite – dispersasse

o ambiente festivo, arrefecendo os gestos dos mais exaltados, chamando-os ao ofício

[10] que se inicia com a aurora. Mas, em algumas reuniões de sextas-feiras, o prenúncio da

manhã não os dispersava. Eu acordava com berros dilacerantes, gemidos terríveis,

ruídos de trote e uma algazarra de alimárias que assistiam à agonia dos carneiros que

possuíam nomes e eram alimentados pelas mãos de Emilie.

HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp. 50 e 51.

Assinale a alternativa correta em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 4.

PortuguêsUDESC2016

EURICÃO - Caroba! Olhe a caranguejeira!

CAROBA - Ai! Esta casa está cheia de bichos, Seu Euricão!

PINHÃO - Sabe por que é isso, Seu Euricão? São essas velharias que o senhor guarda aqui. Só essa porca já tem mais de duzentos anos.

CAROBA - Por que o senhor não joga isso fora? Outro dia eu e Dona Margarida quisemos fazer uma surpresa ao senhor. A gente ia jogar fora essa porca velha e comprar uma nova para lhe dar.

EURICÃO - (Arriando numa cadeira.) Ai, ai! Miseráveis, miseráveis, assassinas, bandidas! Logo minha porquinha que herdei de meu avô! Toque nela e quem vai embora é você, está ouvindo, assassina? Sou louco por essa porca! Ai Santo Antônio, querem me roubar, me assassinar, e ainda por cima comprar uma porca nova que deve custar uma fortuna! Ladrões, ladrões! Ai a crise, ai a carestia! Santo Antônio, Santo Antônio!

CAROBA - Está certo, Seu Euricão, está certo! Diabo duma agonia danada! Deixe a porca de lado, ninguém toca mais nela! Que é que vale uma porca? O negócio agora é evitar a facada que o tal do Eudoro vem lhe dar.

EURICÃO – A facada?

CAROBA – E então? O senhor vai ver se não é! Pinhão me contou como ele faz. Chega cheio de delicadezas. A essa hora, já se informou de sua devoção por Santo Antônio. Ele chega e faz que é devoto do mesmo santo. Elogia o senhor, elogia sua filha, pergunta como vão os negócios, todo amável, e vai amolando a faca. (À medida que fala, vai evocando a cena imaginária com gestos significativos e cortantes.)

SUASSUNA, Ariano. O santo e a porca. 30ª. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. pp. 50 e 51.

Assinale a alternativa correta em relação à obra O santo e a porca, Ariano Suassuna, e ao Texto 5.

PortuguêsUDESC2015

TEXTO 4

[1] A Ilha Grande não merecia ser um presídio. Desde as casas brancas dos

pescadores que foram ficando para trás, lá embaixo, no Abraão, até os caminhos

sinuosos que vão cortando as montanhas, tudo parece um cenário de liberdade. Olho

para baixo e lá está o azul para se mergulhar, aquela faixa molhada da praia onde

[5] costumamos caminhar para refrescar os pés, o toque da brisa. Além do mais há mato,

vegetação, verde. Tudo aqui é tão selvagem, tão natural, como é que poderiam ter

imaginado um presídio nesta Ilha? Teria sido um requinte de crueldade, deixar que os

punidos se lembrem diariamente da água, da areia, da brisa e do mato?

Quando chegamos, todos os presos que tinham vista para a entrada estavam

[10] colados nas grades das celas. Queriam ver as novas caras. A Ilha seria o presídio de

muitos anos, o lugar onde ficaríamos, talvez para sempre. Íamos olhando todo aquele

cenário curioso, mas também com uma certa calma de quem vai reencontrá-lo muitas

vezes. Passamos a guarda na entrada, penetramos no prédio branco, ganhamos

uniformes e fomos introduzidos na galeria dos presos políticos.

Gabeira, Fernando. O que é isso, companheiro? Rio de Janeiro: Codecri, 1979, p. 181.

Analise as proposições em relação à obra O que é isso, companheiro?, Fernando Gabeira, e ao Texto 4. I. Na língua portuguesa, alguns substantivos mudam de sentido quando se alteram seus gêneros, a exemplo, “a guarda” (linha 13), o guarda. O mesmo ocorre com os substantivos a cabeça, o cabeça; a moral, o moral; a estigma, o estigma. II. Da leitura do sintagma “Queriam ver as novas caras “(linha 10) infere-se que os detentos, que se encontravam na Ilha, ansiavam por ver somente os presos de pouca idade que lá chegavam. III. A obra, apesar de ter sido escrita no período pós-modernista, apresenta vocabulário rebuscado, remetendo-a aos moldes do estilo barroco. IV. Da leitura da passagem “Teria sido um requinte de crueldade, deixar que os punidos se lembrem diariamente da água, da areia, da brisa e do mato?” (linhas 7 e 8) depreende-se um tom irônico que sugere o tratamento dado ao preso político à época. V. Em “lá embaixo, no Abraão, até os caminhos” (linha 2) as vírgulas foram usadas para separar adjuntos adverbiais. Assinale a alternativa correta.

PortuguêsUDESC2015

TEXTO 2

[1] O comissário Mattos passou a maior parte do dia procurando obter informações

sobre Anastácio, o Cegueta, e sobre o presidiário Bolão. Quem acabou lhe dando a

informação fidedigna que queria foi um repórter de O Radical, que recebia dinheiro do

bicheiro Ilídio, dono dos pontos próximos da sede do jornal, no centro.

[5] “Levo um arame desse puto porque o jornal não me paga e minha mulher, você

sabe, está internada tuberculosa em Belo Horizonte.”

“Eu sei, eu sei.”

“Mattos, você não recebe o levado, eu sei, mas é uma das poucas exceções, está

todo mundo na gaveta dos bicheiros. Tem político, juiz, gente que se eu dissesse o

[10] nome você não acreditaria. Daria uma reportagem do caralho. O diabo é que ninguém

publicaria. Nem eu sou maluco de botar isso no papel.”

“Esse Cegueta trabalha para o Ilídio? Você tem certeza?”

“Sem a menor dúvida. O Bolão também.”

Antes de se despedir, Mattos ouviu pacientemente, enquanto seu estômago ardia,

[15] o repórter contar suas vicissitudes e sofrimentos.

Fonseca, Rubem. Agosto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 237.

Analise as proposições em relação à obra Agosto, Rubens Fonseca, e ao Texto 2. I. Em “O Bolão também” (linha 13) com a palavra destacada, em relação à formação de palavras, ocorre derivação imprópria, o que ocorre também com a palavra destacada em “Esse Cegueta trabalha” (linha 12). II. A narrativa fonsequiana mescla história real e ficção, pois retrata personagens participantes dos episódios políticos do período getulista (agosto 1954) como se fossem protagonistas do romance. III. O comissário Mattos tem como pista do assassinato do empresário Gomes Aguiar um anel de ouro, pelos negros, um sabonete e um lenço. IV. Da leitura da obra, infere-se que o autor procurou ressaltar, na sua narrativa, o suborno como prática cotidiana tanto do povo quanto no meio político (poder), a corrupção e o protecionismo, enfim o momento caótico vivenciado do país. V. A leitura da obra leva o leitor a inferir que úlcera, dores de estômago, azia do comissário Mattos eram a somatização da repulsa que ele sentia pela podridão do sistema que o circundava. Assinale a alternativa correta.

PortuguêsUDESC2015

A grande final da última Copa do Mundo de Futebol, protagonizada pelas seleções da Alemanha e da Argentina, foi realizada no dia 13 de julho de 2014, no Estádio Maracanã e contou com um público total de 74.738 pessoas de diferentes países. Estimativas oficiais sobre a distribuição das nacionalidades deste público indicam que 18,9% dos presentes eram alemães; 20,7% eram argentinos e os demais eram de outras nacionalidades (dentre elas a brasileira). Suponha que todos os conterrâneos dos países finalistas realmente torceram pela seleção de seu país. Suponha também que exatamente 25% do público das outras nacionalidades optou por apenas assistir ao jogo (sem torcer por nenhuma seleção finalista) e que 3/5 do restante deste público optou por torcer pela Alemanha. De acordo com as informações acima, analise as proposições. I. 41,7% do público presente na final da Copa torceu pela seleção da Alemanha. II. 38,82% do público presente na final da Copa torceu pela seleção da Argentina. III. De ntre os presentes na final da Copa, o número de torcedores da seleção alemã é superior em 7,26% ao número de torcedores da seleção da Argentina. Assinale a alternativa correta.

PortuguêsURCA2020

Texto

Da Paz

Eu não sou da paz.

Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico.

Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.

Uma desgraça.

Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha.

Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão.

Viu aquele ator?

Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.

Não vou.

A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito.

Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.

A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá.

Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora.

Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue. (...) (Marcelino Freire)

Uma leitura geral do texto nos permite inferir, EXCETO:

PortuguêsURCA2018

TEXTO


Saudosa Maloca

Se o senhor não tá lembrado
Dá licença de contar
Ali onde agora está
Este adifício arto
Era uma casa véia, um palacete assobradado

Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca

Construimos nossa maloca
Mas um dia
Nóis nem pode se alembrá

Veio os home com as ferramenta
E o dono mandô derrubá

Peguemos todas nossas coisas
E fumos pro meio da rua apreciá a demolição
Que tristeza que nóis sentia

Cada táuba que caía
Doía no coração

Matogrosso quis gritar
Mas em cima eu falei
Os home tá cá razão
Nóis arranja outro lugar

Só se conformemo
Quando o Joca falou
Deus dá o frio conforme o cobertô

E hoje nós pega a paia
Nas grama do jardim
E pra esquecer nóis cantemos assim

Saudosa maloca, maloca querida

Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossa
vida

Saudosa maloca, maloca querida
Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossa
vida
Adoniran Barbosa(Série Bis, 2005)

Um aspecto da composição estrutural que caracteriza o texto acima, como modalidade falada da língua é:

PortuguêsURCA2016

Em seu livro E era só... 50 anos de Jornalismo, o Jornalista e radialista Antônio Vicelmo, no Capítulo 71 faz um relato sobre a Seca de 1958. Ele diz:

“Geralmente o problema da seca costuma ser exagerado, de tal maneira que a maioria das pessoas pensa que ela é a maior causa da pobreza no Nordeste. Na verdade o problema principal do Nordeste é de ordem social e tem origem não na escassez ou falta de chuvas, mas na desigual distribuição de terra e renda. Ao transformar a seca na grande culpada pelos males nordestinos, estáse criando o chamado mito da seca.”

Sobre os assuntos abordados pelo Jornalista Antônio Vicelmo, é CORRETO afirmar que:

PortuguêsURCA2018

Leia o texto e responda o que se pede:

Romance VII ou do negro das Catas

Já se ouve cantar o negro,
mas inda vem longe o dia.
Será pela estrela d'alva,
com seus raios de alegria?
Será por algum diamante
a arder, na aurora tão fria?

Já se ouve cantar o negro,
pela agreste imensidão.
Seus donos estão dormindo:
quem sabe o que sonharão!
Mas os feitores espiam,
de olhos pregados no chão.

Já se ouve cantar o negro.
Que saudade, pela serra!
Os corpos, naquelas águas,
- as almas, por longe terra.

Em cada vida de escravo,
que surda, perdida guerra!

Já se ouve cantar o negro.
Por onde se encontrarão
essas estrelas sem jaça
que livram da escravidão,
pedras que, melhor que os homens,
trazem luz no coração?

Já se ouve cantar o negro.
Chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada...
(A terra toda mexida,
a água toda revirada...

Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)

Sobre o poema é correto afirmar:

PortuguêsURCA2019

TEXTO para aquestão

Na minha Terra

Na minha terra ninguém morre de amor
De fome, de esperança, sim senhor
Desculpe essas palavras assim mais duras.
Mas cadê a compostura de quem tinha exemplo
a dar
É nepotismo, prepotência, disparate
Paraíso dos contrastes
De injustiça pra danar
Se tem um cara que deseja uma terrinha
De cuidar dela, de dar gosto a gente oiá
Logo se escuta a voz do dono da terrinha
Não é lugar de vagabundo vir plantar
Na minha terra ninguém morre de amor
De fome, de esperança, sim senhor
Desculpe essa verdade nua e crua
Mas é tanta falcatrua que o País se acostumou
Agora é ágio, é pedágio, é propina
Já faz parte da rotina
É a lei com seu rigor
É uma força bem mais forte que se pensa
É uma teia onde aranha nunca está
Que suborna, que alicia, que compensa
Mas só pra aqueles que deixaram de sonhar....

(Ivan Lins e Victor Martins)

Sobre as ideias contidas no texto, é correto afirmar: