– É incrível – prossegue Cícero Branco, enquanto Barcelona lhe puxa repetidamente pela manga do casaco, como se lhe quisesse dizer algo – que só agora que estou morto e decomposto é que ouso dizer-vos estas coisas. Será que a verdade fede e é só da mentira que se evolam os doces perfumes da vida? Será que o famoso poço da lenda em cujo fundo se esconde a verdade, é feito de lodo e podridão?
O Prof. Libindo Olivares cobra coragem, afasta por um momento do nariz e da boca o lenço com que se defende dos miasmas dos mortos, e pergunta:
– Mas que é a Verdade?
Cícero Branco fita no professor suas pupilas mortas e responde, sorrindo:
– Não me venhas com essa paródia de Jesus diante de Pilatos, meu inefável paranoico! Estou falando na verdade com v minúsculo. E você sabe o que é a verdade? Não sabe porque vive numa mentira crônica. Falsa é a sua moral. Falsa a sua cultura. Falsa a sua proclamada amizade e correspondência com celebridades mundiais como Sartre, Mauriac, o Papa... sei lá mais quem! Seu latim é de ginasiano. Seu grego, mitológico. Sua cultura, um produto de leituras das Seleções do Reader’s Digest.
ERICO VERISSIMO – Incidente em Antares
Assinale a afirmação incorreta em relação ao texto ao lado e ao romance do qual foi extraído.
Assinale a afirmação INCORRETA acerca do movimento literário parnasiano.
QUESTÃO DE PONTUAÇÃO
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca)
viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia)
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política)
O homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.
(João Cabral de Melo Neto)Assinale a afirmação inaceitável sobre o poema:
Epigrama 2
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo persiste.
(Cecília Meireles)Assinale a afirmação errônea sobre o poema:
Levo ou não levo, é isso. Talvez seja melhor sofrer a sorte da gente de qualquer jeito, porque deve estar escrito. Ou é melhor brigar com tudo e acabar com tudo. Morrer é como que dormir e dormindo é quando a gente termina as consumições, por isso é que a gente sempre quer dormir. Só que dormir pode dar sonhos e aí fica tudo no mesmo. Por isso é que é melhor morrer, porque não tem sonhos, quando a gente solta a alma e tudo finda. Porque a vida é comprida demais e tem desastres. Quem aguenta a velhice que vai chegando, os espotismos e as ordens falsas, a dor de corno, as demoras em tudo, as coisas que não se entende e a ingratidão, quando a gente não merece, se a gente mesmo pode se despachar, até com uma faca? Quem é que aguenta esse peso, nessa vida que só dá suor e briga? Quem aguenta é quem tem medo da morte, porque de lá nenhum viajante voltou e isso é que enfraquece a vontade de morrer. E aí a gente vai suportando as coisas ruins, só para não experimentar outras, que a gente não conhece ainda. E é pensando que a gente fica frouxo e a vontade de brigar se amarela quando se assunta nisso, e o que a gente resolveu fazer, quando a gente se lembra disso e se desvia e acaba não se fazendo nada.
(João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio, RJ, Nova Fronteira)Assinale a afirmação CORRETA:
CAPÍTULO CCI
Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que um antes que outro – questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dois recentes mortos [Rubião e o cão], se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.
MACHADO DE ASSIS – Quincas Borba
Assinale a afirmação correta sobre o texto acima.
Leia o texto abaixo, início de um poema modernista português intitulado “Ode triunfal”:
À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas
Em febre e olhando os motores como a uma natureza tropical –
Assinado por Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, e publicado em 1915, no primeiro número da revista portuguesa “Orpheu”, órgão de divulgação do Modernismo em Portugal, pode-se dizer a respeito do poema o seguinte:
TEXTO:
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
[...]
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.
GULLAR, Ferreira.No mundo há muitas armadilhas. Dentro da noite veloz. São Paulo: Circulo do Livro, s.d. p. 46-47.Ferreira Gullar faz parte da tendência literária — na poesiacontemporânea — em que se explora uma temática centrada na denúncia dos problemas do mundo.O texto comprova isso.
Assim, está em desacordo com as ideias dos versos o que se afirma na alternativa
Sou poeta e continuo trabalhando o domínio da poesia, mesmo que escreva em prosa. E quem me marcou mais foram os poetas brasileiros – os que chegaram a mim na altura em que eu começava a escrever. Principalmente o Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa. É um grande livro de cabeceira. Uma espécie de reencontro àquela linguagem que, nele, era um território. Era como a savana do meu país. Esse ‘sertão’ era qualquer coisa em que eu me reconhecia, me revia.
(“Mia Couto: ‘Sertão’, de Guimarães, é a savana africana”. http://veja.abril.com.br. Adaptado.)No excerto, o escritor moçambicano Mia Couto identifica uma similaridade entre elementos e paisagens da obra de Guimarães Rosa com os da savana africana, presentes em seu país de origem.
Assim, conclui-se corretamente que o livro Grande Sertão: Veredas retrata características do bioma brasileiro denominado
O poema a seguir é referência para a próxima questão.
Quiseste expor teu coração a nu.
E assim, ouvir-lhe todo o amor alheio.
Ah, pobre amigo, nunca saibas tu
Como é ridículo o amor... alheio!
Nessas palavras, Quintana refere-se a um coração e dirige-se diretamente ao seu interlocutor. Veja as possíveis relações de referência a seguir.
1. quiseste = interlocutor
2. lhe = coração
3. pobre amigo = interlocutor
Assim, analisando forma e conteúdo do texto, é CORRETO afirmar que