Capítulo um
Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa.
São Bernardo, Graciliano Ramos.Ao declarar que imaginara construir o livro “pela divisão do trabalho”, explicando a seguir o que entende por esse método, Paulo Honório revela que
TEXTO:
— Mas que Humanitas é esse? — Humanitas é o
princípio. Há nas coisas todas certa substância recôndita
e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum,
indivisível e indestrutível, — ou, para usar a linguagem
[5] do grande Camões: “Uma verdade que nas coisas anda,
que mora no visíbil e invisíbil”. Pois essa substância ou
verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas.
Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo
é o homem. Vais entendendo? — Pouco; mas, ainda
[10] assim, como é que a morte de sua avó... — Não há
morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão
de duas formas, pode determinar a supressão de uma
delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque
a supressão de uma é a condição da sobrevivência da
[15] outra, e a destruição não atinge o princípio universal e
comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra.
Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas.
As batatas apenas chegam para alimentar uma das
tribos, que assim adquire forças para transpor a
[20] montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em
abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz
as batatas do campo, não chegam a nutrir-se
suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse
caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma
[25] das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí
a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas
públicas e todos demais efeitos das ações bélicas. Se
a guerra não fosse isso, tais demonstrações não
chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem
[30] só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso,
e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza
uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio
ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
O texto retrata a conversa que Quincas Borba, personagem que dá nome ao livro e criador do humanitismo, tem com Rubião, seu criado.
Ao criar o neologismo Humanitas, o propósito de Quincas é
Agachado atrás dum muro, José Lírio preparava-se para a última corrida. Quantos passos dali até à igreja? Talvez uns dez ou doze, bem puxados. Recebera ordens para revezar o companheiro que estava de vigia no alto duma das torres da Matriz. "Tenente Liroca − dissera-lhe o coronel, havia poucos minutos − suba pro alto do campanário e fique de olho firme no quintal do Sobrado. Se alguém aparecer pra tirar água do poço, faça fogo sem piedade."
[...]
Os segundos passavam. Era preciso cumprir a ordem. Liroca não queria que ninguém percebesse que ele hesitava, que era um covarde. Sim, covarde. Podia enganar os outros, mas não conseguia iludir-se a si mesmo. Estava metido naquela revolução porque era federalista e tinha vergonha na cara. Mas não se habituava nunca ao perigo. Sentira medo desde o primeiro dia, desde a primeira hora − um medo que lhe vinha de baixo, das tripas, e lhe subia pelo estômago até a goela, como uma geada, amolecendo-lhe as pernas, os braços, a vontade. Medo é doença; medo é febre.
(VERÍSSIMO, Érico. O tempo e o vento. In: O Continente, parte 1. São Paulo: Círculo do livro, 1997. p. 9)
Ao contar a história para o leitor, o narrador, nesse trecho,
Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazerclérigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Conceição, a quem D. Maria queria fazer rábula arranjando-o em algum cartório, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente às inclinações que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas, escolheu a pior possível: nem foi para Coimbra, nem para a Conceição, nem para cartório algum; não fez nenhuma destas coisas, nem também outra qualquer: constituiu-se um completo vadio, vadiomestre, vadio-tipo.
Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.Ao constituir-se “vadio”, Leonardo (filho)
CAPÍTULO LXXI / O SENÃO DO LIVRO
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
(Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis)Ao comparar seu estilo aos ébrios, o narrador-personagem faz alusão metafórica:
O nada que é
Um canavial tem a extensão
ante a qual todo metro é vão.
Tem o escancarado do mar
que existe para desafiar
que números e seus afins
possam prendê-lo nos seus sins.
Ante um canavial a medida
métrica é de todo esquecida,
porque embora todo povoado
povoa-o o pleno anonimato
que dá esse efeito singular:
de um nada prenhe como o mar.
(João Cabral de Melo Neto. Museu de tudo e depois, 1988.)Ao comparar o canavial ao mar, a imagem construída pelo eu lírico formaliza-se em
Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora,
todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à
moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra
cortar a friagem”.
[5] Uma transformação, lenta e profunda, operava-se
nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e
alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo
de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-
se contemplativo e amoroso. A vida americana e a
[10] natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos
imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se
dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar
felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se
liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que
[15] de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos
prazeres, e volvia-se preguiçoso, resignando-se,
vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de
fogo com que o espírito eternamente revoltado do último
tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores
[20] aventureiros.
E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos
os seus hábitos singelos de aldeão português: e
Jerônimo abrasileirou-se. (...)
E o curioso é que, quanto mais ia ele caindo nos
[25] usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus
sentidos se apuravam, posto que em detrimento das
suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos
grosseiro para a música, compreendia até as intenções
poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus
[30] amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a
esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de
um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de
céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz,
selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente
[35] defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e
das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço,
surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e
ricas pedrarias refulgentes e as nuvens toucam de alvos
turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos
[40] príncipes voluptuosos.
Aluísio Azevedo, O cortiço.Ao comparar Jerônimo com uma crisálida, o narrador alude, em linguagem literária, a fenômenos do desenvolvimento da borboleta, por meio das seguintes expressões do texto: I. “transformação, lenta e profunda” (L. 5); II. “reviscerando” (L. 6); III. “alando” (L. 7); IV. “trabalho misterioso e surdo” (L. 7). Tais fenômenos estão corretamente indicados em
A respeito de participação sua junto a um grupo de estudosformado em Osasco, constituído de jovens do subúrbio, no período da ditadura do governo Médici, relata o professor Alfredo Bosi:
Apresentei-me um tanto encabulado. (...) Por onde começar? Combinei que leríamos juntos Vidas secas de Graciliano Ramos. Foi uma revelação. A história de Fabiano, Sinha Vitória, os dois meninos e Baleia era a história de seus pais e avós. Os excluídos tinham mudado de chão e cumprido o destino que o fecho da novela lhes anunciara: chegaram a uma cidade do Sul. Aqueles jovens apartados do mundo da cultura letrada afinal reconheciam-se nas personagens que estavam servindo de tema para essa mesma cultura nas faculdades de Letras!
(Alfredo Bosi. Literatura e resistência. S. Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 263)Ao comentar o encontro com jovens do subúrbio, Alfredo Bosi animou-se com a possibilidade de
Leia a descrição a seguir da heroína Iracema, protagonista do romance homônimo de José de Alencar.
A virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que o talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque com seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação Tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Ao caracterizar Iracema, está incorreto afirmar que o escritor:
A incorporação das inovações formais e temáticas do modernismo ocorreu em dois níveis: um nível específico, no qual elas foram adotadas, alterando essencialmente a fisionomia da obra; e um nível genérico, no qual elas estimulavam a rejeição dos velhos padrões. Graças a isto, no decênio de 1930 o inconformismo e o anticonvencionalismo se tornaram um direito, não uma transgressão, fato notório mesmo nos que ignoravam, repeliam ou passavam longe do modernismo. Na verdade, quase todos os escritores de qualidade acabaram escrevendo como beneficiários da libertação operada pelos modernistas, que acarretava a depuração antioratória da linguagem, com a busca de uma simplificação crescente e dos torneios coloquiais que rompem o tipo anterior de artificialismo. Assim, a escrita de um Graciliano Ramos ou de um Dionélio Machado ("clássicas" de algum modo), embora não sofrendo a influência modernista, pode ser aceita como "normal” porque a sua despojada secura tinha sido também assegurada pela libertação que o modernismo efetuou. Na poesia a libertação foi mais geral e atuante, na medida em que os modos tradicionais ficaram inviáveis e praticamente todos os poetas que tinham alguma coisa a dizer entraram pelo verso livre ou a livre utilização dos metros, ajustando-os ao antissentimentalismo e à antiênfase. Os decênios de 1930 e 1940 assistiram à consolidação e difusão da poética modernista, e também à produção madura de alguns dos seus próceres, como por exemplo Manuel Bandeira e Mário de Andrade.
(Antonio Candido. A revolução de 30 e a cultura. Novos Estudos CEBRAP, v. 2, n. 4, abril de 1994. p. 29 e 30)Ao caracterizar a geração de 30 e a literatura que ela produziu, o crítico Antonio Candido destaca