A literatura brasileira contemporânea tem enfocado as mais diversas e inquietantes temáticas sociais: famílias patriarcais em desagregação, quebra de tradições morais e religiosas, submersão das personagens em vidas sem horizontes, o abandono do campo e refúgio na cidade, o vazio da existência, entre tantas outras. Assinale a alternativa que apresenta autor e obra que não se enquadram nessa afirmação.
A literatura brasileira contemporânea apresenta uma significativa participação feminina, com um criativo e atuante grupo de autoras. Assinale a alternativa que contempla duas autoras desse grupo.
A literatura brasileira apresenta subdivisões, chamadas escolas literárias ou estilos de época. A escola literária que começa com a Semana de Arte Moderna de 1922 e tem como principais características o nacionalismo, temas do cotidiano (urbanos), linguagem com humor, liberdade no uso de palavras e textos diretos é
Estrada
Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um
bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz
dos símbolos,
Que a vida passa!
que a vida passa! E que a mocidade vai acabar.
BANDEIRA, M. O ritmo dissoluto. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.A lírica de Manuel Bandeira é pautada na apreensãode significados profundos a partir de elementos do cotidiano. No poema Estrada, o lirismo presente no contraste entre campo e cidade aponta para
Leia com atenção este poema para responder à questão
Linguage dos Óio
Patativa do Assaré
Quem repara o corpo humano
e com coidado nalisa
vê que o Autô Soberano
lhe deu tudo o que precisa
os orgo que a gente tem
tudo serve munto bem
mas ninguém pode negá
que o Autô da Criação
fez com maió prefeição
os orgo visioná.
(...) Os óio consigo tem
incomparave segredo
tem o oiá querendo bem
e o oiá sentindo medo
a pessoa apaixonada
não precisa dizê nada
não precisa utilizá
a língua que tem na boca
o oiá de uma caboca
diz quando qué namorá.
(...) Mesmo sem nada falá
mesmo assim calado e mudo
os orgo visioná
sabe dá siná de tudo
quando fica namorado
pela moça desprezado
não precisa conversá
logo ele tá entendendo
os óio dela dizendo
viva lá que eu vivo cá.
(...) Nem mesmo os grande oculista
os dotô que munto estuda
os mais maió cientista
conhece a linguage muda
dos orgo visioná
e os mais ruim de decifrá
de todos que eu tô falando
é quando o oiá é zanôio
ninguém sabe cada ôio
pra onde tá reparando.
Fonte: ASSARÉ, Patativa. Digo e não peço segredo. São Paulo: Ed. Escrituras, 2001. p. 93-94.
A linguagem utilizada pelo poeta Patativa do Assaré na construção desse poema pode ser comparada à linguagem utilizada no romance Dona Guidinha do Poço de Manuel de Oliveira Paiva por
Famigerado
Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:
— Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988A linguagem peculiar é um dos aspectos que conferem a Guimarães Rosa um lugar de destaque na literatura brasileira. No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque
Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
A linguagem do poema caracteriza-se
Dois parlamentos
Nestes cemitérios gerais
não há morte pessoal.
Nenhum morto se viu
com modelo seu, especial.
Vão todos com a morte padrão,
em série fabricada.
Morte que não se escolhe
e aqui é fornecida de graca.
Que acaba sempre por se impor
sobre a que já medrasse.
Vence a que, mais pessoal,
alguém já trouxesse na carne.
Mas afinal tem suas vantagens
esta morte em série.
Faz defuntos funcionais,
próprios a uma terra sem vermes.
A lida do sertanejo com suas adversidades constitui um viés temático muito presente em João Cabral de Melo Neto. No fragmento em destaque, essa abordagem ressalta o(a)
Leia atentamente os excertos de poemas abaixo e responda aquestão:
Poema de Sete Faces
de Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
(...)
Até o Fim
de Chico Buarque de Hollanda
Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
(...)
Com licença poética
de Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que
tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
(...)
Let's Play That
de Torquato Neto
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
(...)
A licença poética a que se refere o título do poema de Adélia Prado pode ser interpretada como:
Leia a letra da canção Valsa das três da manhã, de Paulo Vanzolini.
Eu não bebo para esquecer,
Bebo para lembrar.
Bebo e cambaleio e tenho você ao meu lado
É o meu instante de felicidade.
Vou andando na neblina das ruas
Conversando com você
Cantigas da perdida felicidade.
Seu perfume se mistura
Ao cheiro bom da madrugada.
Sua mão nem pesa no meu braço
Mas seu contato é doce, doce.
E o rumor do seu passo
É música, música pura.
Só não vejo você.
Mas não faz mal.
Com você ao meu lado
Isso me basta.
E lá vou eu andando na neblina, feliz
Até cair.
(http://letras.mus.br Adaptado.)A letra dessa canção traz marcas da estética romântica, como se pode constatar