AprendiAprendi
LiteraturaPUC-Campinas2011

No século XVII, graças à exploração da cana-de-açúcar, a América Portuguesa já ostenta uma opulência que as colônias inglesas levarão algum tempo a alcançar. Esse século conhecerá, entre nós, o estilo barroco de Vieira e de Gregório de Matos. Apenas muito mais tarde, entre 1760 e a época da Regência (1831-40), a literatura brasileira, evadindo-se da esfera barroca, obedece ao estilo neoclássico. (...) O século XVIII se dividirá entre o orgulho do progresso, o apreço pela razão civilizatória (Ilustração) e a utopia do retorno à natureza. Um naturismo iluminista concorrerá para disseminar a versão setecentista da pastoral: o simbolismo arcádico.

(José Guilherme Merquior. De Anchieta a Euclides − Breve história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977, p. 17, 24-25)

A expressão retorno à natureza, no contexto do século XVIII e associada a orgulho do progresso e apreço pela razão civilizatória, deve ser compreendida como

LiteraturaPUC-Rio2021

TEXTO

A canção do africano
(fragmento)

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão…

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar…
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

“Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

“O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

“Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar…

“Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro.”

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/ download/texto/jp000009.pdf. Acesso em: 20 ago. 2020.

A expressão que exprime o efeito do canto do africano é

LiteraturaUECE2012

TEXTO 1

SEQUÊNCIAS

[1] Eu era pequena. A cozinheira Lizarda

tinha nos levado ao mercado, minha

[irmã, eu.

Passava um homem com um abacate

[5] [na mão e eu inconsciente:

“Ome, me dá esse abacate...”

O homem me entregou a fruta

[madura.

Minha irmã, de pronto: “vou contar pra mãe

[10] [que ocê pediu abacate na rua”.

Eu voltava trocando as pernas bambas.

Meus medos crescidos, enormes...

A denúncia confirmada, o auto, a

[comprovação do delito.

[15] O impulso materno... consequência obscura

[da escravidão passada,

o ranço dos castigos corporais.

Eu, aos gritos, esperneando.

O abacate esmagado, pisado, me sujando

[20] [toda.

Durante muitos anos minha repugnância por

[esta fruta

trazendo a recordação permanente do castigo.

Sentia, sem definir, a recreação dos que

[25] [ficaram de fora,

assistentes, acusadores.

Nada mais aprazível no tempo, do que

[presenciar a criança indefesa

espernear numa coça de chineladas.

[30] “É pra seu bem”, diziam, “doutra vez não pedi

[fruita na rua”.

(Cora Coralina. Melhores poemas. p. 158.)

A expressão no tempo (verso 18, linhas 27- 28) refere-se ao

LiteraturaFCMMG2017

Para responder à questão, leia o poema “Ilusões da vida”, de Francisco Otaviano.

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.

(http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/francisco_otaviano.html. Acesso em 07/07/2016.)

A expressão “branca nuvem”, no poema, pode ser interpretada como:

LiteraturaUEMA2018

Texto

Bucólica nostálgica

Ao entardecer no mato, a casa entre

bananeiras, pés-de-manjericão e cravo-santo,

aparece dourada. Dentro dela, agachados,

na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,

rápidos como se fossem ao Êxodo, comem

feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,

muitas vezes abóbora.

Depois, café na canequinha e pito.

O que um homem precisa pra falar,

entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

PRADO, A. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.

A expressão “aí mesmo”, no texto, denota, ao mesmo tempo localização e inclusão, e gera a possibilidade de

LiteraturaIFPE2019

Leia o TEXTOpara responder à questão.

TEXTO

Esta prova de História é uma homenagem ao Museu Nacional, instituição bicentenária que, em setembro de 2018, teve 90% do seu acervo em exposição destruído por um incêndio de grandes proporções. Localizado no Rio de Janeiro, é o museu mais antigo do Brasil e possuía o maior conjunto de história natural da América Latina. O Museu Nacional, enquanto espaço de preservação da memória, salvaguardava vestígios materiais do passado, muitas vezes, exemplares únicos de culturas que já não existem no presente. Enquanto espaço de pesquisa, fornecia fontes de estudo para diversas áreas do conhecimento como paleontologia, antropologia, geologia, zoologia e arqueologia. Fruto do desprezo dos poderes públicos, este incêndio não foi um caso isolado no país; de 2005 até o presente, outras seis instituições museológicas, entre elas o Museu da Língua Portuguesa e o Memorial da América Latina, sofreram desastres semelhantes. Para que as lembranças da tragédia não sejam apenas as imagens do fogo, mas também de toda mobilização, conscientização e corrente coletiva deflagradas pelas chamas, nesta prova de História, iremos resgatar a memória do Museu Nacional, contar sua história e viajar pelas peças que algum dia foram expostas em seus pavimentos. Desse modo, pretendemos que ele permaneça vivo em nossas mentes e, por que não dizer, em nossos corações.

A Exposição Kumbukumbu do Museu Nacional reunia coleções provenientes de diversos locais africanos. Ocupando espaço de destaque, estava o Trono de Daomé, que foi um presente dado a D. João VI e, posteriormente, incorporado ao acervo da instituição. A história do continente africano comumente foi estudada sob visões estereotipadas e preconceituosas. Recorrentemente, as civilizações da África foram chamadas de “tribos” e, suas línguas, de “dialeto”. Tal situação pode ser explicada, CORRETAMENTE, pela

LiteraturaFASA2017

“Em 1917, uma exposição de pintura na cidade de São Paulo chamou a atenção da opinião pública. A Exposição de Pintura Moderna trazia 53 quadros de Anita Malfatti (1889-1964), uma jovem artista brasileira de 28 anos até então pouco conhecida. [...]
A exposição de Anita foi recebida com assombro e curiosidade. Os quadros quebravam as regras e desafiavam o padrão vigente [...].

No artigo “Paranoia ou Mistificação?”, Lobato compara Malfatti a artistas que “veem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculo da cultura excessiva. São produtos de cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento”.
Disponível em: <https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/anita-malfatti-100-anos-da-arte-moderna-no-brasil.htm>. Acesso em: 9 abr. 2017

A exposição de Anita Malfatti e a crítica de Monteiro Lobato retratam bem o mundo há 100 anos, que se mostrava

LiteraturaUFG2011

Leia o fragmento apresentado a seguir.

Aquele foi provavelmente o melhor fim de semana que passaram em Minas do Camaquã, uma vila fantasmagórica perto da qual se ergue um conjunto de formações rochosas […]. Situada no sudoeste do Rio Grande do Sul, a vila se desenvolveu a partir do início do século XX, com a descoberta de jazidas de cobre, ouro e prata. […] suas casas e ruas abandonadas, cercadas de uma geografia mutilada pela extração de minérios, dão um adorável ar de fim de mundo a um recanto já naturalmente isolado.

GALERA, Daniel. Mãos de Cavalo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 23-24.

A exploração de minérios no Brasil é tematizada em Mãosde Cavalo por meio das Minas do Camaquã (RS). Considerando a realidade representada no romance, as atividades mineradoras brasileiras e as transformações espaciais decorrentes destas, verifica-se que

LiteraturaFCMMG2019

Aquestão refere-se à obra Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos, indicada para este processo seletivo.

Os trechos abaixo foram extraídos do poema “Os doentes”, em que Augusto dos Anjos aborda moléstias físicas e sociais.

A explicitação de um componente histórico relacionado às moléstias está CORRETAMENTE identificada em

LiteraturaUPF2019

Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. Mas por que estou me sentindo culpado? E procurando aliviar-me do peso de nada ter feito de concreto em benefício da moça. [...]

[...] Vou agora começar pelo meio dizendo que –

– que ela era incompetente, incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim. (Vai ser difícil escrever esta história. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É um sussurro que me impressiona).

(LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela.)

Considerando o fragmento transcrito de A hora da estrela e o romance como um todo, assinale a alternativa cujas informações preenchem corretamente as lacunas do enunciado a seguir.

A experiência de impessoalidade e ________________ que caracterizam Macabea evidenciam _________________ existentes entre a protagonista e aquele que conduz o relato, ao mesmo tempo em que sensibilizam este último e o levam a tentar transpor __________________ da moça, exprimindo a situação enfrentada por ela. Essa tentativa deverá _________________ da personagem, à medida que inscrever, na história dela, os espantos que experimenta na condição de narrador e que, inevitavelmente, atravessarão a sua escrita.