AprendiAprendi
LiteraturaUNIFESP2012

O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altosdestinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educálo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exército, e, depois de obtida a sua baixa, contínuo de secretaria.

Releva dizer que o Romualdo só deixou crescer as barbas depois de contínuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capitão pelo menos.

Mas que contínuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suíças brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um júri sensacional, e essa ilusão só se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prosápia do “povo da lira”. Calado era um juiz; falando, um capadócio.

(Arthur Azevedo. As Barbas do Romualdo, em: www.releituras.com.br/aazevedo_barbas.asp)

A construção de sentido no texto assenta-se, sobretudo, na evidente contradição do personagem Romualdo, que

LiteraturaFGV-SP2019

Texto para aquestão

Um boi vê os homens

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
(...)

Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.

A conjunção entre poesia e prosa, que se verifica na construção do poema, pode ser comprovada no fragmento aqui transcrito, sobretudo, pelo(a)

LiteraturaUNIFESP2016

A conhecida pintura de Pedro Américo (1840-1905) remete a um fato histórico relacionado à seguinte escola literária brasileira:

LiteraturaFGV-RJ2016

[4]

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

que viva de guardar alheio gado,

de tosco trato, de expressões grosseiro,

dos frios gelos e dos sóis queimado.

Tenho próprio casalENF e nele assistoEOF;

dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

das brancas ovelhinhas tiro o leite,

e mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

graças à minha estrela!

(...)

[5]

Tu não verás, Marília, cem cativos

tirarem o cascalho e a rica terra,

ou dos cercos dos rios caudalosos,

ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro

do pesado esmeril a grossa areia,

e já brilharem os granetes de oiro

no fundo da bateiaEPF.

(...)

Não verás enrolar negros pacotes

das secas folhas do cheiroso fumo;

nem espremer entre as dentadas rodas

da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa

altos volumesEQF de enredados feitos;

ver-me-ás folhear os grandes livros,

e decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos,

tu me farás gostosa companhia,

lendo os fastos da sábia, mestra História,

e os cantos da poesia.

Tomás A. Gonzaga, marilia dirceu

A configuração que o tema do amor recebe, nos versos do excerto,

LiteraturaFCMMG2017

Para responder à questão, leia o poema “Gesso”, de Manuel Bandeira.

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
- O gesso muito branco, as linhas muito puras –
Mal sugeria imagem da vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de
[pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na de minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,
[recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
[mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.

(BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. R.J.: José Aguilar Editora, 1974, p.193.)

A concepção de vida, para Manuel Bandeira:

LiteraturaUFRGS2015

Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas do enunciado abaixo, na ordem em que aparecem.

A concepção de leitor referida no romance Esaú e Jacó corresponde a ........ que só se interessa ........ e que, por isso, ........ às digressões do narrador que, por sua vez, ........ essa concepção de leitor.

LiteraturaUNIPAM2014

Leia, com atenção, o fragmento do poema Olhos verdes, de Gonçalves Dias. A questão seguintetambém se baseiam nele.

[Estrofe 1]


São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi! [...]


[Estrofe 2]


Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mim,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

[Estrofe 3]


Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mim!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

(Em Poemas de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s/d, p.137-139)

Considere os seguintes fragmentos adaptados da entrevista.

I. Um amigo de verdade é aquele que protege o outro dos tormentos do amor, afasta esse outro da fúria raivosa e faz recuar, para esse outro, a morte. (P1)

II. Mesmo a amizade mais verdadeira não se mantém feliz durante todo o tempo. (P3)

III. Não se pode esperar tudo de um amigo, muito menos a perfeição. (P4)

IV. Uma amizade verdadeira é capaz de proteger o outro das oscilações tumultuosas, da ambivalência intrínseca à relação amorosa. (P4)

A concepção de amigo/amizade depreendida do poema Olhos verdes pode ser explicitada por

LiteraturaENEM2020

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado,
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio:


Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um álamo copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara do calmoso estio.


Turvo banhando as pálidas areias
Nas porções do riquíssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.


Que de seus raios o planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

COSTA, C. M. Obras poéticas de Glauceste Satúrnio. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 8 out. 2015.

A concepção árcade de Cláudio Manuel da Costa registra sinais de seu contexto histórico, refletidos no soneto por um eu lírico que

LiteraturaUNIFOR2016

TEXTO

Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa compor muitos rocks rurais

E tenha somente a certeza

Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa ficar no tamanho da paz

E tenha somente a certeza

Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando solenes

No meu jardim

Eu quero o silêncio das línguas cansadas

Eu quero a esperança de óculos

Meu filho de cuca legal

Eu quero plantar e colher com a mão

A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo

Do tamanho ideal, pau-a-pique, sapé

Onde eu possa plantar meus amigos

Meus discos e livros

E nada mais

(TAVITO; ZÉ RODRIX. Casa no Campo. Intérprete: Elis Regina. Disponível em: < http://www.vagalume.com.br/zerodrix/casa-no-campo.html > Acesso em: 11/04/2016)

A composição de Tavito e Zé Rodrix traduz a idealização da vida no campo, a mesma representada nos versos de Cláudio Manuel da Costa assinalados no item:

LiteraturaPUC-MG2019

O desaparecido

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

BRAGA. R. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 1978.

A comparação que estrutura a crônica sinaliza a intenção do autor de destacar uma