— É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
— É minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões da consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua.
[...]
Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo o embrulho, não grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um barbante rijo, uma coisa que parecia alguma coisa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiência, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim: a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, — um pescador curava as redes ainda mais longe, — ninguém que pudesse ver a minha ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui. [...]
— Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete. [...] desfiz o embrulho, e vi...achei...contei...recontei nada menos de cinco contos de réis. Nada menos. Talvez uns dez mil-réis mais. Cinco contos em boas notas e moedas, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo.
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 2. ed. São Paulo: FTD, 1992. p. 90-91.Marque com V ou com F, conforme sejam as afirmações verdadeiras ou falsas.
( ) A expressão “arroubos possessórios” tem relação com o sentimento de Brás Cubas por Virgília, esposa de Lobo Neves.
( ) A exclamação “É minha!” tem como único referente “moeda de ouro”.
( ) O comportamento do narrador-personagem, nos episódios da moeda de ouro e do embrulho com dinheiro, é revelador da duplicidade de sua consciência moral.
( ) A declaração “ninguém que pudesse ver a minha ação” traduz a preocupação do narrador com o benefício que possivelmente lhe traria a restituição do achado.
( ) O narrador evidencia, através dos cinco contos de réis achados, sua impotência em face do destino.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
Legado
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
Considerando-se a obra Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, no contexto histórico em que foi escrita, e o poema Legado, marque com V as afirmativas verdadeiras e com F, as demais.
( ) A obra Claro Enigma foi publicada durante o período da Guerra Fria, e alguns dos seus poemas fazem questionamentos sobre o futuro em tom pessimista.
( ) O poema Legado exemplifica uma fonte de inspiração comum aos poemas da obra Claro Enigma: foi inspirado pelas incertezas e angústias da época em que foram escritos.
( ) No poema Legado, pode-se constatar o tom melancólico do poeta.
( ) No poema Legado, fica claro que o sujeito poético passa de um estado contemplativo e melancólico para outro de renovação e de descoberta.
( ) No poema Legado, assim como na obra como um todo (Claro Enigma), o sujeito poético esboça um projeto de vida voltado para a superação da amargura e do sofrimento que o acompanharam durante toda a sua existência.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
Anedota Búlgara
Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se
[caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.
Carlos Drummond de Andrade, “Alguma poesia”Quanto aos recursos de estilo tipicamente modernista presentes no poema, assinale V, para as proposições verdadeira e F, para as a falsas.
( ) O poema é composto em versos chamados “livres”, pois não obedecem às convenções da métrica tradicional, isossilábica.
( ) No poema, há o registro de linguagem coloquial, característico das narrativas orais.
( ) O humor, no poema (outro ingrediente de predileção modernista), é essencial ao efeito crítico que compromete a sua estrutura poética.
( ) No poema, percebe-se uma fina ironia sobretudo nos versos “ficou muito espantado/ e achou uma barbaridade”
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
O sobrevivente
Impossível compor um poema a essa altura da
[evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja –
[de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
[5] Há máquinas terrivelmente complicadas para as
[necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.
[10] Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
[15] Os percevejos heroicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um
[segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)
Marque com V ou com F, conforme sejam, respectivamente, verdadeiras ou falsas as afirmativas sobre o texto.
( ) Uma comparação entre o início do poema (v. 1-2) e seu final (v. 18) permite inferir que o poeta, frente à trágica configuração do mundo, desiste de procurar entende-lo através de sua poesia.
( ) Na segunda estrofe (v. 5-9), as constatações do poeta se voltam para a difusão generalizada da tecnologia que retira a naturalidade das ações humanas, sufocando até mesmo o lirismo do amor.
( ) Em relação à possibilidade de melhoria do ser humano e de progresso do mundo, o poeta expressa pessimismo, nos versos de 10 a 12, revelando seu senso crítico e sua ironia.
( ) A comparação entre homens e percevejos (v. 13-14) destaca a irracionalidade da destruição da humanidade provocada pelas guerras e, ao mesmo tempo, a insistência heroica na preservação da espécie humana.
( ) O título do poema é uma alusão à esperança do poeta de que ele e sua poesia possam atravessar incólumes as grandes adversidades anunciadas para o século XX.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
TEXTO:
Na cidade não existem mais galos.
Avacalhada, a manhã surge
— oceano de pano a estraçalhar-se
entre a pressa dos homens e o ruído
[5] de uma história feroz a triturá-los.
Na cidade não existem mais galos.
O homem, agora, ele próprio é quem cisca
no sangue que escorre entre as notícias
a madrugada caída nos imaginários da luz.
[10] No grito das coisas uma certa aurora
continua, no entanto, a ser anunciada
Porque a fome e os dentes crescem
na casa e na boca dos que trabalham.
De noite todos os gatos são pardos.
[15] De dia todas as alegrias são gatos
em cujo pelo a luz do sol brinca
provisoriamente.
De acordo com o poema, marque com V as afirmações corretas e com F, as falsas.
( ) O homem é vítima de um mundo marcado pelo ritmo opressor da vida.
( ) O natural — na sociedade contemporânea urbana — é substituído pelo cultural.
( ) O ser humano, em qualquer tempo e lugar, mostra-se insatisfeito com sua situação social.
( ) O homem, mesmo vivenciando uma realidade adversa, não se deixa vencer pela desesperança.
( ) A ausência de “galos” denuncia a impossibilidade de alteração da ordem político-social vigente na realidade em foco.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
TEXTO:
A Rosa de Hiroxima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
[5] Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
[10] Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
[15] A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
MORAES, Vinícius. Vinícius de Moraes: poesia completa e prosa. São Paulo, Nova Aguiar. p. 381.No que concerne aos aspectos estilísticos do texto, identifique com V ou F, conforme sejam verdadeiras ou falsas as afirmativas.
( ) A métrica segue a norma parnasiana, apesar de alguns desvios próprios da poesia moderna.
( ) A ausência de pontuação remete a uma técnica herdada do futurismo para dar mais agilidade à leitura do texto.
( ) A figura de linguagem básica utilizada para organizar a principal ideia do texto é a metáfora.
( ) O esquema de rimas utilizado está em consonância com a proposta modernista e em desacordo com a tradição romântica.
( ) A construção do poema se faz através da exploração da polissemia semântica dos signos linguísticos, configurando a linguagem poética.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é
O ano de 1922 trouxe muito barulho ao cenário das letras brasileiras. Para responder à questão, preencha as lacunas do texto relacionado a dois dos mais representativos articuladores desta época.
Mario de Andrade e ________________ são considerados os principais nomes do ________________ brasileiro, movimento que, entre outras características, apresentava ________________ e ________________.
A alternativa que completa o excerto adequadamente é:
Afrânio Coutinho, em Introdução à Literatura Brasileira(1983, p. 98), afirma que “o dualismo, a oposição ou as oposições, contrastes e contradições, o estado de conflito e tensão, oriundos do duelo entre o espírito cristão, antiterreno, teocêntrico, e o espírito secular, racionalista, mundano, [...] caracterizam a essência” do período denominado __________________, cujo grande representante, no Brasil, é ________________.
A alternativa que completa corretamente as lacunas é:
A arte literária barroca caracteriza-se por apresentar, como características principais, _________________, cujo representante máximo, na poesia, é __________________.
A alternativa que completa corretamente as lacunas é
Tanto o romantismo quanto o modernismo brasileiros fizeram do índio um dos seus principais motivos de afirmação da identidade nacional. Mas o romantismo ________________ o índio como ________________, à imagem do cavaleiro medieval do imaginário europeu, ao passo que o modernismo preferiu apresentá-lo como homem ________________, de acordo com os estudos etnográficos, a fim de ________________ a diferença do Brasil em relação à civilização colonizadora.
A alternativa que completa corretamente as lacunas do texto anterior é: