“São Paulo, 13 de junho de 1929
Manu,
três horas duma noite que além de ser noite de sábado,
está de neblina formidável. Noite de sábado já é uma das coisas
mais humanas de São Paulo, todos os húngaros, tchecos,
búlgaros, sírios, austríacos, nordestinos saem passear (...)”
(Carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. In: MORAES, Marco Antonio (org).Correspondência. Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: EDUSP, 2001. p. 427)Um ponto comum entre as poéticas de Mário de Andrade e Manuel Bandeira está
Morrer — isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.
[...]
Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.
[...]
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.
Espera só ele voltar, espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.
(SZYMORSKA, Wislawa.Poemas. Trad. Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 94-95)Sobre os versos, a única afirmação INCORRETA é:
APRESENTAÇÃO
Amir Labaki
Cem anos de cinema (ou mais ou menos isso) são também um século de jornalismo cinematográfico. As míticas primeiras
projeções de filmes pelos irmãos Lumière pautaram os primeiros jornalistas. Um desses pioneiros frisou o impacto daquelas
imagens "em tamanho natural, com as cores da vida". Assistira a uma projeção de dimensões limitadas e em preto e branco.
Este contraste entre o visto e o escrito vale compêndios sobre a crítica de cinema.
Esta antologia reúne resenhas e ensaios publicados pela Folha de S. Paulo (e títulos antecessores) sobre dezoito dos
principais filmes da história do cinema. A pretensão não é maior do que a de apresentar breves iluminações para alguns picos
em sua trajetória da era muda (Chaplin) ao período pós-moderno (Tarantino). Análises desenterradas de páginas amarelecidas
fazem reviver momentos-chaves de uma história em plena construção.
(Folha conta 100 anos de cinema. Org. Amir Labaki. Imago: Rio de Janeiro, 1995. p. 9)Porque é texto de apresentação, o trecho acima
A questãorefere-se ao parágrafo abaixo, em seu contexto.
Se o relógio da História marca tempos sinistros, o tempo construído pela arte abre-se para a poesia: o tempo do sonho e da fantasia arrebatou multidões no filme O mágico de Oz estrelado por Judy Garland e eternizado pelo tema da canção Além do arco-íris. Aliás, a arte da música é, sempre, uma habitação especial do tempo: as notas combinam-se, ritmam e produzem melodias, adensando as horas com seu envolvimento.
Considere o parágrafo e o verbete extraído do Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.
□ aliás
advérbio
1 de outro modo, de outra forma
Ex.: sempre ajudou o filho, a. seria mau pai se não o fizesse
2 além disso
Ex.: a., não era a primeira sujeira que ele fazia
3 emprega-se em seguida a uma palavra proferida ou escrita por equívoco; ou melhor, digo
Ex.: estávamos em março, a., abril
4 seja dito de passagem; verdade seja dita; a propósito
Ex.: não aceitou o emprego, que a. é muito cobiçado
5 no entanto, contudo
Ex.: andar muito é cansativo, sem, a., deixar de ser saudável
O sentido preciso com que a palavra aliás foi empregada no texto está indicado em
O ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram,
porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado por
muitos. E se for, qual deve ser, homem de cabedal e governo,
bem se pode estimar no Brasil o ser senhor de engenho, quanto
proporcionalmente se estimam os títulos entre os fidalgos do
Reino (...)
Os escravos são as mãos e os pés do senhor de
engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer,
conservar nem aumentar fazenda, nem ter engenho corrente.
(ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas)O ciclo econômico referido no texto será explorado
Luiz Gama (1830-1882) foi um dos raros intelectuais negros brasileiros do século XIX, o único autodidata e também o único a ter sofrido a escravidão antes de integrar a república das Letras, universo reservado aos brancos. Em São Paulo, em 1859, lançou a primeira edição de seu único livro – Primeiras trovas burlescas de Getulino –, uma coletânea de poemas satíricos e líricos até bem pouco rara. Pela primeira vez na literatura brasileira, um negro ousara denunciar os paradoxos políticos, éticos e morais da sociedade imperial. (...) Jamais frequentou escolas, pois, como afirmara, “a inteligência repele os diplomas, como Deus repele a escravidão”. Luiz Gama converteu-se no incansável e douto “advogado dos escravos”. O poeta então se eclipsa, cedendo lugar ao abolicionista e militante republicano.
(FERREIRA, Lígia Fonseca. “Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça”. Revista Teresa de Literatura Brasileira (8/9). São Paulo: Editora 34/Universidade de São Paulo, 2008, p. 301)O caso de Luís Gama, abordado no texto, faz ver que
A década de 1950 foi marcada pelo anseio de modernização do país, cujos reflexos se fazem sentir também no plano da cultura. É de se notar o amadurecimento da poesia de João Cabral, poeta que se rebelou contra o que considerava nosso sentimentalismo, nosso “tradicional lirismo lusitano”, bem como o surgimento de novas tendências experimentalistas, observáveis na linguagem renovadora de Ferreira Gullar e na radicalização dos poetas do Concretismo. As linhas geométricas da arquitetura de Brasília e o apego ao construtivismo que marca a criação poética parecem, de fato, tendências próximas e interligadas.
(MOUTINHO, Felipe, inédito)O anseio pela renovação da linguagem poética ao longo da década de 50, presente tanto na poesia de Ferreira Gullar como na dos poetas concretos, manifestou-se sobretudo como um empenho em
Na frase A variedade da vida há de conduzi-lo por um bom caminho; é função do cronista encontrar algum por onde possa transitar acompanhado de muitos e, de preferência, bons leitores, fica ressaltado o seguinte aspecto essencial do gênero literário de que se está tratando:
Regimes que se dizem cristãos e que derivam sua autoridade de um determinado corpo de textos já variaram do reino feudal de Jerusalém aos shakers, do império dos tsares russos à República Holandesa, da Genebra de Calvino à Inglaterra georgiana. Em épocas distintas, a teologia cristã absorveu Aristóteles e Marx. Todos afirmavam provir dos ensinamentos de Cristo – embora em geral desagradando a outros cristãos igualmente convencidos de sua cristandade.
(HOBSBAWM, Eric. Como mudar o mundo. Marx e o marxismo (1840-2011). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 312)Atente para estes versos de Murilo Mendes:
Meu espírito anseia pela vinda da esposa.
Meu espírito anseia pela glória da Igreja.
Meu espírito anseia pelas núpcias eternas
Com a musa preparada por mil gerações.
Integrando um poema do livro Tempo e eternidade, esses versos constituem exemplo de
A fábula de Esopo abaixo transcrita, acompanhada do comentário do autor, foi publicada na Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, no dia 1o de set. de 2013, com a informação de que, entre outras 25, nunca havia sido traduzida diretamente do grego para o português.
O gato que convidou pássaros para um jantar
Um gato fez de conta que ia comemorar seu aniversário e convidou pássaros para um jantar. Em seguida, ficou de lado observando e, quando todos já tinham entrado, fechou a porta. Então, começou a devorá-los, um por um.
Esta fábula cai bem para aqueles que se entregam a uma alegre expectativa e vivenciam o contrário.
Considere as seguintes afirmações.
I. A presença das palavras gato e pássaros no título da história, se não tivesse sido informada a natureza do texto − fábula −, determinaria que a história fosse lida no plano único de uma história de bichos.
II. A possibilidade de que a história acima seja considerada uma história de seres humanos representados por animais deriva do fato de, no corpo da fábula, serem atribuídos a eles condutas próprias dos seres humanos.
III. A recorrência de traços do universo humano no universo dos animais, no corpo da fábula, não implica, necessariamente, que o leitor, livre no seu processo de interpretação, considere essas marcas como indicativas de um outro plano possível de leitura.
IV. Como acontece com gato e pássaros, neste caso, a escolha dos animais em uma fábula é aleatória, pois representam exclusivamente a escolha de distintas espécies de bichos, sem que alguma relação específica entre eles seja sugerida.
Está correto o que se afirma APENAS em