Considere o trecho do romance O quinze, de Rachel de Queiroz, para responder à questão.
Armado com um cartãozinho do bispo e um bilhete particular de Conceição à senhora que administrava o serviço, Chico Bento conseguiu obter o ambicionado lugar no açude do Tauape.
No bilhete, a moça fazia o possível para comover a destinatária; e a senhora, apesar de já se ter habituado a esses pedidos que falavam sempre numa mesma pobreza extrema e em criancinhas famintas, achou jeito de desentulhar uma pá, e ela mesma guiou o vaqueiro aturdido, com seu ferro na mão, e o entregou ao feitor.
Duramente Chico Bento trabalhou todo o dia no serviço da barragem
Só de longe em longe parava para tomar um fôlego, sentindo o pobre peito cansado e os músculos vadios.
E o almoço, ao meio-dia, onde, junto do pirão, um naco de carne cheiroso emergia, mal o soergueu e o animou.
Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!…
(O quinze, 2009.)“E o almoço, ao meio-dia, onde, junto do pirão, um naco de carne cheiroso emergia, mal o soergueu e o animou.” (5° parágrafo)
Os pronomes sublinhados retomam o sentido de:
Leia o poema de Thiago de Mello para responder à questão.
Milagre que dói
De que me vale a mordida
inútil da indignação
perante a fome que fere
a vida da multidão
de deserdados do mundo?
De que me vale a palavra
queimando no coração
que há tempo se ergue em clamor
contra o que mancha a beleza
e degrada a dignidade
de um homem que é meu irmão?
São oitocentos milhões,
estatística sinistra,
no mundo inteiro, que vivem
sem saber gosto de pão.
Porque mais perto de mim,
me queima o fogo da fome
das crianças barrigudinhas
de amebas, magras, banguelas
e contudo vivem, nadam
e brincam. Só de milagre
da verde mão da floresta.
Viajando o Amazonas, 96.
(Campo de milagres, 1998.)Os conectivos “Porque” e “contudo”, em destaque na última estrofe, expressam, respectivamente,
Leia o poema de Thiago de Mello para responder à questão.
Milagre que dói
De que me vale a mordida
inútil da indignação
perante a fome que fere
a vida da multidão
de deserdados do mundo?
De que me vale a palavra
queimando no coração
que há tempo se ergue em clamor
contra o que mancha a beleza
e degrada a dignidade
de um homem que é meu irmão?
São oitocentos milhões,
estatística sinistra,
no mundo inteiro, que vivem
sem saber gosto de pão.
Porque mais perto de mim,
me queima o fogo da fome
das crianças barrigudinhas
de amebas, magras, banguelas
e contudo vivem, nadam
e brincam. Só de milagre
da verde mão da floresta.
Viajando o Amazonas, 96.
(Campo de milagres, 1998.)O verso em que a dor do eu lírico diante do sofrimento do próximo está expressa em linguagem figurada é:
A tecnologia para que possamos interferir de modo direto e decisivo sobre o que antigamente se chamava “grande cadeia do ser” já está disponível. Com uma técnica que permite editar o DNA, já é possível modificar um mosquito fazendo, por exemplo, com que ele produza somente gametas do sexo masculino e transmita tal característica aos descendentes. Assim, se indivíduos alterados forem liberados numa população, é questão de tempo até que ela encontre a extinção por ausência de fêmeas. Se esse mosquito for o Anopheles gambiae, principal responsável pela transmissão da malária na África, estaremos poupando centenas de milhares de bebês a cada ano.
Entretanto, é arriscado interferir em ecossistemas. Qual o impacto da extinção desse mosquito na cadeia alimentar? O nicho ecológico por ele ocupado não seria tomado por outra espécie? Que garantia temos de que o parasita da malária não se adaptaria ao próximo mosquito?
Não devemos renunciar a moldar o mundo para nossa conveniência – o que já fazemos há milhares de anos –, mas é importante providenciar antes protocolos de segurança que reduzam a chance de nos tornarmos vítimas do muito que não sabemos.
(Folha de S.Paulo, 19.10.2016. Adaptado.)O trecho “O nicho ecológico por ele ocupado não seria tomado por outra espécie?” está construído na voz passiva. Na transposição para a voz ativa, este trecho assume a seguinte forma:
Leia o trecho inicial da crônica “Arte e ciência de roubar galinha”, de João Ubaldo Ribeiro, para responder à questão.
A gente tem a tendência de pensar que só o que nós fazemos é difícil e complexo, cheio de sutilezas e complicações invisíveis aos olhos dos “leigos”. Isto, naturalmente, é um engano que a vida desmascara a todo instante, como sabe quem quer que já tenha ouvido com atenção qualquer homem falar de seu trabalho, que sempre, por mais simples, envolve atividades e conhecimentos insuspeitados. Assim é, por exemplo, roubar galinha.
Tenho um amigo aqui na ilha que é ladrão de galinha. Chamemo-lo de Lelé, como naqueles relatos verídicos americanos em que se trocam os nomes para proteger inocentes. Só que, naturalmente, a nossa troca se faz para proteger um culpado, no caso o próprio Lelé. É bem verdade que todo mundo aqui sabe que ele rouba galinha, mas não fica bem botar no jornal, ele pode se ofender.
(Arte e ciência de roubar galinha, 1998.)O texto tem elementos que nos ajudam a classificá-lo como “crônica”. Dois desses elementos são
“Alfred veio para o Rio Negro, em 1948, coletar espécies da fauna e da flora para vender a colecionadores e instituições europeias de História Natural.”
O termo “para” expressa, na primeira e na segunda ocorrências, respectivamente, sentidos de
Examine a campanha do Centro de Comunicação, Turismo e Artes da Universidade Federal da Paraíba.
O propósito da campanha é o combate
Leia a crônica “Conversinha mineira” do escritor Fernando Sabino (1923-2004) para responder à questão.
É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
– Sei dizer não senhor: não tomo café.
– Você é dono do café, não sabe dizer?
– Ninguém tem reclamado dele não senhor.
– Então me dá café com leite, pão e manteiga.
– Café com leite só se for sem leite.
– Não tem leite?
– Hoje, não senhor.
– Por que hoje não?
– Porque hoje o leiteiro não veio.
– Ontem ele veio?
– Ontem não.
– Quando é que ele vem?
– Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
– Mas ali fora está escrito “Leiteria”!
– Ah, isso está sim senhor.
– Quando é que tem leite?
– Quando o leiteiro vem.
– Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
– O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
– Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
– Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
– E há quanto tempo o senhor mora aqui?
– Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
– Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
– Ah, o senhor fala a situação? Dizem que vai bem.
– Para que Partido?
– Para todos os Partidos, parece.
– Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
– Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida…
– E o Prefeito?
– Que é que tem o Prefeito?
– Que tal o Prefeito daqui?
– O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
– Que é que falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
– Você, certamente, já tem candidato.
– Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
– Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
– Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...
(Fernando Sabino. A mulher do vizinho, 1976.)O processo de formação de palavras verificado em “cafezinho” também está presente em:
Leia o primeiro capítulo do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, para responder a questão.
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
— Continue, disse eu acordando.
— Já acabei, murmurou ele.
— São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando- -me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você”. — “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo.” — “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.”
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.
(Dom Casmurro, 2008.)Neste primeiro capítulo de Dom Casmurro, há comentários e explicações sobre o título do livro.
O procedimento, semelhante ao encontrado em alguns dos principais textos de Machado de Assis, no qual a construção da narrativa é um aspecto da própria narrativa, é um exemplo de
Leia o trecho do romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, para responder a questão.
A partida de Yaqub foi providencial para mim. Além dos livros usados, ele deixou roupas velhas que anos depois me serviriam: três calças, várias camisetas, duas camisas de gola puída, dois pares de sapato molambentos. Quando ele viajou para São Paulo, eu tinha uns quatro anos de idade, mas a roupa dele me esperou crescer e foi se ajustando ao meu corpo; as calças, frouxas, pareciam sacos; e os sapatos, que mais tarde ficaram um pouco apertados, entravam meio na marra nos pés: em parte por teimosia, e muito por necessidade. O corpo é flexível. Inflexível foi o próprio Yaqub, que enfrentou a resistência da mãe quando informou no Natal de 1949, que ia embora de Manaus. Disse isso à queima roupa, como quem transforma em ato uma ideia ruminada até a exaustão. Ninguém desconfiava de seus planos; ele era evasivo nas respostas, esquivo até nas miudezas do cotidiano, indiferente às diabruras do irmão, que soltava as rédeas no Galinheiro dos Vândalos.
Yaqub quase nada revelava sobre sua vida no sul do Líbano. Rânia, impaciente com o silêncio do irmão, com o pedaço de passado soterrado, espicaçava-o com perguntas. Ele disfarçava. Ou dizia, lacônico: “Eu cuidava do rebanho. Eu, o responsável pelo rebanho. Só isso”. Quando Rânia insistia, ele se tornava áspero, quase intratável, contrariando a candura de gestos e a altivez e aderindo talvez à rudeza que cultivara na aldeia. No entanto, havia acontecido alguma coisa naquele tempo de pastor. Talvez Halim soubesse, mas ninguém, nem mesmo Zana, arrancou do filho esse segredo. Não, de Yaqub não saía nada. Ele se retraía, encasulava-se no momento certo. Às vezes, ao sair do casulo, surpreendia. [...]
Yaqub vinha ruminando a mudança para São Paulo. Foi o padre Bolislau quem o aconselhou a partir. “Vá embora de Manaus”, dissera o professor de matemática. “Se ficares aqui, serás derrotado pela província e devorado pelo teu irmão.”
Um bom mestre, um exímio pregador, o Bolislau. A mãe se desnorteou com a notícia da viagem de Yaqub. O pai, ao contrário, estimulou o filho a ir morar em São Paulo, e ainda lhe prometeu uma parca mesada.
(Dois irmãos, 2006.)O primeiro parágrafo do texto permite caracterizar