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PortuguêsUEA2022

Leia o trecho do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, para responder à questão.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente, que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

(Memórias póstumas de Brás Cubas, 2008.)

Neste trecho, como ideia geral, o narrador

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Leia o trecho de O quinze, de Rachel de Queiroz.

Enfim caiu a primeira chuva de dezembro. Dona Inácia, agarrada ao rosário, de mãos postas, suplicava a todos os santos que aquilo fosse “um bom começo”.

Conceição, comovida, pálida, de lábios apertados, a testa encostada ao vidro da janela, acompanhava a queda da água no calçamento empoeirado, o lento gotejar das biqueiras e de um jacaré da casa defronte, que deixava escorrer pequenos riachos por entre os dentes de zinco.

Na solenidade do momento, ninguém se movia nem falava.

(O quinze, 2012.)

Nesse trecho, pode-se perceber que

PortuguêsUEA2014

Quando se olha uma obra de arte, a primeira pergunta a fazer é: do que ela trata? Uma vez estabelecido o conteúdo, você poderá analisar como o artista arranjou os elementos da obra: a composição. Independentemente de ser um retrato, uma paisagem, uma natureza-morta ou uma pintura abstrata, ela tem que funcionar como um todo integrado, no qual outras qualidades pictóricas, como cor, luz e sombra, têm papel importante.

(Andrew Graham-Dixon. Arte: o guia visual definitivo da arte, 2011.)

Nesse texto, a função da linguagem predominante é a

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Leia o trecho do romance Dois irmãos, de Milton Hatoum.

A velhice ainda estava longe, e a amargura, se existia, Rânia sabia esconder. Escondia muitas coisas: seus pensamentos, suas ideias, seu humor e mesmo uma boa parte do corpo, que eu nunca deixei de admirar. No entanto, era uma virtuose nas questões mais prosaicas, e nisso ela me ajudava. Dá pena pensar que ela só usava aquelas mãos morenas de dedos longos e perfeitos para trocar uma lâmpada, consertar uma torneira ou desentupir um ralo.

(Dois irmãos, 2000.)

Na visão do narrador, Rânia é uma mulher

PortuguêsUEA2016

Leia a crônica “Conversinha mineira” do escritor Fernando Sabino (1923-2004) para responder à questão.

É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
– Sei dizer não senhor: não tomo café.
– Você é dono do café, não sabe dizer?
– Ninguém tem reclamado dele não senhor.
– Então me dá café com leite, pão e manteiga.
– Café com leite só se for sem leite.
– Não tem leite?
– Hoje, não senhor.
– Por que hoje não?
– Porque hoje o leiteiro não veio.
– Ontem ele veio?
– Ontem não.
– Quando é que ele vem?

– Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.

– Mas ali fora está escrito “Leiteria”!
– Ah, isso está sim senhor.
– Quando é que tem leite?
– Quando o leiteiro vem.

– Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?

– O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?

– Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?

– Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
– E há quanto tempo o senhor mora aqui?

– Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.

– Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?

– Ah, o senhor fala a situação? Dizem que vai bem.
– Para que Partido?
– Para todos os Partidos, parece.

– Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.

– Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida…

– E o Prefeito?
– Que é que tem o Prefeito?
– Que tal o Prefeito daqui?
– O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
– Que é que falam dele?

– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.

– Você, certamente, já tem candidato.
– Quem, eu? Estou esperando as plataformas.

– Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?

– Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...

(Fernando Sabino. A mulher do vizinho, 1976.)

Na crônica, o dono do café comporta-se, sobretudo, de modo

PortuguêsUEA2017

Leia a crônica “A velha contrabandista”, do escritor Stanislaw Ponte Preta (1923-1968), para responder à questão.

Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha.

Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:

– Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:

– É areia!

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.

Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

– Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

– Mas no saco só tem areia! – insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

– Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

– O senhor promete que não “espáia”? – quis saber a velhinha.

– Juro – respondeu o fiscal.

– É lambreta.

(Primo Altamirando e elas, 1975.)

Na crônica, a velhinha é caracterizada, sobretudo, como

PortuguêsUEA2014

As acapuranas e o rio

As acapuranas, que árvores solenes!,

aqui de frente de casa

na beirinha do Andirá,

ficam indisfarçadamente desgostosas

quando as águas da cheia começam a subir

pelos seus troncos centenários,

mas muito bem conservados e roliços.

Encolhem as suas favas,

os galhos pendem cabisbaixos.

Elas são quatro, mas de tão juntinhas,

quem vê de longe pensa que é uma só.

Já escutei quando a maior delas

disse para um banzeiro emproado:

Pode bater, que daqui a gente não sai.

Ontem eu quis a sesta à sombra delas,

o rio ficou longe na vazante.

A nossa amizade de vinte anos

me pede a verdade: elas estão

com faceirices de moça no verão.

Aconchegaram a minha fadiga

de tantas páginas defronte das águas.

Mas quando abri devagarinho os olhos,

me espantei, depois sorri, ao ver

as folhas delas dançando e chamando

o rio para subir, vir mais para pertinho,

lamber devagar os seus troncos,

porque tinham delícias para dar.

(Thiago de Mello. Campo de milagres, 1998.)

Há passagens em que o poema assume um tom marcadamente narrativo, como se observa no verso:

PortuguêsUEA2016

A tecnologia para que possamos interferir de modo direto e decisivo sobre o que antigamente se chamava “grande cadeia do ser” já está disponível. Com uma técnica que permite editar o DNA, já é possível modificar um mosquito fazendo, por exemplo, com que ele produza somente gametas do sexo masculino e transmita tal característica aos descendentes. Assim, se indivíduos alterados forem liberados numa população, é questão de tempo até que ela encontre a extinção por ausência de fêmeas. Se esse mosquito for o Anopheles gambiae, principal responsável pela transmissão da malária na África, estaremos poupando centenas de milhares de bebês a cada ano.

Entretanto, é arriscado interferir em ecossistemas. Qual o impacto da extinção desse mosquito na cadeia alimentar? O nicho ecológico por ele ocupado não seria tomado por outra espécie? Que garantia temos de que o parasita da malária não se adaptaria ao próximo mosquito?

Não devemos renunciar a moldar o mundo para nossa conveniência – o que já fazemos há milhares de anos –, mas é importante providenciar antes protocolos de segurança que reduzam a chance de nos tornarmos vítimas do muito que não sabemos.

(Folha de S.Paulo, 19.10.2016. Adaptado.)

“Assim, se indivíduos alterados forem liberados numa população, é questão de tempo até que ela encontre a extinção por ausência de fêmeas.” (1o parágrafo)

Essa frase está corretamente reescrita, conforme a norma- -padrão da língua e com o sentido preservado, em:

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Leia o trecho de Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), para responder à questão.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo — cai é o termo — de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.

(Os sertões, 2001.)

“a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela.” (3° parágrafo)

Em relação ao trecho que o sucede, o trecho destacado tem sentido de

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Leia o trecho de O quinze, de Rachel de Queiroz (1910-2003), para responder à questão.

Mas foi em vão que Chico Bento contou ao homem das passagens a sua necessidade de se transportar a Fortaleza com a família. Só ele, a mulher, a cunhada e cinco filhos pequenos.
O homem não atendia.
– Não é possível. Só se você esperar um mês. Todas as passagens que eu tenho ordem de dar, já estão cedidas. Por que não vai por terra?
– Mas meu senhor, veja que ir por terra, com esse magote de meninos, é uma morte!
O homem sacudiu os ombros:
– Que morte! Agora é que retirante tem esses luxos... No 77 não teve trem para nenhum. É você dar um jeito, que, passagens, não pode ser...
Chico Bento foi saindo.
Na porta, o homem ainda o consolou:
– Pois se quiser esperar, talvez se arranje mais tarde. Imagine que tive de ceder cinquenta passagens ao Matias Paroara, que anda agenciando rapazes solteiros para o Acre!
Na loja do Zacarias, enquanto matava o bicho, o vaqueiro desabafou a raiva:
– Desgraçado! Quando acaba, andam espalhando que o governo ajuda os pobres... Não ajuda nem a morrer!
O Zacarias segredou:
– Ajudar, o governo ajuda. O preposto é que é um ratuíno... Anda vendendo as passagens a quem der mais...
Os olhos do vaqueiro luziram:
– Por isso é que ele me disse que tinha cedido cinquenta passagens ao Matias Paroara!...
– Boca de ceder! Cedeu, mas foi mão pra lá, mão pra cá... O Paroara me disse que pouco faltou pro custo da tarifa... Quase não deu interesse...
Chico Bento cuspiu com o ardor do mata-bicho:
– Cambada ladrona!
(O quinze, 2013.)

“andam espalhando que o governo ajuda os pobres... Não ajuda nem a morrer!” (11o parágrafo)

Em relação a “o governo ajuda os pobres”, o trecho “Não ajuda nem a morrer!” estabelece uma