Leia o poema a seguir.
O POETA TOCAVA SUA GAITA
O poeta morreu à beira de um rio.
era só o que ele tinha. o seu corpo magro.
e esta beira do rio.
a estrada acordou alegre no dia.
a rua com os sapatos
cheia de anjos e mendigos.
que valia para a cidade e a rua
a morte de um? não é um anjo,
um mendigo? o bar vazio
ficou com as portas semicerradas:
podiam entrar vagabundos e loucos.
a casa que nunca teve a tudo ignorou.
o país do poeta abriu sua boca de tédio,
que morte tal não altera o saldo médio.
la máfia de la ciudad
com essas coisas de poesia
não trama nem confia. não tinha nada!
mas nele havia um relógio
que não se empenhava. havia nele
um pássaro íntegro na sua roupa.
nele, uma nuvem, um peixe.
o poeta tocava sua gaita
que era aberta de ninhos
de aves enlouquecidas! pescador,
olhava a terra alerta de seus ruídos,
amigo dos bichos, tinha andar elegante
e passos de um quase gigante,
sábias mãos no remanso e acalanto
da fala de lúgubre voz; lúcido,
acreditava nos homens, saudava
os operários no 1º de maio,
aos tiranetes do dia, como
os odiava e deles ria!
GARCIA, José Godoy. Poesias. Brasília: Thesaurus Editora, 1999. p. 333- 334.A representação do poeta como um sujeito ambivalente é comum na poética de Godoy Garcia. No poema transcrito, essa ambivalência se expressa porque o poeta é
Conjugação
Eu falo
tu ouves
ele cala.
Eu procuro
tu indagas
ele esconde.
Eu planto
tu adubas
ele colhe.
Eu ajunto
tu conservas
ele rouba.
Eu defendo
tu combates
ele entrega.
Eu canto
tu calas
ele vaia.
Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Poesia reunida: 1965-1999. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 157-158Tradicionalmente são consideradas antônimas palavras cujos significados estão em oposição entre si. Considerando-se isso, verifica-se no poema “Conjugação”, de Affonso Romano de Sant’Anna, que
OS HUMANOS SÃO UMA PARTE IMPORTANTE DA BIOSFERA
As maravilhas do mundo natural atraem a nossa curiosidade sobre a vida e tudo que nos cerca. Para muitos de nós, nossa curiosidade sobre a Natureza e os desafios de seu estudo são razões suficientes. Além disso, contudo, nossa necessidade de compreender a Natureza está se tornando mais e mais urgente, à medida que o crescimento da população humana estressa a capacidade dos sistemas naturais em manter sua estrutura e funcionamento.
Os ambientes que as atividades humanas dominam ou criaram – incluindo nossas áreas de vida urbanas e suburbanas, nossas terras cultivadas, nossas áreas de recreação, plantações de árvore e pesqueiros – são também ecossistemas. O bem-estar da humanidade depende de manter o funcionamento desses sistemas, sejam eles naturais ou artificiais. Virtualmente toda a superfície da Terra é, ou em breve será, fortemente influenciada por pessoas, se não completamente sob seu controle. Os humanos já usurpam quase metade da produtividade biológica da biosfera. Não podemos assumir essa responsabilidade de forma negligente.
A população humana se aproxima da marca de 7 bilhões, e consome energia e recursos, e produz rejeitos muito além do necessário ditado pelo metabolismo biológico. Essas atividades causaram dois problemas relacionados de dimensões globais. O primeiro é o seu impacto nos sistemas naturais, incluindo a interrupção de processos ecológicos e a exterminação de espécies. O segundo é a firme e constante deterioração do próprio ambiente da espécie humana à medida que pressionamos os limites dentro dos quais os ecossistemas podem se sustentar. Compreender os princípios ecológicos é um passo necessário para lidar com esses problemas.
RICKLEFS, Robert E. A economia da natureza. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 15. (Adaptado).Os elementos estilísticos, composicionais e temáticos indicam que o texto é predominantemente elaborado a partir de qual sequência textual?
O último quadro da tirinha, elaborado em linguagem não verbal, estabelece em relação à fala de Felipe uma
Observe os quadrinhos a seguir.
O sentido dos quadrinhos, e seu consequente efeito cômico, são obtidos a partir do uso
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Indiferença na vida contemporânea
Há um tipo de indiferença necessário à condução da vida cotidiana, mas é principalmente uma
forma de discrição para não incomodar os outros ou não dar ensejo à sua observação. É uma espécie de
“inatenção polida”. O desligamento é, às vezes, uma forma deliberada de independência, uma atitude
estoica para um indivíduo que tem lucidez de sua impotência para mudar as coisas ou que não deseja
[05] mudá-las. Mas a indiferença, que está relacionada ao afastamento radical do indivíduo, concerne, nesse
caso, a formas mais profundas que traduzem a vontade de não colaborar com os movimentos do vínculo
social, de se manter distante das interações ou de só participar delas de modo impessoal. É então uma
espécie de neutralização radical de toda afetividade, uma desvitalização que está claramente além da
ligeira reserva que se impõe na vida cotidiana para se preservar.
LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018. p. 33-34. (Adaptado).O processo de argumentação do texto é construído por meio de uma
O período “Se a senhora não precisa de nada, vou ao médico” (Eça de Queirós) pode ser reescrito, sem prejuízo de sentido, do seguinte modo:
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Indiferença na vida contemporânea
Há um tipo de indiferença necessário à condução da vida cotidiana, mas é principalmente uma
forma de discrição para não incomodar os outros ou não dar ensejo à sua observação. É uma espécie de
“inatenção polida”. O desligamento é, às vezes, uma forma deliberada de independência, uma atitude
estoica para um indivíduo que tem lucidez de sua impotência para mudar as coisas ou que não deseja
[05] mudá-las. Mas a indiferença, que está relacionada ao afastamento radical do indivíduo, concerne, nesse
caso, a formas mais profundas que traduzem a vontade de não colaborar com os movimentos do vínculo
social, de se manter distante das interações ou de só participar delas de modo impessoal. É então uma
espécie de neutralização radical de toda afetividade, uma desvitalização que está claramente além da
ligeira reserva que se impõe na vida cotidiana para se preservar.
LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018. p. 33-34. (Adaptado).O enunciado “É uma espécie de ‘inatenção polida’” contém uma forma de modalização discursiva na qual o autor apresenta
A DEMOCRATIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
Em 1988, a Folha divulgou a então denominada “lista improdutiva da USP”, relacionada à produção científica das universidades. A celeuma provocada pela lista contribuiu para a criação de um programa de avaliação das universidades brasileiras, mostrando que elas precisam prestar contas de sua produção científica.
Em março de 1990, controversa medida provisória determinava a extinção da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do MEC), que fracassou devido à mobilização da comunidade científica. Esses são alguns dos muitos avanços e percalços da educação brasileira tratados no livro O MEC pós-constituição, do professor Célio da Cunha e colaboradores, editado pela Liber Livro Editora em colaboração com a Unesco e a Universidade Católica de Brasília.
Célio da Cunha acumula conhecimento e experiência da área em funções na Unesco, CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e universidades de Brasília e Federal de Mato Grosso há mais de 40 anos. Ele alerta para o fato de que a educação nacional precisa se situar acima de conflitos ideológicos e interesses partidários ou de grupos, visando ao futuro das novas gerações.
A obra está dividida em onze capítulos nas suas 527 páginas e aborda temas de educação desde os eventos do famoso “Manifesto dos Pioneiros de 1932” à Constituição de 1988 e às gestões no MEC de 1988 a 2015. É destinada a pesquisadores da área de Educação e demais interessados em entender certos aspectos do sistema educacional brasileiro.
ABRAMCZYK, Julio. Folha de S. Paulo, sábado, 5 mar. 2016, Ciência + Saúde, p. B9. (Adaptado).O enunciado “Célio da Cunha acumula conhecimento e experiência da área em funções na Unesco, CNPq [...] e universidades de Brasília e Federal de Mato Grosso há mais de 40 anos” cumpre, na organização retórico-argumentativa do gênero discursivo, o propósito de
O EGOÍSMO GREGÁRIO COMO PRINCÍPIO DO REBANHO PÓS-MODERNO
Estamos numa época de promoção do egoísmo, de produção de egos tanto mais cegos ou cegados que não percebem o quanto podem hoje ser recrutados em conjuntos massificados. Em outras palavras, vemos egos, isto é, pessoas que se creem iguais e que, na realidade, passaram a ficar sob o controle do que se deve bem chamar “o rebanho”. Viver em rebanho fingindo ser livre nada mais mostra que uma relação consigo catastroficamente alienada, uma vez que supõe ter erigido como regra de vida uma relação mentirosa consigo mesmo. E, a partir daí, com os outros. Assim, mentimos despudoradamente aos outros, àqueles que vivem fora das democracias liberais, quando lhes dizemos que acabamos – com algumas maquininhas à guisa de presentes ou de armas nas mãos em caso de recusa – de lhes trazer a liberdade individual; na realidade, visamos, antes de tudo, fazer com que entrem no grande rebanho dos consumidores.
Mas qual é, perguntarão, a necessidade dessa mentira? Por que precisamos fazer crer que somos livres quando vivemos em rebanho? E por que precisamos fazer outros crerem que são livres quando vamos colocá-los em rebanho? A resposta é simples. É preciso que cada um vá livremente na direção das mercadorias que o bom sistema de produção capitalista fabrica para ele. Digo bem “livremente” pois, forçado, resistiria. Ao passo que livre, pode consentir em querer o que lhe dizem que deve querer enquanto cidadão livre. A obrigação permanente de consumir deve, portanto, ser redobrada por um discurso incessante de liberdade, de uma falsa liberdade, é claro, entendida como permissão para fazer “tudo o que se quer”. Esse duplo discurso é exatamente o das democracias liberais, descambem para a direita ou para a esquerda. É pelo egoísmo que se deve agarrar os indivíduos para arrebanhá-los, pois é o meio mais econômico e racional de ampliar sempre mais as bases do consumo de um conjunto de pessoas permanentemente levadas para necessidades reais ou, quase sempre, supostas.
DUFOUR, Dany-Robert. O divino mercado: a revolução cultural liberal. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2008. p. 23-24. (Adaptado).O conectivo “pois” (linha 19) expressa no texto um sentido