O CONTO A SEGUIR FOI RETIRADO DO LIVRO HORA DE ALIMENTAR SERPENTES, DE MARINA COLASANTI.
CENA ANTIGA
Amanhece o dia entre neblinas, quando o Bem e o Mal se encontram para mais um duelo.
Escolhem as armas nos estojos, aproximam-se para o encontro ritual, encaram-se. Os padrinhos
que aguardam ao lado do campo, escuros como as gralhas que saltitam entre restolhos, são instados
a partir. Que não haja testemunhas.
[5]Afastados estes, Bem e Mal guardam as armas, se envolvem em suas capas e caminham até a taverna
mais próxima. Ali, frente a canecos cheios, discutirão estratégias e trocarão conselhos durante dias
ou séculos, até o próximo duelo.
O título “Cena antiga” alude à repetição de um ritual, evidenciada pelo seguinte trecho:
A invasão dos blablablás
O planeta é dividido entre as pessoas que falam no cinema − e as que não falam. É uma divisão
recente. Por décadas, os falantes foram minoria. E uma minoria reprimida. Quando alguém abria
a boca na sala escura, recebia logo um shhhhhhhhhhhhh. E voltava ao estado silencioso de onde
nunca deveria ter saído. Todo pai ou mãe que honrava seu lugar de educador ensinava a seus
filhos que o cinema era um lugar de reverência. Sentados na poltrona, as luzes se apagavam,
uma música solene saía das caixas de som, as cortinas se abriam e um novo mundo começava.
Sem sair do lugar, vivíamos outras vidas, viajávamos por lugares desconhecidos, chorávamos,
ríamos, nos apaixonávamos. Sentados ao lado de desconhecidos, passávamos por todos os
estados de alma de uma vida inteira sem trocar uma palavra. Comungávamos em silêncio do
mesmo encantamento. (...)
Percebi na sexta-feira que não ia ao cinema havia três meses. Não por falta de tempo, porque
trabalhar muito não é uma novidade para mim. Mas porque fui expulsa do cinema. Devagar,
aos poucos, mas expulsa. Pertenço, desde sempre, às fileiras dos silenciosos. Anos atrás, nem
imaginava que pudesse haver outro comportamento além do silêncio absoluto no cinema. Assim
como não imagino alguém cochichando em qualquer lugar onde entramos com o compromisso
de escutar.
Não é uma questão de estilo, de gosto. Pertence ao campo do respeito, da ética. Cinema é a
experiência da escuta de uma vida outra, que fala à nossa, mas nós não falamos uns com os
outros. No cinema, só quem fala são os atores do filme. Nós calamos para que eles possam falar.
Nossa vida cala para que outra fale.
Isso era cinema. Agora mudou. É estarrecedor, mas os blablablás venceram. Tomaram conta
das salas de cinema. E, sem nenhuma repressão, vão expulsando a todos que entram no cinema
para assistir ao filme sem importunar ninguém. (...)
Eliane Brum revistaepoca.globo.com, 10/08/2009O texto é centrado na expressão onomatopaica blablablá, que normalmente se escreve no lugar de uma longa fala irrelevante. A autora, no entanto, lhe empresta outro sentido e outra função. No texto, a expressão os blablablás se refere àqueles que:
TERRORISMO LÓGICO
O terrorismo é duplamente obscurantista: primeiro no atentado, depois nas reações que desencadeia.
[1] Said e Chérif Kouachi eram descendentes de imigrantes. Said e Chérif Kouachi são suspeitos
do ataque ao jornal Charlie Hebdo, na França. Se não houvesse imigrantes na França, não teria
havido ataque ao Charlie Hebdo.
Said e Chérif Kouachi, suspeitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo, eram filhos de argelinos.
[5] Zinedine Zidane é filho de argelinos. Zinedine Zidane é terrorista.
Zinedine Zidane é filho de argelinos. Said e Chérif Kouachi, suspeitos do ataque ao jornal Charlie
Hebdo, eram filhos de argelinos. Said e Chérif Kouachi sabiam jogar futebol.
Muçulmanos são uma minoria na França. Membros de uma minoria são suspeitos do ataque
terrorista. Olha aí no que dá defender minoria...
[10] A esquerda francesa defende minorias. Membros de uma minoria são suspeitos pelo ataque
terrorista. A esquerda francesa é culpada pelo ataque terrorista.
A extrema direita francesa demoniza os imigrantes. O ataque terrorista fortalece a extrema
direita francesa. A extrema direita francesa está por trás do ataque terrorista.
Marine Le Pen é a líder da extrema direita francesa. “Le Pen” é “O Caneta”, se tomarmos o
[15] artigo em francês e o substantivo em inglês. Eis aí uma demonstração de apoio da extrema
direita francesa à liberdade de expressão e aos erros de concordância nominal.
Numa democracia, é desejável que as pessoas sejam livres para se expressar. Algumas dessas
expressões podem ofender indivíduos ou grupos. Numa democracia, é desejável que indivíduos
ou grupos sejam ofendidos.
[20] Os terroristas que atacaram o jornal Charlie Hebdo usavam gorros pretos. “Black blocs” usam
gorros pretos. “Black blocs” são terroristas.
Todo abacate é verde. O Incrível Hulk é verde. O Incrível Hulk é um abacate.
Antonio Prata
Adaptado de Folha de São Paulo, 11/01/2015.O terrorismo é duplamente obscurantista: primeiro no atentado, depois nas reações que desencadeia. O subtítulo do texto sugere uma explicação para o título. Essa explicação é melhor compreendida pela associação entre:
O sentido da charge se constrói a partir da ambiguidade de determinado termo.O termo em questão é:
bem no fundo
[1] no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
[5] resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela − silêncio perpétuo
[10] extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
[15] problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas
Paulo LeminskiToda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.O poeta emprega dois termos diferentes para se aproximar do leitor: a gente (v. 3) e nossos (v. 4). O emprego de tais termos produz, em relação à percepção de mundo, o sentido de:
O personagem presente no último quadrinho é um ácaro, um ser microscópico. Suas falas têm relação direta com seu tamanho. No contexto, é possível compreender a imagem do personagem como uma metonímia. Essa metonímia representa algo que se define como:
O CONTO A SEGUIR FOI RETIRADO DO LIVROHORA DE ALIMENTAR SERPENTES, DE MARINA COLASANTI.
PESCANDO NA MARGEM DO RIO
Era um homem muito velho, que cada manhã acordava certo de que aquela seria a última. E porque
seria a última, pegava o caniço, a latinha de iscas, e ia pescar na beira do rio. As poucas pessoas
que ainda se ocupavam dele reclamaram, a princípio. Que aquilo era perigoso, que ficava muito só,
que poderia ter um mal súbito. Depois, considerando que um mal súbito seria solução para vários
[5] problemas, deixaram que fosse, e logo deixaram de reparar quando ia. O velho entrou, assim, na
categoria dos ausentes.
Ausente para os outros, continuava docemente presente para si mesmo.
Ia ao rio com a alma fresca como a manhã. Demorava um pouco a chegar porque seus passos eram
lentos, mas, não tendo pressa alguma, o caminho lhe era só prazer. Não havia nada ali que não
[10] conhecesse, as pedras, as poças, as árvores, e até o sapo que saltava na poça e as aves que cantavam
nos galhos, tudo lhe era familiar. E embora a natureza não se curvasse para cumprimentá-lo, sabia-se
bem-vindo.
O dia escorria mais lento que a água. Quando algum peixe tinha a delicadeza de morder o seu
anzol, ele o limpava ali mesmo, cuidadoso, e o assava sobre um fogo de gravetos. Quando nenhuma
[15] presença esticava a linha do caniço, comia o pão que havia trazido, molhado no rio para não ferir
as gengivas desguarnecidas.
À noite, em casa, ninguém lhe perguntava como havia sido o seu dia.
Fazia-se mais fraco, porém.
E chegou a manhã em que, debruçando-se sobre a água antes mesmo de prender a isca na barbela
[20] afiada, viu faiscar um brilho novo. Apertou as pálpebras para ver melhor, não era um peixe. Movido
pela correnteza, um anzol bem maior do que o seu agitava-se, sem isca. Por mais que se esforçasse,
não conseguiu ver a linha, enxergava cada vez menos. Nem havia qualquer pescador por perto.
O velho não descalçou as sandálias, as pedras da margem eram ásperas.
Entrou na água devagar, evitando escorregar. Não chegou a perceber o frio, o tempo das percepções
havia acabado. Alongou-se na água, mordeu o anzol que havia vindo por ele, e deixou-se levar.
O conto inteiro pode ser compreendido como um eufemismo, que procura atenuar o sentido do seguinte tema abordado na narrativa:
A EDUCAÇÃO PELA SEDA
Vestidos muito justos são vulgares. Revelar formas é vulgar. Toda revelação é de uma vulgaridade abominável. Os conceitos a vestiram como uma segunda pele, e pode-se adivinhar a norma que lhe rege a vida ao primeiro olhar.
Rosa Amanda Strausz Mínimo múltiplo comum: contos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.O conto contrasta dois tipos de texto em sua estrutura. Enquanto o segundo parágrafo se configura como narrativo, o primeiro parágrafo se aproxima da seguinte tipologia:
O CONTO A SEGUIR FOI RETIRADO DO LIVROHORA DE ALIMENTAR SERPENTES, DE MARINA COLASANTI.
PESCANDO NA MARGEM DO RIO
Era um homem muito velho, que cada manhã acordava certo de que aquela seria a última. E porque
seria a última, pegava o caniço, a latinha de iscas, e ia pescar na beira do rio. As poucas pessoas
que ainda se ocupavam dele reclamaram, a princípio. Que aquilo era perigoso, que ficava muito só,
que poderia ter um mal súbito. Depois, considerando que um mal súbito seria solução para vários
[5] problemas, deixaram que fosse, e logo deixaram de reparar quando ia. O velho entrou, assim, na
categoria dos ausentes.
Ausente para os outros, continuava docemente presente para si mesmo.
Ia ao rio com a alma fresca como a manhã. Demorava um pouco a chegar porque seus passos eram
lentos, mas, não tendo pressa alguma, o caminho lhe era só prazer. Não havia nada ali que não
[10] conhecesse, as pedras, as poças, as árvores, e até o sapo que saltava na poça e as aves que cantavam
nos galhos, tudo lhe era familiar. E embora a natureza não se curvasse para cumprimentá-lo, sabia-se
bem-vindo.
O dia escorria mais lento que a água. Quando algum peixe tinha a delicadeza de morder o seu
anzol, ele o limpava ali mesmo, cuidadoso, e o assava sobre um fogo de gravetos. Quando nenhuma
[15] presença esticava a linha do caniço, comia o pão que havia trazido, molhado no rio para não ferir
as gengivas desguarnecidas.
À noite, em casa, ninguém lhe perguntava como havia sido o seu dia.
Fazia-se mais fraco, porém.
E chegou a manhã em que, debruçando-se sobre a água antes mesmo de prender a isca na barbela
[20] afiada, viu faiscar um brilho novo. Apertou as pálpebras para ver melhor, não era um peixe. Movido
pela correnteza, um anzol bem maior do que o seu agitava-se, sem isca. Por mais que se esforçasse,
não conseguiu ver a linha, enxergava cada vez menos. Nem havia qualquer pescador por perto.
O velho não descalçou as sandálias, as pedras da margem eram ásperas.
Entrou na água devagar, evitando escorregar. Não chegou a perceber o frio, o tempo das percepções
havia acabado. Alongou-se na água, mordeu o anzol que havia vindo por ele, e deixou-se levar.
O conto constrói um paradoxo, que está formulado em:
A questãorefere-se ao romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma — usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua ideia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento e consequência a sua emancipação idiomática.
PRIMEIRA PARTE
IV - Desastrosas Consequências de um RequerimentoO teor da solicitação de Policarpo Quaresma expressa uma ironia ao deixar implícita uma crítica histórica.
O alvo dessa crítica é: