Leia o texto “Apologia grega à preguiça”, de Francis Wolff, para responder à questão.
Quando digo que os antigos gregos não conheciam a preguiça, isso não significa que fossem mais trabalhadores do que nós. Pelo contrário, eu diria. Isso significa que, para eles, o gosto pelo trabalho não era uma virtude: portanto, o fato de não gostar de trabalhar nem querer trabalhar não era um vício. As virtudes e os vícios não são universais. Por exemplo, o voyeurismo é um vício – a menos que você esteja em uma sociedade de exibicionistas, onde os voyeurs são bem-vindos. Ocorre o mesmo com a preguiça. Nós a consideramos um vício porque acreditamos que o trabalho (o gosto pelo trabalho) seja uma virtude. Mas, em uma sociedade que visse o trabalho como uma calamidade, ou o gosto pelo trabalho como perversão, não pensaríamos a preguiça como um vício. Acharíamos que ela é uma virtude ou, pelo menos, uma disposição sadia do caráter. Na verdade, até ignoraríamos a ideia de preguiça. O que restaria dessa repugnância ao trabalho, que denominamos preguiça, se não mais a condenássemos? Restariam apenas as emoções positivas: o gosto pelo repouso, por exemplo. E, de fato, por que preferir o movimento ao repouso? Por que escolher a excitação, em geral, vã? Aliás, seria preciso acreditar que somos indispensáveis para achar que o mundo necessita de nossa atividade. Amanhã, estaremos mortos e o mundo girará igualmente bem (ou igualmente mal) sem a nossa agitação. E, por fim, se não fizermos nada além de ir levando a vida, será que não estaremos mais disponíveis para as coisas realmente importantes: o amor, a amizade, a cultura de si, o divertimento, o desenvolvimento de nossas faculdades físicas e mentais? Finalmente: por que preferir a submissão ao trabalho diante da possibilidade de nada fazer, ou melhor, diante da liberdade de fazer o que bem nos aprouver?
(Adauto Novaes (org.). Mutações: elogio à preguiça, 2012. Adaptado.)Em sua argumentação, o autor utiliza, de modo reiterado, perguntas dirigidas ao leitor e os seguintes recursos argumentativos:
Naquela manhã o Saldanha estava desesperado: nãohavia quinze dias que lhe entrara na algibeira, inesperadamente, uma bela nota de quinhentos mil-réis, e já não lhe restava um níquel desse dinheiro!
É verdade que ele passou uma semana de patuscadas, uma semana cheia! A inesperada fortuna coincidira com o aniversário natalício de um dos pequenos, o Nhô-nhô, e tinha havido peru de forno e até champanhe à mesa! Que diabo, um dia não são dias!
O semiconto de réis voou, sem que o imprevidente Saldanha empregasse dez tostões em qualquer coisa útil. A conta da venda – uma conta de cabelos brancos – ficou por pagar, não se comprou um trapinho para as crianças, tão precisadas de roupa!
O dinheiro viera das mãos de certo negociante da rua da Alfândega, que encomendara ao Saldanha uma série de artigos metendo à bulha1 uma companhia em liquidação, isto é, os respectivos liquidantes. O nosso homem, que tinha dedo para essa espécie de literatura, fez obra asseada: as descomposturas produziram o desejado efeito. O prosador contava com cem mil-réis: recebeu quinhentos.
Foi um delírio! O Saldanha subiu radiante a rua do Ouvidor, com cócegas de comprar tudo quanto via exposto nos mostradores das lojas. Parou durante cinco minutos diante de um gramofone. – Que surpresa seria para a pequenada! – Mas resistiu e passou. Foi esse o único movimento bom que teve depois de endinheirado.
(Arthur Azevedo. Seleção de contos, 2014.)Em conformidade com a norma-padrão da língua portuguesa e os sentidos do texto, as passagens “e tinha havido peru de forno e até champanhe à mesa!” (2o parágrafo) e “O prosador contava com cem mil-réis: recebeu quinhentos.” (4o parágrafo) podem ser reescritas, respectivamente, das seguintes formas:
“O Brasil de 1920 era uma paisagem de velhos”, escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica sobre sua infância. “Os moços não tinham função, nem destino. A época não suportava a mocidade”. O escritor estava se referindo aos sinais de respeitabilidade e seriedade que todo moço tinha pressa em ostentar. Um homem de 25 anos já portava o bigode, a roupa escura e o guarda-chuva necessário para identificá-lo entre os homens de 50, e não entre os rapazes de 18. Já um futuro escritor do ano 2030, quando escrever sobre a infância nos dias de hoje, poderá afirmar: “No meu tempo, todo mundo era jovem”.
Ou melhor: há 30 anos somos todos jovens. No “nosso” tempo, essa história de ser jovem começou a sair de uma certa obscuridade culposa e obediente à qual discursos médicos e morais a haviam relegado. De início (não preciso repetir o que já se escreveu sobre os anos 1960 no Ocidente), o fenômeno tinha um vigor e uma beleza caótica, “jovem” era a palavra para tudo o que até então vivia nos porões da civilização. Jovem era a inteligência quando se aventurava a pensar para além dos cânones universitários. Jovem era a sexualidade que saiu à luz do dia (com ajuda, convenhamos, dos anticoncepcionais), dispensando as culpas e tabus que fizeram a angústia e a acne das gerações anteriores. Mais que o sexo, jovens eram as pulsões de vida todas, eróticas ou agressivas, que impregnaram a música, a política e os costumes, na esperança de que a vida pudesse se revolucionar de ponta a ponta, se estetizar. Titio Nietzsche, aquele velho bigodudo que pensava como um eterno rebelde, teria adorado.
(A fratria órfã, 2008. Adaptado.)É correto afirmar que o texto tem como tema
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve...) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía1.
(Sonetos, 1998.)É correto afirmar que o eu lírico trata a ideia de mudança a partir de uma perspectiva
Examine a charge do cartunista Quino para responder à questão.
Dos seguintes provérbios, o que mais se aproxima da mensagem transmitida pela charge é:
Leia o texto de João Batista Libânio para responder à questão.
A autonomia tornou-se o ponto inquestionável e irreversível da modernidade e pós-modernidade. Desde a idade mais pequena, a criança já se percebe como sujeito de desejos, vontades, decisões que quer que sejam respeitados pelos pais, professores e adultos em geral. Não aceitam que autoridade de fora, de qualquer natureza que seja, lhe fira a própria lei pessoal, isto é, a autonomia, que significa: auto (própria) + nomos (lei).
Todos se sentem sujeitos e não suportam ser tratados como objetos. Princípio importante para criar imaginário de igualdade, de respeito, de direitos reivindicados. No entanto, falta a contrapartida de toda autonomia, de todo direito e respeito exigidos. Reconhecer a autonomia do outro, cumprir os próprios deveres em relação à sociedade e assumir a responsabilidade pelos próprios atos. Esse outro lado da moeda constitui-se o maior desafio da educação.
Ele só se torna possível se os educadores – pais e escola – mostrarem que autonomia sem responsabilidade dos próprios atos não passa de anarquia destrutiva da possibilidade do convívio humano, social e, no fundo, da própria autonomia. Autonomia só se autossustenta com responsabilidade.
E há passo ainda mais difícil. O aprendizado da responsabilidade passa pelo limite. Se a pessoa não sabe impô-lo a si mesmo, alguém deve fazê-lo. Esse alguém são, em primeiro lugar, os pais. E, em seguida, a escola. O limite na escola chama-se disciplina. Portanto, sem disciplina não há responsabilidade. Sem responsabilidade não há autonomia humana e sociável. Do contrário, teríamos aquele mundo que o inglês Hobbes temia: cada ser humano será um lobo para o outro. Sem responsabilidade e limites, imperará a violência bruta, estúpida, sem lei nem grei. E a convivência se tornará cada vez mais difícil, o medo maior, a vida insuportável. Um pouco desse cenário se desenha nas grandes cidades. A reversão começa na família e na escola.
(http://domtotal.com, 18.07.2012.)“Ele só se torna possível se os educadores – pais e escola – mostrarem que autonomia sem responsabilidade dos próprios atos não passa de anarquia destrutiva da possibilidade do convívio humano, social e, no fundo, da própria autonomia.” (3o parágrafo)
De acordo com o sentido e a coerência interna do texto, o pronome destacado pode ser corretamente substituído por
De acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, a lacuna do último quadrinho deve ser preenchida com
Voz do Outono
Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
– “Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão1,
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa2,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!
Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba3 vária,
(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!” –
(Antero de Quental. Antologia, 1991.)Considerando-se a temática do poema, é correto afirmar que ele exemplifica a poesia de
Estudar um movimento de ideias querendo ignorar o que o precedeu ou o seguiu, abstraindo a situação social e política que o alimentou e sobre a qual, por sua vez, ele pôde agir é trabalho inócuo. O Surrealismo, particularmente, está fortemente engajado no período entre as duas guerras. Dizer, como alguns, que ele não passa, no plano da arte, de uma manifestação pura e simples é de um materialismo por demais simplista: ele constitui também o herdeiro e o continuador dos movimentos artísticos que o precederam sem os quais não teria existido. É, portanto, sob esses dois aspectos ao mesmo tempo que devemos considerá-lo.
Entre 1918 e 1940, foi o contemporâneo de acontecimentos sociais, políticos, científicos, filosóficos de primeira importância. Alguns o marcaram fortemente; a outros deu seu colorido próprio.
Na Exposição Internacional do Surrealismo, realizada em Paris (1938), estavam representados quatorze países. O Surrealismo havia rompido os quadros nacionais da arte. Nenhum movimento artístico antes dele, inclusive o Romantismo, teve essa influência e essa audiência internacionais. Foi o alimento saboroso dos melhores artistas de cada país, o reflexo de uma época que, também no plano artístico, devia encarar seus problemas em escala mundial.
(História do Surrealismo, 2008. Adaptado.)“O Surrealismo havia rompido os quadros nacionais da arte.”
Assinale a alternativa que expressa, na voz passiva, o conteúdo dessa oração.
Assinale a alternativa em que a fala da personagem do primeiro quadrinho está reescrita conforme a norma-padrão e o sentido da tira.