TEXTO:
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
[5] na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
[10] nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
[15] eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
NETO, Torquato. Cogito. In: Os cem melhores poemas do século.Ítalo Mariconi (Org). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 269.Para o eu poético,
TEXTO:
Amar e ser amado Amar e ser amado!
Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
[5] Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
[10] P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano
–Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
[15] Confundido também – amante – amado
Como um anjo feliz... que pensamento!?
Para o eu lírico, o sentimento amoroso se apresenta como um desejo
Leia o poema a seguir para responder à questão.
Catar feijão
Catar feijão se limita com escrever:
Joga-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel;
E depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
Agua congelada, por chumbo seu verbo:
Pois para catar esse feijão, soprar nele,
E jogar fora o leve e o oco, palha eco,
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
O de que entre grãos pesados entre
Um grão qualquer, pedra ou indigesto,
Um grão imastigável, de quebra dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
A pedra dá à frase seu grão mais vivo:
Obstrui a leitura fluviante, flutual,
Açula a atenção, isca-a com o risco.
Para o eu lírico, o processo de escrita se constitui como uma atividade
Leia o poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, para responder à questão.
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se
[estivesse agradável.
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno – Calmamente, sem me queixar, como quem meramente
[aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar – No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o na-
[tural inevitável.
(As múltiplas faces de Fernando Pessoa, 1995.)Para o eu lírico, o homem deve
TEXTO:
O que faz O cortiço especial, do ponto de vista
econômico, é justamente a demonstração daquilo que
Marx chamou de “lenda” e de “pecado original” do
capitalismo: ao descrever o surgimento de capitalistas
[5] e de um proletariado explorado, o romance acaba
revelando uma sucessão de “crimes” que Romão e, por
extensão, o agente capitalista cometem, bem como a
relação entre acumulação e extração de riquezas da
natureza. Os suores de Romão e Bertoleza estão
[10] presentes nos primeiros estágios de acumulação.
Bertoleza continuará “suando” até o fim do romance, ao
passo que Romão se livrara, progressivamente, do
trabalho braçal. Não é o suor, portanto, conta-nos Aluísio,
que faz o capitalista, mas os crimes que a riqueza
[15] permitirá, por meio da ideologia, esconder.
É esse o processo que cria o capitalista Romão e,
por consequência, seus assalariados. Romão não tem
escravos, e não os compra com o que acumula — assim,
mostra-se sensível ao futuro da sociedade brasileira, não
[20] se amarrando a sinais de status do passado que não
tivessem futuro. Quanto a Bertoleza, desde o começo,
sabemos da grande fraude que significou sua alforria;
ela, porém, a ignora. Para o leitor, é a prova viva do
“pecado original” de Romão, que não precisa aparecer
[25] muito ao longo do romance para que essa tensão
permaneça.
Para o articulista, O Cortiço
Responder à questão com base no texto.
TEXTO
4 de julho
Ocorreu-me compor umas certas regras para uso dos
que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem
tido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente
[5] democrático, exige que ele não seja deixado ao puro
capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do
que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que
tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.
[...]
[10] ART. II Da posição das pernas
As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem
formalmente as pernas abertas, mas com a condição de
pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas
pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena
[15] gratificação.
ART. III Da leitura dos jornais
Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver
lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito
encostá-los no passageiro da frente.
[20] [...]
ART. V Dos amoladores
Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus
negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve
primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal
[25] confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso
afirmativo, perguntar-lhe-á se prefere a narração ou uma
descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira
os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los.
No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o
[30] passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo
minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias
mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as
coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses
não cair em outra.
Para normatizar o comportamento adequado das pessoas no bonde, Machado de Assis opta pela estrutura de uma lei, com seus respectivos artigos. Essa escolha
Lendo o texto Trabalho escravo contemporâneo: a barbárie institucionalizada e o texto Sermão Vigésimo Sétimo com o Santíssimo Sacramento Exposto, respectivamente de Costa Mattos e de António Vieira, observa-se que ambos refletem profundamente sobre o trabalho escravo, seja na escravização legalizada, como no período colonial, seja na escravização clandestina contemporânea. Ambos tecem considerações sobre o que significa o cativeiro do corpo e o cativeiro da alma e propõem soluções para esse problema. Nesse sentido, assinale a alternativa que apresenta corretamente um paralelo entre eles.
Para isso, considere o termo "alma"tanto no seu sentido teológico clássico, quanto no sentido moderno de "consciência".
Poema do Beco
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
– O que eu vejo é o beco.
Para expor sua percepção sobre a vida e a condição humana em um poema diminuto, Manuel Bandeira condensa essas ideias na representação metafórica de um beco, imagem que, a julgar pela totalidade de sua poesia, sugere
Antes mesmo do indianismo e do regionalismo, a ficção brasileira, desde os anos de 1840, se orientou para outra vertente de identificação nacional através da literatura: a descrição da vida nas cidades grandes, sobretudo o Rio de Janeiro e áreas de influência, o que sobrepunha à diversidade do pitoresco regional uma visão unificadora. Se por um lado isto favoreceu a imitação mecânica da Europa, e portanto uma certa alienação, de outro contribuiu para dissolver as forças centrífugas, estendendo sobre o País uma espécie de linguagem culta comum a todos e a todos dirigida (...), que contrabalança o particular de cada zona.
(Antonio Candido. A educação pela noite. São Paulo: Ática, 1987. p. 203)Para exemplificar adequadamente as referências iniciais do texto, pode-se associar I. Machado de Assis ao intento de documentar uma cultura regional. II. José de Alencar ao propósito de idealizar valores da cultura nativa. III. Machado de Assis à exaltação do nacionalismo mais exacerbado. IV. José de Alencar à expressão da diversidade cultural do país. Atende ao enunciado o que está APENAS em
Ocaso
No anfiteatro de montanhas
Os profetas do Aleijadinho
Monumentalizam a paisagem
As cúpulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte de meu país
Onde ninguém mais subiu
Bíblia de pedra sabão
Banhada no ouro das minas
Oswald de Andrade, Poesias reunidas.Para enfatizar a autenticidade artística do conjunto arquitetônico situado em Congonhas do Campo, Minas Gerais, do qual fala o texto, o poeta lança mão, entre outros recursos, do procedimento de