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LiteraturaSLMANDIC2014

Memórias de afasia

Nos últimos anos de sua vida Mateus descobriiu, conternado, que mesmo o seu derradeiro prazer-escrever no diário - lhe havia sido confiscado pela afasia, que nele se manifestava como esquecimento de certas palavras. A coisa foi gradual: a princípio, era, poucos os vocábulos que lhe faltavam. Recorrendo porém, acentuou-se o, e o desgosto por este gerado. Foi então que ele começou a deixar em Branco os espaços que não consegue preencher. Era com fascinação que comtemplava esses vazios em meio ao; tinha certeza de que as letras ali estavm, como se traçadas com tinta invísivel por mão também invísivel.
Essa existência virtual das palavras também não o afligia, pelo contrário; sabia que o é tão importante quanto o não. No território da afasia ele encontrava agora uma pátria. Ali recuperaria o seu passado perdido. Ali se uniria definitivamente à aquela que fora seu grande amor, uma linda moça chamada.

(SCLIAR, Moacyr. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 437.

Acerca da obra ficcional de Moacyr Sciliar, foram feitas as seguintes considerações:

I. Formando em medicina, o escritor gaúcho valia-se, em seus contos, da experiência clínica que acumulara criando um galeria de personagens enfermos cujos problemas de saúde eram mostrados como foco central do enredo, sempre com um toque de humor ou ironia.

II. de origem judaíca, o escritor recentemente falecido deixou uma série de contos nos quais apresenta uma releitura paródica de célebre eventes bíblicos, retratando, em situações prosaicas e tragicômicas, personagens míticas ou históricas do Velho Testamento.

III. Reconhecido por sua capacidade inventiva, o produtivo escritor soube adequar, sobretudo nos contos, a forma ao conteúdo tratado, por vezes traduzindo em traços de estilo as características da personalidade de seus narradores ou protagonistas.

Para compor uma adequada análise crítica do conto "Memórias de afasia", é correto utilizar apenas:

LiteraturaUNICID2021

TEXTO

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
[5] Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações

[e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
[10] fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas

[sem ênfase.

[...]

[15] Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do

[tráfego.

Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
[20] garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

[25] Sento-me no chão da capital do país às cinco horas
[da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças

[avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar,

[galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o

[ódio.

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. A flor e a náusea. Poesia e Prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguiar, 1979. p.161.

Para Bráulio Bessa, poeta nordestino contemporâneo, “Ser poeta é ser um prestador de atenção do sentimento alheio.” Drummond, poeta mineiro da segunda fase do Modernismo, reitera o conceito anteriormente expresso por Bráulio em seu poema “A flor e a náusea”, à medida que

LiteraturaUCS2012

Para as afirmações que seguem, considere a obra Manual da paixão solitária, de Moacyr Scliar. I Há uma alternância em relação ao ponto de vista narrativo da história, que ora é contada em primeira, ora em terceira pessoa. II Er, irmão de Shelá, escreve seu manual da paixão solitária em uma caverna, que lhe serve de refúgio para curar suas angústias. III O contexto inicial da estrutura da narrativa é o Congresso de Estudos Bíblicos, no qual se encontram o professor Haroldo Veiga de Assis e a historiadora Diana Medeiros. Das afirmativas acima, pode-se dizer que

LiteraturaPUC-Campinas2010

(...) plebe tão em extremo plebe, que só ela o pode ser da que se repute e mais infame, e o é de todas as plebes, por comporse de índios, de negros, criolos e boçais de diferentes nações, de chineses, de mulatos, de "zambaigos"*, e também de espanhóis que, declarando-se "zaramullos" (que é o mesmo que pícaros, grosseiros e "arrebatacapas") e degenerando de suas obrigações, são os piores entre canalhas tão ruins. *Filho de mulato e ameríndia

(Carlos Sigüenza y Góngora. Relaciones históricas. México: Biblioteca del Estudiante Universitário, UNAM, 1972, p. 133 Apud Angel Rama. A cidade das letras. Trad. Emir Sader. SP: Brasiliense, 1984, p. 57)

Para alcançar os efeitos da sátira, e atendendo ainda a características do estilo barroco, Gregório de Matos valia-se com frequência de

LiteraturaFGV-SP2013

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,

Em meus versos teu nome celebrado;

Por que vejas uma hora despertado

O sono vil do esquecimento frio:

Não vês nas tuas margens o sombrio,

Fresco assento de um álamo copado;

Não vês ninfa cantar, pastar o gado

Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo banhando as pálidas areias

Nas porções do riquíssimo tesouro

O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o planeta louro

Enriquecendo o influxo em tuas veias,

Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

Cláudio Manuel da Costa, Obras.

Para a correta compreensão do poema, é necessário saber que o sujeito de “Leia” (verso 1) é

LiteraturaFAMERP2015

Leia o poema de Fernando Pessoa para responder à questão.

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

(Obra poética, 1984.)

Para a correta compreensão da terceira estrofe, deve-se entender que o sujeito de “Gira” é

LiteraturaPUC-Campinas2017

(...) o romantismo no Brasil não foi apenas um projeto estético, mas também um movimento cultural e político, profundamente ligado ao nacionalismo. Diferente do movimento alemão de finais do século XIX, tão bem descrito por Norbert Elias, o nacionalismo brasileiro, pintado com as cores do lugar, partiu sobretudo das elites cariocas, que, associadas à monarquia, esforçavam-se em chegar a uma emancipação em termos culturais. Os temas eram nacionais, mas a cultura, em vez de popular, era cada vez mais palaciana (...). Atacados de frente por um historiador como Varhagen, que os chamava de “patriotas caboclos”, os indianistas brasileiros ganharam, porém, popularidade e tiveram sucesso nesse contexto na imposição da representação romântica do indígena como símbolo nacional.

(SCHWARCZ, Lilia Moritz.As barbas do imperador. D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 139-140)

Para a consolidação dos ideais nacionalistas no Brasil recém-emancipado, foi decisiva a iniciativa de José de Alencar,

LiteraturaUNESP2013

Instrução: A questão toma por baseuma passagem da crônica O pai, hoje e amanhã, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

A civilização industrial, entidade abstrata, nem por isso menos poderosa, encomendou à ciência aplicada a execução de um projeto extremamente concreto: a fabricação do ser humano sem pais.

A ciência aplicada faz o possível para aviar a encomenda a médio prazo. Já venceu a primeira etapa, com a inseminação artificial, que, de um lado, acelera a produtividade dos rebanhos (resultado econômico) e, de outro, anestesia o sentimento filial (resultado moral).

O ser humano concebido por esse processo tanto pode considerar- se filho de dois pais como de nenhum. Em fase mais evoluída, o chamado bebê de proveta dispensará a incubação em ventre materno, desenvolvendo-se sob condições artificiais plenamente satisfatórias. Nenhum vínculo de memória, gratidão, amor, interesse, costume – direi mesmo: de ressentimento ou ódio – o ligará a qualquer pessoa responsável por seu aparecimento. O sêmen, anônimo, obtido por masturbação profissional e recolhido ao banco especializado, por sua vez cederá lugar ao gerador sintético, extraído de recursos da natureza vegetal e mineral. Estará abolida, assim, qualquer participação consciente do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade humana. Esta será produzida sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos, que excluem a inútil e mesmo perturbadora intromissão do casal. Pai? Mito do passado.

Aparentemente, tal projeto parece coincidir com a tendência, acentuada nos últimos anos, de se contestar a figura tradicional do pai. Eliminando-se a presença incômoda, ter-se-ia realizado o ideal de inúmeros jovens que se revoltam contra ela – o pai de família e o pai social, o governo, a lei – e aspiram à vida isenta de compromissos com valores do passado.

Julgo ilusória esta interpretação. O projeto tecnológico de eliminação do pai vai longe demais no caminho da quebra de padrões. A meu ver, a insubmissão dos filhos aos pais é fenômeno que envolve novo conceito de relações, e não ruptura de relações.

( De notícias e não notícias faz-se a crônica, 1975.)

Pai? Mito do passado. Esta pergunta e sua resposta, de acordo com o conteúdo da crônica, sintetizam um dos argumentos que, aparentemente, fundamentaram o projeto:

LiteraturaEsPCEx2017

“Se gostas de afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto, não me leias. Quando esse estilo florescia, nasceram as primeiras verduras do meu; mas valeu-me tanto sempre a clareza, que só porque me entendiam comecei a ser ouvido. (…) Esse desventurado estilo que hoje se usa, os que querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro (…) e muito cerrado. É possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?!”

Padre Antônio Vieira, nesse trecho, faz uma crítica ao estilo barroco conhecido como

LiteraturaUnichristus2020

A PENA


Poucos instantes de vida
Me restam, oh! bem o sei
Fiquei vencido na lida
Seja assim, cumpra-se a lei!

Fagundes Varela

Arte literária brasileira. Clenir Bellezi de Oliveira. São Paulo: Moderna: 2000.

A crítica classifica Fagundes Varela como um poeta ultrarromântico pelo predomínio, em sua obra, de temas e imagens dessa tendência: tédio, angústia, desesperança, morbidez, sombras, figuras vaporosas, aparições fantásticas.

Outra característica marcante de sua produção é