Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos sonoros, túmidos de desejo; e no silêncio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça às costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vê-la em colete diante do toucador desfazendo as tranças; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos.
Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.
Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos a Jesus.
– Verá, é muito bonito, de muita devoção! Disse ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.
Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até o meio da face. Queixou-se de insônia, de palpitações.
– E então, gostou dos Cânticos?
– Muito. Orações lindas! respondeu.
Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste – e sem razão, às vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue.
(Eça de Queirós. O crime do padre Amaro.)O trecho em que a ação de uma personagem se demonstra impregnada de determinismo biológico e permite associar o romance de Eça de Queirós ao movimento estético denominado Naturalismo é:
Para responder a questão, considere o seguinte trecho do conto "O fisco (conto de Natal)", publicado em 1921 e integrante do livro Negrinha, de Monteiro Lobato:
Súbito, viu um homem de boné caminhando para o seu lado. Olhou-lhe para as botinas. Sujas. Víria engraxar, com certeza - e o coração bateu-lhe apressado, no tumulto delicioso da estreia. Encarou o homem já a cinco passos e sorriu com infinita ternura nos olhos, num agradecimento antecipado em que havia tesouro de gratidão.
Mas em vez de espichar o pé, o homem rosnou aquela terrível interpelação inicial.
- Então, cachorrinho, que é da licença?
O trecho em destaque apresenta um episódio ocorrido em um parque. No contexto da narrativa, a cena ilustra:
Quem conta um conto...
Eu compreendo que um homem goste de ver brigar galos ou de tomar rapé. O rapé dizem os otimistas que alivia o cérebro. A briga de galos é o jóquei-clube dos pobres. O que eu não compreendo é o gosto de dar notícias.
E todavia quantas pessoas não conhecerá o leitor com essa singular vocação? O noveleiro não é tipo muito vulgar, mas também não é muito raro. Há família numerosa deles. Alguns são mais peritos e originais que outros. Não é noveleiro quem quer. É ofício que exige certas qualidades de bom cunho, quero dizer as mesmas que se exigem do homem de Estado. O noveleiro deve saber quando lhe convém dar uma notícia abruptamente, ou quando o efeito lhe pede certos preparativos: deve esperar a ocasião e adaptar-lhe os meios.
Não compreendo, como disse, o ofício de noveleiro. É coisa muito natural que um homem diga o que sabe a respeito de algum objeto; mas que tire satisfação disso, lá me custa a entender. Mais de uma vez tenho querido fazer indagações a este respeito; mas a certeza de que nenhum noveleiro confessa que o é, tem impedido a realização deste meu desejo. Não é só desejo, é também necessidade; ganha-se sempre em conhecer os caprichos do espírito humano.
ASSIS, Machado. Quem conta um conto... In: RAMOS, Ricardo (org.) A palavra é... Humor. São Paulo: Editora Scipione, 1989. p. 08 – 28. (trecho).
O trecho do texto de Machado de Assis fala de uma figura muito comum em sua época: o noveleiro. De acordo com o texto, a palavra noveleiro se refere a uma pessoa que
Texto para aquestão.
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
[...]
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
O trecho do poema revela que o autor
As quadras abaixo fazem parte de um poema de Gregório de Matos, representante do barroco:
“Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade,
Madrasta dos naturais,
e dos estrangeiros madre:
Dizei-me por vida vossa
Em que fundais o ditame
De exaltar os que aqui vêm,
E abater os que aqui nascem? [...]
(Disponível em: <http://www.slideshare.net/osmarvalente/seleode-obras-poticas-ii-gregrio-de-matos>. Acesso em: 03 set. 2013.I. Por meio da personificação, o poeta refere-se à cidade da Bahia com ela dialogando.
II. O poeta indianista Gregório de Matos defende o direito dos índios, como ele fez em grande parte de sua obra.
III. Nascido na Bahia, o poeta manifesta repulsa aos nobres portugueses, exploradores da cidade da Bahia.
O trecho do poema comprova apenas o que se afirma em:
TEXTO 4
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer, e, realmente expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... E caem! – Folhas misérrimas do meu cipestre, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar...
(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.)
O trecho de Machado, um dos maiores representantes da literatura brasileira, revela certa intertextualidade com a literatura do período:
Baleia, imóvel, paciente, olhava os carvões e esperava que a família se recolhesse. Enfastiavaa o barulho que Fabiano fazia. No campo, seguindo uma rês, se esgoelava demais. Natural. Mas ali, a beira do fogo, para que tanto grito? Fabiano estava-se cansando à toa. Baleia se enjoava, cochilava e não podia dormir. Sinha Vitória devia retirar os carvões e a cinza, varrer o chão, deitarse na cama de varas com Fabiano. Os meninos se arrumariam na esteira, por baixo do caritó, na sala. Era bom que a deixassem em paz. O dia todo espiava os movimentos das pessoas, tentando adivinhar coisas incompreensíveis. Agora precisava dormir, livrar-se das pulgas e daquela vigilância a que a tinham habituado. Varrido o chão com vassourinha, escorregaria entre as pedras, enroscarse-ia, adormeceria no calor, sentindo o cheiro das cabras molhadas e ouvindo rumores desconhecidos, o tique-taque das pingueiras, a cantiga dos sapos, o sopro do rio cheio. Bichos miúdos e sem dono iriam visitá-la.
Graciliano Ramos, Vidas secas.O trecho citado revela a visão do ambiente, em que transcorre a ação, do ponto de vista da cachorra Baleia. O processo de enfocar um animal, tornado personagem integrante da narrativa, descrevendo seu fluxo de consciência, suas impressões e desejos é chamado
Mas ele olhou, rápido, quando a porta se abriu de repente. Era um americano que vinha pedir-lhe dinheiro para voltar para os Estados Unidos. Estava fugindo de Mitterrand. Rick o ignorou.
VERISSIMO, Luís Fernando. As time goes by. In: O melhor das comédias da vida privada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. p. 71.O trecho citado foi extraído da crônica “As time goes by”, em que o autor relata um suposto encontro em Paris com Rick Blaine, o protagonista do filme clássico Casablanca. Nessa crônica, é possível identificar referênciastanto ao clássico cinematográfico celebrado pelo autor quanto à história contemporânea, quando é sugerido que:
(...) pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil réis.
– Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
– Sim? acudiu ele, dando um bote pra mim.
– Trabalhando, concluí eu. Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes, depois disse-me positivamente que não queria trabalhar.
(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p.158.)
O trecho citado diz respeito ao encontro entre Brás Cubas e Quincas Borba, no capítulo 49, e, mais precisamente, apanha o momento em que Brás dá uma esmola ao amigo. Considerando o conjunto do romance, é correto afirmar que essa passagem
Leia o fragmento a seguir para responder a questão.
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso
[...]
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia quevestia a terra com as primeiras águas.
ALENCAR, José de. Iracema. São Paulo: Ática, 1997. p. 16.O trecho apresentado retrata a protagonista de uma forma engenhosa e