O poema acima NÃO apresenta:
Bolero de Ravel
A alma cativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto,
esquiva ondulação evanescente.
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa,
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador.
O poema acima integra a obra Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade. Da leitura dele NÃO se pode depreender que
Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
O poema acima integra a obra Sentimento do Mundo de Carlos Drummond de Andrade. Dele é INCORRETO concluir que
OS SAPOS
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
–“Meu pai foi à guerra!”
–“Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano, aguado,
Diz: - “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
(...)
(Manuel Bandeira, in: Carnaval, 1919)O poema acima foi declamado por Ronaldde Carvalho em 15.02.1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Tornou-se o hino precursor do Modernismo. Assinale a afirmação FALSA sobre o trecho. O poema:
Aurora, com movimento
A linha móvel do horizonte
Atira para cima o sol em diabolô
Os ventos de longe
Agitam docemente os cabelos da rocha
Passam em fachos o primeiro automóvel, a última estrela
A mulher que avança
Parece criar esferas exaltadas pelo espaço
Os pescadores puxando o arrastão parecem mover o mundo
O cardume de botos na distância parece mover o mar.
O poema acima é de Vinícius de Moraes e integra sua obra denominada Antologia Poética. Dele, é INCORRETO afirmar que
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no banguê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
- Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
(...)
Essa negrinha Fulô
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!
O poema acima é de autoria de Jorge de Lima, poeta alagoano e um dos principais representantes da segunda geração da poesia modernista. No poema, podemos destacar características dessa geração de poetas, como: 1) a opção por uma linguagem despretensiosa, bem próxima dos padrões coloquiais. 2) uma interlocução dialógica, mesmo que não esteja evidente a participação do interlocutor. 3) ainda que o cenário sugira uma situação de desigualdade social, pode-se ver no uso dos diminutivos uma atitude de carinho. 4) fidelidade à sintaxe lusitana, reforçando os ideais da primeira geração dos poetas modernistas. Estão corretas:
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
***
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
***
João Cabral de Melo NetoO poema (aqui reproduzido sem o título e apenas parcialmente) elenca aspectos marcantes da obra de um escritor brasileiro, cujo nome corresponde ao próprio título do texto. Deduz-se corretamente, da leitura do excerto, que se trata de
Analise o poema que segue e responda:
Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora
das Maravilhas, a quem infiéis despedaçaram.
Gregório de MatosO todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.
Em todo o sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas deste todo.
O poema (ao lado) de Gregório de Matos, representante do Barroco brasileiro, cujo nascimento se deu em decorrência da crise do Renascimento, que se deu pelas fortes divergências religiosas e imposições do catolicismo, representa:
“No deserto de Itabira
a sombra de meu pai
tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Suspiro? Voo de pássaro?
Porém nada dizia.
Longamente caminhamos.
Aqui havia uma casa.
A montanha era maior.
Tantos mortos amontoados,
o tempo roendo os mortos.
E nas casas em ruína,
desprezo frio, umidade.
Porém nada dizia.
A rua que atravessava
a cavalo, de galope,
seu relógio. Sua roupa.
Seus papéis de circunstância.
Suas histórias de amor.
Há um abrir de baús
e de lembranças violentas.
Porém nada dizia.
No deserto de Itabira
as coisas voltam a existir,
irrespiráveis e súbitas.
O mercado de desejos
expõe seus tristes tesouros;
meu anseio de fugir;
mulheres nuas; remorso.
Porém nada dizia.” (...)
(ANDRADE, C.D. “Viagem na família”. José. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p. 72)O poema “Viagem na família”, de CarlosDrummond de Andrade, é uma investigação poderosa nos subterrâneos de uma tradicional família no interior de Minas Gerais, onde o contato com o passado se revela por meio de imagens provocantes, desvelando marcas de uma consciência poética muito sensível. No final de cada estrofe, a repetição terrível do silêncio do fantasma paterno, que precisa ser decifrado, mas o que ela sugere:
Leia o poema a seguir.
VERSOS ÍNTIMOS
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Pau d'Arco, 1901.
ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 4. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 94-95.O poema “Versos íntimos” explora uma temática recorrente na poética de Augusto dos Anjos, a qual se expressa na