Leia os fragmentos do poema abaixo.
Romance de Itapoã
[…]
— Ó conchas, dizei-nos
que par era o par
entrando na igreja
para se casar?
— Foi um senhor nobre
daqui do lugar.
E a moça de encanto
assim singular,
a afogar-se em rendas
de um branco lunar,
não veio das nuvens
e nem de além-mar.
Eu vos digo: era ela
a bela Guiomar.
Não se vira nunca
um mais puro olhar
do que o dela quando
chegava ao altar.
E por muito tempo
não se ouviu contar
que houvesse entre os homens
outro similar
a mostrar no porte
força de um jaguar
e que assim tivesse
majestades no ar,
como era o marido
da bela Guiomar.
[...]
— Dizei-nos, ó conchas,
onde foi parar
depois o marido
da bela Guiomar.
— Ninguém nunca soube,
nem se ouviu contar.
Deixou a Bahia
sem que terra ou mar
mostrasse num rastro
o que pôde o azar
dentre os rumos tantos
um rumo lhe dar.
[…]
SOUSA, Afonso Felix de. Nova antologia poética. Goiânia: Cegraf/UFG, 1991. p. 84-86.O poema “Romance de Itapoã”, do qual foram extraídos osfragmentos acima, forma com “Toada Goiana”, “O poço da roda”, “Toada do enjeitado”, “A noiva do sobrado” e “A moça de Goiatuba” uma série cuja unidade é conferida pela
Leia os trechos do poema “Profissão de fé”, de Olavo Bilac, para responder a questão.
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.
[…]
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
[…]
E horas sem conto passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.
Porque o escrever — tanta perícia,
Tanta requer,
Que ofício tal… nem há notícia
De outro qualquer.
Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!
O poema “Profissão de fé” é típico de um movimento literário que, entre suas características, propõe
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi‐las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via‐láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê‐las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
(BILAC, Olavo. Poesia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1957.)O poema “Ora (direis) ouvir estrelas” de Olavo Bilac é um dos mais famosos do período literário no Brasil referente ao Parnasianismo. Acerca do poema transcrito, assinale a alternativa correta.
Leia o poema de Murilo Mendespara responder à questão.
Poema de além-túmulo
Deste horizonte estável
Vejo homens e bichos combatendo
Ao mesmo tempo pela guerra e pela paz,
Vejo campos de sangue e ossadas,
Faixas de terror:
Mas vejo essencialmente uma coisa branca,
Um castelo branco e simples
Feito de um só diamante
Que da terra não se vê.
O poema
Depois vai o Sem-Pernas. [...] Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no lombo de madeira. Os lábios estão apertados, seus ouvidos não ouvem a música da pianola. Só vê as luzes que giram com ele e prende em si a certeza de que está num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e fecha os olhos para guardar melhor esta certeza. Já não vê os soldados que o surraram, o homem de colete que ria. Volta Seca os matou na sua corrida. O Sem-Pernas vai teso no seu cavalo. É como se corresse sobre o mar para as estrelas na mais maravilhosa viagem do mundo. [...] Seu coração bate tanto, tanto, que ele o aperta com a mão.
Jorge Amado, Capitães da Areia.
O personagem Sem-Pernas, apelido de um dos meninos que moram no trapiche, representa uma realidade social que direciona os menores à delinquência, por falta de oportunidades e condições de uma vida regular, sob a proteção da família. Assim formou-se o grupo que passa a praticar pequenos crimes, formado por personagens
De repente voltou-me a ideia de construir o livro. (...)
Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar (...).
Às vezes, entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me ajeito com
esta ocupação nova.
[5] Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável
esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto
e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto.
Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. (...) Não tenho doença nenhuma.
O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem
[10] objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão
que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada.
Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê!
Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo,
procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que
[15] estupidez! (...)
Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego,
vendedor de doce e trabalhador alugado. Estou convencido de que nenhum desses ofícios me daria os
recursos intelectuais necessários para engendrar esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de
otimismo suponho que há nela pedaços melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a mestre
[20] Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a
farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade
que me envaidece é bem mesquinha.
(...)
Quanto às vantagens restantes – casas, terras, móveis, semoventes, consideração de políticos, etc. – é
preciso convir em que tudo está fora de mim.
Julgo que me desnorteei numa errada.
GRACILIANO RAMOS São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2004.O personagem reclama de uma vida na qual se dedicou a ações que agora vê como negativas. Essas ações estão melhor descritas em:
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste. E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever. Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 27. ed. Rio de Janeiro: Record, 1977. p. 92.O personagem narrador
A revista Veja usa o recurso da animalização ao associar o político corrupto ao rato. Esse mesmo recurso foi usado por Graciliano Ramos em seu romance Angústia.
O personagem Luís da Silva, narrador em primeira pessoa, fala de forma subjetiva sobre como enxerga o mundo e a si mesmo. Um trecho do romance que mostra a animalização do personagem a se autodescrever é:
O personagem central dos romances que formam o “Ciclo-da-cana-de-açúcar”, de José Lins do Rego, é o advogado Carlos de Melo. Sobre esse personagem, é coreto afirmar.
Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou daí a tempos... Não, não hei de contá-lo nesta página; fique esse capítulo para repouso do meu vexame. Uma ação grosseira, baixa, sem explicação possível... Repito, não contarei o caso nesta página.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.O personagem central da narrativa, da qual se extrai o texto citado, é um homem