Lenda brasileira
A moita buliu. Bentinho Jararaca levou a arma à cara: o que saiu do mato foi o Veado Branco! Bentinho ficou pregado no chão. Quis puxar o gatilho e não pôde.
- Deus me perdoe!
Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo, parou junto do caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.
Libertinagem. Manuel Bandeira.
No poema, quais procedimentos modernistas podemos perceber?
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau de arara.
Quero, por isso, falar com você
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio esta aí matando
[...]
Homem comum, igual
a você,
[...]
Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonhos e margaridas.
FERREIRA GULLAR. Dentro da noite veloz. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 (fragmento).No poema, ocorre uma aproximação entre a realidade social e o fazer poético, frequente no Modernismo. Nessa aproximação, o eu lírico atribui à poesia um caráter de
TEXTO:
Idade madura
As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras
nem delas careço.
5 Tenho todos os elementos
ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
10 Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.
[...]
Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
15 descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não
[via.
Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
20 em ruas extremamente dispersas,
transito no canto do homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um
[número de casa,
e ganho.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Idade madura. In: Reunião: 10 livros de poesia. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 121-123.No poema, o sujeito lírico
Leia o poema a seguir para responder à questão.
Canção
Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar;
- depois, abrio mar com as mãos,
Para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas entreabertas,
E a cor que escorre de meus dedos
Colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
Anoite se curva de frio;
Debaixo da água vai morrendo
Meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
Para fazer com que o mar cresça,
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça.
No poema, o mar sobre o qual o sujeito lírico fala metaforiza a palavra
Leia o poema para responder à questão.
Lamenta um desengano inesperado
Tenta em vão temerária conjectura
Sondar o abismo do invisível Fado,
Que, de umbrosos mistérios enlutado,
Some aos olhos mortais a luz futura:
Presumia (ai de mim!) vendo a ternura
Daquela, que me trouxe enfeitiçado,
Presumia que Amor tinha guardado
Nos braços do meu bem minha ventura:
Oh Terra! Oh Céu! Mentiram-me os brilhantes
Olhos seus, onde achei suave abrigo;
Quão fáceis de enganar são os amantes!
Humanos, que seguis as leis que sigo,
Vós, corações, que ao meu sois semelhantes,
Ah! Comigo aprendei, chorai comigo.
No poema, o eu lírico traz como tema
Leia o poema de Fernando Pessoa para responder à questão.
Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-’star que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.
Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.
Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.
Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.
Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.
No poema, o eu lírico sente-se
Importuna Razão, não me persigas
Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura,
Se a lei de Amor, se a força da ternura,
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas.
Se acusas os mortais, e os não obrigas,
Se, conhecendo o mal, não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura;
Importuna Razão, não me persigas.
É teu fim, teu projeto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.
Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
(Poesia Arcádica, 1985.)No poema, o eu lírico revela-se
Leia o poema Romance da piracema, em que o escritor Elson Farias, integrante do Clube da Madrugada, refere-se, como Tarsila do Amaral, à vida de pescadores.
Espumas de ardente brilho
era o verão que se abria.
Não há maior maravilha.
Ver o rio bem é ver
o rio vibrar de peixes.
De um lado ao outro as canoas
cruzam no centro os cardumes,
as tarrafas se desprendem
dos braços dos pescadores,
se desprendem como círculos
e voltam cheias de peixe.
Ah, a fartura infindável
desses dias de novembro!
Ter um peixe dentre os dedos
é sentir a vida inteira,
é como o abrir da janela
para o sol, a manhã vinda,
é como o acordar das trevas
de uma noite que não finda.
Há pescadores de nome
que nesse tempo se alargam
na fama que as bocas levam
de casa em casa. Os paneiros
se abarrotam e as panelas
trescalam de cheiro-verde,
ardem de pimenta e sal
todo dia nesses meses.
O rio brilha de peixes
como um bloco de alumínio,
[...]
É tempo de muito peixe,
fartura de festa, a fome
deixa o corpo de quem come.
Não há casa que não tenha
o fogão cheio de lenha,
em qualquer casa que se entre
há na trempe peixe-sempre.
Vale viver dia a dia
esses dias de alegria.
No poema, o eu lírico expressa sua
Leia o poema de Luís de Camões para responder à questão
Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;
sem causa, justamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
num´hora acho mil anos, e é jeito
que em mil anos não posso achar um´hora.
Se me pergunta alguém por que assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
(Sonetos de Camões, 2007.)
No poema, o eu lírico diz estar
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.
(Melhores poemas, 2000.)No poema, o eu lírico defende um amor