Indiscrição
Um dia perguntei
a uma flor no mato:
Qual é o teu amor?
E a flor me respondeu:
o meu amor é o Sol.
Um dia perguntei
a um peixe no mar:
Qual é o teu amor?
E o peixe respondeu:
o meu amor é a água...
Um dia perguntei
a um pássaro volante:
Qual é o teu amor?
E o pássaro respondeu:
o meu amor é o espaço.
Um dia alguém me perguntou:
Qual é o teu amor?
A alguém eu respondi:
eu tenho dois amores
unidos num só corpo!
o meu povo e a liberdade!
No poema, o eu lírico associa suas representações do amor à
Leia o soneto para responder à questão.
Desenganos da vida humana metaforicamente
É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.
É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.
É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:
Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
No poema, o eu lírico afirma que
Leia o soneto de Luís Vaz de Camões para responder a questão.
Erros meus, má fortuna1amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram2,
que para mim bastava o amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse3
este meu duro gênio4 de vinganças!
No poema, o eu lírico afirma que
Leia trecho do poema de Olavo Bilac.
Língua Portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
No poema, o eu lírico
Leia o poema de Pedro Tierra para responder à questão.
Fui assassinado.
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.
Meus olhos em sangue
Testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.
Tornei-me mineral
memória da dor.
Para sobreviver,
recolhi das chagas do corpo
a lua vermelha de minha crença,
no meu sangue amanhecendo.
[...]
Porque sou o poeta
dos mortos assassinados,
dos eletrocutados, dos “suicidas”,
dos “enforcados” e “atropelados”,
dos que “tentaram fugir”,
dos enlouquecidos.
Sou o poeta
dos torturados,
dos “desaparecidos”,
dos atirados ao mar,
sou os olhos atentos
sobre o crime.
No poema, o eu lírico
CRUCIFIXO
É um crucifixo de marfim
Ligeiramente amarelado,
Pátina do tempo escoado.
Sempre o vi patinado assim.
Mãe, irmã, pai meus estreitado
Tiveram-no ao chegar o fim.
Hoje, em meu quarto colocado,
Ei-lo velando sobre mim.
E quando se cumprir aquele
Instante, que tardando vai,
De eu deixar esta vida, quero
Morrer agarrado com ele.
Talvez me salve. Como – espero –
Minha mãe, minha irmã, meu pai.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 270.No poema, o eu lírico
Analise o poema de Luís Vaz de Camões.
A D. Guiomar de Blasfé, queimando-se com ũa vela no rosto.
Amor, que todos ofende,
Teve, Senhora, por gosto
Que sentisse o vosso rosto
O que nas almas acende.
Aquele rosto que traz
O Mundo todo abrasado,
Se foi da flama tocado,
Foi por que sinta o que faz.
Bem sei que Amor se lhe rende;
Porém o seu pressuposto
Foi sentir o vosso rosto
O que nas almas acende.
No poema, o eu lírico
Leia o trecho inicial do poema “Ode triunfal”, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), para responder à questão.
À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
No poema, o cenário é descrito
Do cuidado com a forma
Teu verso, barro vil.
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule...
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule!
QUINTANA, M. https://books.google.com.brNo poema, Mário Quintana faz uma releitura irônica ao criticar um dos princípios da poesia parnasiana, ou seja, o(a)
Voz do Outono
Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
– “Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão1,
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa2,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!
Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba3 vária,
(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!” –
(Antero de Quental. Antologia, 1991.)No poema, a voz da Natureza diz ao coração do eu lírico que é