Ponto morto
A minha primeira mulher
se divorciou do terceiro marido.
A minha segunda mulher
acabou casando com a melhor amiga dela.
A terceira (seria a quarta?)
detesta os filhos do meu primeiro casamento.
Estes, por sua vez, não suportam os filhos
do terceiro casamento da minha primeira mulher.
Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.
Estava sozinho
quando um dos meus filhos acenou para mim no
meio do engarrafamento.
A memória demorou para engatar seu nome.
Por segundos, a vida parou em ponto morto.
No poema, a singularidade da situação representada é efeito da correlação entre
Leia o poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa.
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Disponível em http://www.jornaldepoesia.jor.br/fpesso03.html.)
No poema, a apóstrofe, uma figura de linguagem, indica que o enunciador
Leia o poema a seguir.
HINO À DOR
Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam.
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas...
E, assim, sem convulsão que me alvorece,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
Na poética de Augusto dos Anjos, é frequente a atribuição de um caráter positivo a imagens comumente consideradas negativas.
No poema transcrito, ocorre a atribuição de um valor positivo para a dor, pois o eu lírico
Leia o poema a seguir.
PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância.
Sobe-me à boca uma ânsia, análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Situada no contexto do Pré-Modernismo, a poesia de Augusto dos Anjos revela a influência de diferentes tendências artísticas, constituindo-se numa mescla de tradições retomadas e inovações anunciadas.
No poema transcrito, essa mescla se manifesta na
Leia o poema apresentado a seguir.
Minha desgraça
Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.
AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. In: Obra completa. Organização Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. p. 245-246.No poema transcrito, a reflexão de caráter metalinguístico,expressa de forma satírica pelo eu lírico, desconstrói a
O sedutor médio
Vamos juntar
Nossas rendas e
expectativas de vida
querida, o que me dizes?
Ter 2, 3 filhos
e ser meio felizes?
VERÍSSIMO, L. F. Poesia numa hora dessas?! Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.No poema O sedutor médio, é possível reconhecer a presença de posições críticas
Analise o fragmento de um poema, transcrito abaixo.
Procura da poesia
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
[...]
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
E te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
O ‘como fazer poesia’ constitui também um tema sobre o qual se debruçaram e se debruçam os autores. Cada poeta é cativo dos cânones de sua escola literária; uns mais, outros menos.
No poema mostrado acima, Drummond:
INSTRUÇÃO: Considere o seguinte poema de Adélia Prado para responder à questão.
A sempre-viva
Gostava de cantar A flor mimosa:
―Nas pétulas de ouro
que esta flor ostenta...‖
Pétula, a palavra errada,
[5] agulha no coração,
uma certa vergonha,
culpa por lhe ter dito:
é pétala, pai, é pétala.
Ah! Pois venho cantando errado a vida inteira.
[10] Que vale esta lembrança?
Cinquenta anos já e a agulha tornada faca,
sua lâmina ainda vibra.
É excruciante o amor,
mas por nada no mundo trocarei sua pena.
No poema em questão,
PERGUNTAS EM FORMA DE CAVALO-MARINHO
Que metro serve
para medir-nos?
Que forma é nossa
e que conteúdo?
Contemos algo?
Somos contidos?
Dão-nos um nome?
Estamos vivos?
A que aspiramos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?
(Nunca se finda
nem se criara.
Mistério é o tempo
inigualável.)
Claro enigma é um livro fruto da fase mais madura de Carlos Drummond de Andrade.
No poema em análise, observamos uma das grandes características do livro, indicada na alternativa:
No poema de Sophia de Melo Brayner Andresen,