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LiteraturaENEM2010

Açúcar

O branco açúcar de adoçará meu café

Nesta manhã de Ipanema

Não foi produzido por mim

Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

[...]

Em lugares distantes,

Onde não há hospital,

Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome

Aos 27 anos

Pintaram e colheram a cana

Que viraria açúcar.

Em usinas escuras, homens de vida am amarga

E dura

Profuziram este açúcar

Branco e puro

Com que adoço meu café esta manhã

Em Ipanema.

GULLAR, F. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980 (fragmento).

A Literatura Brasileira desempenha papel importante ao suscitar reflexão sobre desigualdades sociais.

No fragmento, essa reflexão ocorre porque o eu lírico

LiteraturaENEM2020

Viajo Curitiba das conferências positivistas, elas são onze em Curitiba, há treze no mundo inteiro: do tocador de realejo que não roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo.

Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi? quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo.

Curitiba sem pinheiro ou céu azul, pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar –, esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.

TREVISAN, D. Em busca de Curitiba perdida Rio de Janeiro Record, 1992.

A tematização de Curitiba é frequente na obra de Dalton Trevisan.

No fragmento, a relação do narrador com o espaço urbano é caracterizada por um olhar

LiteraturaENEM2021

O Bom-Crioulo

Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos.

[…]

A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes que apanhara de chibata...

[…]

Entretanto, já iam cinquenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.

[…]

Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.

— Cento e cinquenta!

Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue.

CAMINHA, A. O Bom-Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2006.

À prosa naturalista incorpora concepções geradas pelo cientificismo e pelo determinismo.

No fragmento, a cena de tortura a Bom-Crioulo reproduz essas concepções, expressas pela

LiteraturaPUC-Campinas2012

1

[1] Meu avô não gostava de falar do passado. O que

não é de estranhar, ao menos em relação ao que

interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao

Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para

[5] quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou

trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo

de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão

ainda pior que aquela onde você esteve.

2

[1] Nos cadernos do meu avô não há qualquer

menção a essa viagem. Não sei onde ele embarcou, se

ele arrumou algum documento antes de sair, se tinha

dinheiro ou alguma indicação sobre o que encontraria

[5] no Brasil. Não sei quantos dias durou a travessia, se

ventou ou não, se houve uma tempestade de

madrugada [...].

(São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 8)

No fragmento,

LiteraturaENEM2017

Dois parlamentos

Nestes cemitérios gerais
não há morte pessoal.

Nenhum morto se viu

com modelo seu, especial.

Vão todos com a morte padrão,

em série fabricada.

Morte que não se escolhe

e aqui é fornecida de graça.

Que acaba sempre por se impor

sobre a que já medrasse.

Vence a que, mais pessoal,

alguém já trouxesse na carne.

Mas afinal tem suas vantagens

esta morte em série.

Faz defuntos funcionais,

próprios a uma terra sem vermes.

MELO NETO, J. C. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 (fragmento).

A lida do sertanejo com suas adversidades constitui um viés temático muito presente em João Cabral de Melo Neto.

No fragmento em destaque, essa abordagem ressalta o(a)

LiteraturaCESMAC2017

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não catarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

Não direi os suspiros ao anoitecer (...),

não fugirei para as ilhas, nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens

presentes, a vida presente.

(Carlos Drummond de Andrade)

No fragmento do poema transcrito acima, podemos identificar algumas características do Modernismo brasileiro, tais como:

LiteraturaFDV2014

Versos à boca da noite

Sinto que o tempo sobre mim abate

sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...

Uma aceitação maior de tudo,

e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?

Darei aos outros a ilusão de calma?

Serei sempre louco? sempre mentiroso?

Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.

Ainda criança, já me atormentava.

Hoje estou só. Nenhum menino salta

de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!

Usar de novo minha adoração,

meu grito, minha fome...Vejo tudo

impossível e nítido, no espaço.

[...]

(ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia Completa. São Paulo: Nova Aguilar, 2001. p.192)

No fragmento do poema citado acima, o sujeito lírico:

LiteraturaENEM2015

O peru de Natal

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

ANDRADE, M. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. São Paulo: Objetiva, 2000 (fragmento).

No fragmento do conto de Mário de Andrade, o tom confessional do narrador em primeira pessoa revela uma concepção das relações humanas marcada por

LiteraturaENEM2020

Seixas era homem honesto; mas ao atrito da secretaria e ao calor das salas, sua honestidade havia tomado essa têmpera flexível da cera que se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição.

Era incapaz de apropriar-se do alheio, ou de praticar um abuso de confiança; mas professava a moral fácil e cômoda, tão cultivada atualmente em nossa sociedade.

Segundo essa doutrina, tudo é permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que se transija com a lei e evite o escândalo.

ALENCAR, J. Senhora. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 out. 2015.

A literatura romântica reproduziu valores sociais em sintonia com seu contexto de mudanças.

No fragmento de Senhora, as concepções românticas do narrador repercutem a

LiteraturaIFRN2017

I JUCA PIRAMA (fragmento)

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi.

Da tribo pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci;

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.

DIAS, Gonçalves. Poemas. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997.

No fragmento de I-Juca Pirama, Texto, predomina a exaltação ao elemento indígena peculiar ao