Soneto
Oh! Páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!...
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!
E que doido que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!
Embora — é meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a existência finda
Pressinto a morte na fatal doença!
A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença.
Perdoa minha mãe — eu te amo ainda!
A produção de Álvares de Azevedo situa-se na década de 1850, período conhecido na literatura brasileira como Ultrarromantismo.
Nesse poema, a força expressiva da exacerbação romântica identifica-se com o(a)
Avis rara
Na caixinha de joia
da menina
faísca um anel
de pedra azul.
Na cabeça aturdida
da menina
faísca uma palavra
mais azul
que a pedrinha
do anel:
avis rara
que a menina
guarda
como guarda
o anel.
Para usar em dia de festa.
GUTIÉRREZ, A. In: Canção da Menina. Fortaleza: UFC– Casa José de Alencar: Programa Editorial, 1997
Nesse poema, a faiscante expressão “avis rara”, cujo uso se associa a dia de festa, remete à
O acendedor de lampiões
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos de acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!
(Jorge de Lima)
Nesse poema modernista há uma referência a um tema caro aos modernistas. Assinale-o.
Texto para aquestão
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da
[Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
Manuel Bandeira. Libertinagem.
Nesse poema de Bandeira, manifesta-se com bastante ênfase um aspecto temático amplamente considerado pela crítica como um dos mais característicos da poesia do autor, considerada em seu conjunto. Trata-se da
é muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiro de obras
em repouso
recuo súbito da trama
(CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013).
Nesse poema de Ana Cristina Cesar, é possível observar
“Falta de criação. Tinha lá culpa? O sarapatel se formara. O
cabo abrira caminho entre os feirantes que se apertavam
em redor: “Toca pra frente”. Depois surra e cadeia, por causa
de uma tolice. Ele, Fabiano, tinha sido provocado. Tinha ou
não tinha? Salto de reiúna em cima da alpercata.
Impacientara-se e largara o palavrão. Natural xingar a mãe
de uma pessoa não vale nada, porque todo mundo logo vê
que a gente não tem a intenção de maltratar ninguém. Um
ditério sem importância.”
Vidas Secas é uma obra que ocupa relevante importância no Modernismo brasileiro.
Nesse livro, como ilustra o trecho acima, as inovações no campo da linguagem podem ser definidas da maneira que está expressa em
O mulato
Ana Rosa cresceu; aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais ao violão e ao piano. Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de agulha; bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que fazia gosto de ouvir
Uma só palavra boiava à superfície dos seus pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia, transformandose em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Ideia parasita, que estrangulava todas as outras ideias.
— Mulato!
Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; as reticências dos que lhe falavam de seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue.
AZEVEDO, A. O Mulato. São Paulo: Ática, 1996 (fragmento).O texto de Aluísio Azevedo é representativo do Naturalismo, vigente no final do século XIX.
Nesse fragmento, o narrador expressa fidelidade ao discurso naturalista, pois
O laço de fita
Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos de moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.
[...]
Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.
Exemplo da lírica de temática amorosa de Castro Alves, o poema constrói imagens caras ao Romantismo.
Nesse fragmento, o lirismo romântico se expressa na
Leia atentamente este trecho do livro “O Guarani”, de José de Alencar.
Peri, com o seu arco, companheiro inseparável e arma terrível na sua mão destra, sentava-se longe, à beira do rio, numa das pontas mais altas do rochedo ou no galho de alguma árvore e não deixava ninguém aproximar-se num raio de vinte passos do lagar onde as moças se banhavam.
Nesse fragmento, o emprego de vírgulas para isolar as expressões “com o seu arco” e “companheiro inseparável e arma terrível na sua mão destra” é
Leia o fragmento do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1988, p. 29).
Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras; o próprio “Tangolomango” o era também. Tornava-se, portanto, preciso arranjar alguma coisa própria, original, uma criação da nossa terra e dos nossos ares. Essa ideia levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma ideia traz outra, logo ampliou o seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de relações, de cumprimentos, de cerimônias domésticas e festas, calcado nos preceitos tupis.
Nesse fragmento, compreende-se que a preocupação central do protagonista, a qual se estende por toda a narrativa, é a de