Atente para este trecho do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector:
Pretendo, como já insinuei, escrever de modo mais simples. Aliás o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre as personagens são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.
Explicita-se aqui o seguinte traço de boa parte da ficção dessa autora:
Homens da Inglaterra, por que arar
Para os senhores que vos mantêm na miséria?
Por que tecer com esforço e cuidado
As ricas roupas que vossos tiranos vestem?
(...)
Semeai - mas que o tirano não colha.
Produzi riqueza – mas que o impostor não a guarde.
Tecei roupas – mas que o ocioso não as vista.
Forjai armas - que usareis em vossa defesa.
(Trechos do poema “Aos Homens da Inglaterra”, de Shelley (1792-1822) In Leo Huberman. História da riqueza do homem. Trad. 18 ed. RJ: Zahar, 1982, p. 206)Exercem papel fundamental, nesses versos de Shelley, elementos temáticos e recursos literários que também se encontram na poesia de Castro Alves: I. indignação com o estado de servidão da criatura; II. emprego de vocativo e de apóstrofes, com função dramática; III. emprego de imperativos, com sentido convocatório; IV. paralelismos sintáticos, como forma de composição. Atende ao enunciado o que está em
Leia o poema a seguir.
SONETO
Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!
Além um Espanhol eu vi sorrindo
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fumaça o quarto inteiro.
Parecia de gosto se esvaindo!
Mais longe estava um pobretão careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!
Venturosa indolência! não deliro
Se morro de preguiça... o mais é seca!
Desta vida o que mais vale um suspiro?
AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. São Paulo: FTD, 1994. p. 183.Exemplar da segunda parte de Lira dos vinte anos, o poema transcrito encarna o lado Caliban do poeta, que se manifesta ao empregar a ironia como recurso para expressar
“Carpe Diem” quer dizer “Colha a vida”. Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.
ALVES, Rubem. Frases. Disponível em: . Acesso em: 10 jun. 2018.Exclui-se dos recursos usados na composição desse pensamento de Rubem Alves o indicado na alternativa
Examine as seguintes afirmações relativas a romances brasileiros do século XIX, nos quais a escravidão aparece e, em seguida, considere os três livros citados: I. Tão impregnado mostrava-se o Brasil de escravidão, que até o movimento abolicionista pode servir, a ela, de fachada. II. De modo flagrante, mas sem julgamentos morais ou ênfase especial, indica-se a prática rotineira do tráfico transoceânico de escravos. III. De modo tão pontual quanto incisivo, expõe-se o vínculo entre escravidão e prática de tortura física. A. Memórias de um Sargento de Milícias. B. Memórias Póstumas de Brás Cubas. C. O Cortiço. As afirmações I, II e III relacionam-se, de modo mais direto, respectivamente, com os romances
Texto 1
Última página de “Os Sertões” Canudos não se rendeu Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história,
resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a
palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao
entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que
[5] todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens
feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente
5 mil soldados.
Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos
momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamola
[10] sempre profundamente emocionante e trágica; mas
cerramo-la vacilante e sem brilhos.
Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto,
a par de uma perspectiva maior, a vertigem...
Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a
[15] narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres
precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos
filhos pequeninos...
E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da
palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais,
[20] desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na
véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos
entregara, confiante — e a quem devemos preciosos
esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa História?
Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir,
[25] desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.
Texto 2
Os sertões
Marcado pela própria natureza
O Nordeste do meu Brasil
Oh! solitário sertão
De sofrimento e solidão
[5] A terra é seca
Mal se pode cultivar
Morrem as plantas e foge o ar
A vida é triste nesse lugar
Sertanejo é forte
[10] Supera miséria sem fim
Sertanejo homem forte
Dizia o Poeta assim
Foi no século passado
No interior da Bahia
[15] O Homem revoltado com a sorte
do mundo em que vivia
Ocultou-se no sertão
espalhando a rebeldia
Se revoltando contra a lei
[20] Que a sociedade oferecia
Os Jagunços lutaram
Até o final
Defendendo canudos
Naquela guerra fatal
(Escola de samba em Cima da Hora)Euclides da Cunha, o autor de “Os Sertões”, pertencia ao Exército, que venceu a batalha contra os jagunços e habitantes de Canudos. O primeiro parágrafo do texto 1 mostra a vontade do autor de
Leia o texto para responder à questão.
Declarações de Daniel Munduruku
Frequentei a escola durante a ditadura militar, na década de 1970. Naquela época, as informações que eu tinha em sala de aula sugeriam que índio era atrasado, que índio era selvagem. Isso chegava até mim com um impacto muito violento. Passei a ter vergonha da minha cara, do meu cabelo, da minha origem. Eu não queria mais ser índio.
Quem mudou a visão negativa que eu fazia de mim mesmo foi meu avô Apolinário. É claro que não foi da noite para o dia, mas o avô foi mostrando, às vezes com sábias palavras, às vezes apenas com o silêncio, que aquela era a minha família e que longe dela eu seria infeliz. Com meu avô aprendi o valor da ancestralidade.
(Bruno Ribeiro. Daniel Munduruku: entrevista. http://consciencia.net. Adaptado)Assinale a alternativa em que a passagem – Passei a ter vergonha da minha origem.
Eu não queria mais ser índio. (1º parágrafo) – está reescrita com o sentido preservado, após a transformação em destaque.
Estes excertos pertencem a diferentes obras de Graciliano Ramos que têm, em comum, o narrador em primeira pessoa. Constitui um excerto de São Bernardo, romance em que aparece a reciprocidade de vícios entre opressor e oprimidos, o que está citado em:
“Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.”
Este trecho revela o estilo de:
Analise o poema “Procura da Poesia”, de Carlos Drummond de Andrade.
(...)
Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
(...)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível que lhe deres:
trouxeste a chave?
Este poema de Drummond ilustra: